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Correio da Manhã

Cultura
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ESTÁ-SE MAIS PERTO DO CÉU

Enganaram-se redondamente aqueles – e eram muitos – que esperavam um Robert Smith e os seus The Cure decadentes, “mais mortos do que vivos”, moribundos e em processo de definhamento criativo. Enganaram-se os que os viram no Sudoeste em 1998, enganaram-se os que pensavam assistir a uma caricatura do que foi a banda nos anos 80, enganaram-se os que projectaram antecipadamente o fim de uma instituição.
19 de Julho de 2004 às 00:00
Que grande concerto deram os The Cure! É verdade que, 25 anos depois do início, ainda são canções como ‘Friday I’m In Love’, ‘Boys Don’t Cry’, ‘100 Years’ ou a genial ‘Just Like Heaven’, as que mais suscitam paixões num público constituído por alguns jovens de cabelos em ninho, lábios esborratados, roupas pretas.
O que ninguém poderia esperar era um concerto constituído por 28 canções, quatro ‘encores’ e um bónus, ‘Lovecats’, que muito raramente a banda toca ao vivo.
Com todas as expectativas superadas por uma profunda vontade de prosseguir até ao fim sem perder dignidade, os The Cure mostraram que sabem como ninguém combinar emoções com melodia, o preto da revolta com o vermelho da intensidade e, mesmo que com alguns acordes tocados um pouco fora de tempo, mais de 22 mil pessoas, entre elas os velhinhos pais de Robert Smith, saíram saciadas do segundo dia do festival.
HARMONIA PORTUGUESA
Até aos The Cure terem entrado em palco para proporcionar o melhor concerto dos dois primeiros dias do evento, eram os Clã os campeões da receptividade e da partilha. Foi lindo ver ‘Sopro do Coração’ cantado em uníssono e nem os problemas que afectaram o baixo impediram que tivessemos assistido ao melhor concerto de uma banda portuguesa nesta edição do Vilar de Mouros.
Desculpem-me tornar a prosa demasiado pessoal mas tenho de vos confessar que não gosto de Ice T, um ‘rapper’ assumidamente mau rapaz e que não faz questão de esconder isso de ninguém.
Ao desfilar rimas que provocam a sociedade conservadora norte-americana, procura ser um activista com um discurso onde não se cansa de atacar a Polícia, a política norte-americana, o “anti-cristo Bush”, destilando palavrões mais a torto do que a direito e intercalando palavras ditas com cantadas. Onde peca então aquele que é um dos mais famosos do rap americano? Na educação, na postura, na falta de amor pelo próximo.
Os concertos do palco principal tiveram início às 20h00 com os Fingertips e as suas canções que uns consideraram “xaropadas” e outros emocionantes. Ninguém, no entanto, parece duvidar da capacidade do vocalista Zé Manuel para escrever e cantar baladas românticas e orelhudas como ‘Mellancholic Ballad’ e ‘Pictures of My Own’.
Antes, à tarde, no palco secundário, mataram-se saudades dos Ramones através de um grupo português que lhes presta homenagem – os Ramonada –, tomou-se banho no rio Coura – alguns em pêlo –, conviveu-se harmoniosamente com a simpática população local, bebeu-se verde tinto, ouviu-se muito falar em espanhol, partilharam-se experiências e sensações.
Como Manuel Cavaleiro, de Coimbra, não se cansa de repetir, “aqui está-se mais perto do céu”.
RICOS PELINTRAS
Ninguém dorme no ‘camping’ improvisado à beira-rio porque três discotecas ao ar livre, que tocam 24 horas sem parar uma música de qualidade duvidosa, não o permitem. A GNR já compareceu no local com o objectivo de os expulsar, mas sem sucesso.
Sobre o assunto, Carlos Alves, mostra-se firme: “O pessoal que controla isso faz parte de uma máfia do pior”. Com o pretexto de que o espaço serve para as crianças brincarem, não faltando inclusivamente inúmeros brinquedos, montam tendas gigantes onde, mesmo que não haja ninguém para dançar, a música não pára. “São na sua maioria estrangeiros, parecem pelintras mas estão cheios de dinheiro”, afirma, convicto, o presidente.
FESTIVAL NÃO PODE MORRER
Carlos Alves, presidente da Junta de Freguesia de Vilar de Mouros, é peremptório: “Se a auto-estrada passar por aqui é um crime, um atentado, é hipotecar o futuro desta região, é estragar-nos a terra, é colocar em causa o futuro de um festival que vai ficar avassalado”.
Álvaro Covões, da organização, diz que não conhece o ‘dossier’, mas concorda que se o projecto avançar nos moldes que foram aprovados vai ficar “horrorizado”. No entanto, não desconfia que isso, bem como o facto do protocolo para a realização do festival no próximo ano ainda não estar assinado, irá colocar em causa a continuidade do evento.
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