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Correio da Manhã

Cultura
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ESPECTADOR VOLTA A CASA COM UM VAZIO

O texto não é simples de pôr em cena. “Baal” – peça de estreia de Bertold Brecht que Jorge Silva Melo está a apresentar no Teatro S. Luiz até ao fim do mês – não tem, praticamente, acção. Apenas uma personagem que deambula de um lado para outro, fazendo sempre o mesmo: Baal bebe, canta, diz poesia e seduz mulheres.
23 de Março de 2003 às 00:00
Ao que parece, esta personagem terá existido realmente, e Brecht deixou-se fascinar por um homem cujos lábios foram feitos para enganar toda a gente mas cujos braços eram incapazes de trabalhar. Ao contrário do que acontecerá no seu teatro posterior, aqui não tem “mensagem” para transmitir. Apenas a contemplação de uma alma perdida que gradualmente se degrada. E, no fim de “Baal”, o espectador vai para casa com esse vazio.

TRABALHO E COMPETÊNCIA
O espectáculo de Silva Melo revela, porém, trabalho e competência. Houve, por exemplo, um cuidado extremo na elocução: o encenador pôs os actores a dizer texto com tons e ritmos diferentes, de maneira a criar uma partitura musical que ora acelera ora abranda, que sobe e desce de decibéis, que nos vai embalando.
O mesmo cuidado foi empregue na movimentação cénica: com poucas ou muitas personagens, Silva Melo desenhou em palco coreografias que preenchem o espaço harmoniosamente.
Infelizmente, a preocupação em manter o espectáculo com níveis de energia elevados impede algumas vezes a total compreensão dos sentidos do texto. A cena da morte de Teddy é um exemplo: com a gritaria, não chegamos a perceber que Baal pregou mais uma das suas partidas, roubando a aguardente ao morto...
Mas é certo que o encenador controlou – melhor do que alguma vez tinha feito – o seu jovem elenco. Destacam-se, naturalmente, Miguel Borges (que tem a ingrata tarefa de interpretar Baal, uma personagem que está sempre bêbeda e que, quando abre a boca, é para se exprimir poeticamente), e José Airosa, o seu amigo/amante, que também não tem um discurso propriamente claro. Tudo gira em volta destes dois actores que, não deslumbrando, cumprem o que lhes é pedido.
Excelente é mesmo o espaço: o cenário de Rita Lopes Alves e José Manuel Reis e o desenho de luz de Pedro Domingos, que no palco do S. Luiz puderam, finalmente, dar largas a todo o seu talento. Ver até dia 30.
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