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Escritores de língua portuguesa testemunham em escola de Cabo Verde o efeito Vozinha

Escritores foram recebidos com a interpretação de um poema de Celestino Duarte.

08 de outubro de 2026 às 15:37

O efeito "tubarões azuis" esteve esta quinta-feira bem presente num encontro na capital cabo-verdiana entre escritores de língua portuguesa e crianças do primeiro ciclo, com muitos a afirmarem gostar de estudar, mas sobretudo de sonhar em ser como o Vozinha.

A iniciativa que juntou alguns dos escritores que participam no XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, promovido pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) e a Câmara Municipal da Praia, realizou-se na Escola Capelinha, na capital de Cabo Verde.

Os escritores foram recebidos com a interpretação de um poema de Celestino Duarte, sobre a chuva -- tão cara ao arquipélago, que já sofreu severos períodos de seca -, a cargo de dois alunos do quarto ano do primeiro ciclo do ensino básico, que o declamaram de uma forma encenada e vestidos como dois camponeses a tratar da terra.

Os restantes colegas assistiram e, no final, todos interpretaram o hino nacional de Cabo Verde, o "Cântico da Liberdade", de Adalberto Higino Tavares Silva (melodia) e Amílcar Spencer Lopes (letra).

Juntaram-se depois as interpretações de "M'Cria Ser Poeta" (Eu queria ser poeta), de Paulino Vieira, e "Mórna txorá", de Tito Paris.

Mas a música não foi o único gosto que estes alunos partilharam, com muitos deles a afirmarem que gostavam de ser jogadores de futebol e, sobretudo, "Tubarões Azuis", como são conhecidos os jogadores da seleção de futebol de Cabo Verde.

À Lusa, Malick, nove anos e a frequentar o quarto ano, disse que sempre quis ser jogador de futebol, mas que depois da prestação de Cabo Verde no Mundial 2026 ficou ainda com mais vontade.

"O que gosto mais na escola é de matemática, menos de ciência, mas quero mesmo é ser como os Tubarões, como o Vozinha", disse, numa referência ao guarda-redes que se tornou mundialmente conhecido após a sua prestação neste campeonato.

Ao seu lado, com a mesma idade, Lucas também tem um sonho igual. Gosta de livros, como no futuro talvez alguns dos que os escritores que hoje visitaram esta escola escreveram, mas prefere banda desenhada. "É um livro", disse.

Alyssa, também no quarto ano, quer ser professora, porque acha este trabalho importante para o futuro das crianças, para regozijo da docente Isa Freire, que desde quarta-feira preparou estas boas-vindas à delegação de escritores do encontro da UCCLA em Cabo Verde.

Na visita a algumas salas de aula, Olinda Beja (São Tomé e Príncipe), Costa Neto (Moçambique), Alberto Oliveira Pinto (Angola) e José Manuel Diogo (Portugal), partilharam a sua paixão pelos livros que leram e escreveram e falaram um pouco dos seus países de origem.

Para falar da sua terra, Olinda Beja questionou os vários alunos -- do primeiro ao quarto ano -- sobre o fruto que popularizou São Tomé e Príncipe - o cacau, que todos tanto apreciam na forma de chocolate.

E lembrou os tantos cabo-verdianos que ainda lá vivem, muitos deles levados como "contratados", mas que trabalharam como escravos durante décadas, uma situação imortalizada na voz de Cesária Évora e a canção "Sodade", essa sim do conhecimento da maioria dos alunos, que até a interpretaram.

O escritor Costa Neto partilhou com os mais pequenos algumas palavras moçambicanas, escrevendo no quadro "xamani" (olá) e "hambanini" (adeus), e mostrou como está dentro das músicas tradicionais de Cabo Verde e alguns dos seus maiores intérpretes, como Bana, Ildo Lobo ou Cesária Évora.

O escritor angolano Alberto Oliveira Pinto recordou os tempos da infância, afirmando que estudou numa escola angolana muito parecida com a Capelinha e disse que foi cedo que começou a escrever as suas histórias.

De tantas histórias escrever, acabou a publicar uma bem grande, na referência ao livro "História de Angola".

José Manuel Diogo, que vive em Portugal e no Brasil, partilhou com os vários alunos a importância da língua portuguesa, comum a tantos países, e desafiou os mais novos a lerem, a escreverem, mas sobretudo a sonharem, porque o sonho "comanda a vida", aproveitando para recordar a frase do poema "Pedra Filosofal", de António Gedeão.

Ao longo das conversas com as várias turmas, do primeiro ao quarto ano, os "tubarões azuis" foram sendo tema de interação com os escritores, com alguns alunos a não conseguirem conter um "viva Cabo Verde", sempre que as duas palavras aparentemente mágicas se ouviam.

Estes e outros escritores participam, a partir de hoje, no XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que este ano se realiza com o tema "A Língua Portuguesa como elemento de adaptação num mundo de mudança".

*** A Lusa viajou para Cabo Verde a convite da UCCLA ***

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