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Correio da Manhã

Cultura
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Estranho magnetismo

Os Strokes têm o gosto e o trabalho de reciclar e voltar a dar – afinal, é mais ou menos assim que se vêm fazendo grandes discos.
15 de Janeiro de 2006 às 00:00
Estranho magnetismo
Estranho magnetismo
Ao terceiro andamento, cumprido com ‘First Impressions Of Earth’, os nova-iorquinos Strokes alcançam vários objectivos: deixam o segmento da moda para passarem a ter assento reservado na fila dos verdadeiros músicos; sem apelarem ao valor ‘maturidade’, tantas vezes a via rápida para a estagnação, alinham uma série de canções que (sem a espontaneidade de ‘Is This It’ ou a teimosia de ‘Room On Fire’, precisamente os dois capítulos anteriores) lhes valerá certamente o ‘crossover’ de públicos e gerações; assinam o melhor ‘single’ possível – o magnífico ‘Juicebox’, capaz de evocar em simultâneo os anos 60, os ‘eighties’ da ‘new wave’ e o presente – desde ‘Modern Age’ e ‘Last Nite’; enfim, sobrevivem de forma nobre e consistente às expectativas que lhes foram atiradas para cima dos ombros.
Em pouco mais de 50 minutos, o quinteto, que tem pontas de lança no cantor Julian Casablancas e os guitarristas Nick Valensi e Albert Hammond Jr. (sem desprimor para a secção rítmica), que ameaçam prolongar os contrapontos eléctricos de Keith Richards e de quem o acompanha nas seis cordas dos Stones, avia nada menos de 14 canções sólidas, sem cederem a uma forma que lhes retire o espaço de invenção. Uma a uma, com primazia para a batida quase obsessiva de ‘Juicebox’, vão entrando no subconsciente de quem as ouve, muito por força da recuperação de uma prática que, nos Strokes, está longe de ser envergonhada: há por aqui um cuidado extremo com a força e com o ‘timing’ de um refrão.
O resto, quase apetece dizer, vem nos livros: desde uma linha baixo-guitarra que se aproxima de Joe Jackson até uma vocalização que remete sem escala para Stan Ridgway, dos Wall Of Voodoo, passando por ‘riffs’ e malhas que não têm idade decifrável (Big Country e mais ZZ Top e ainda reminiscências dos Gen X ou dos Devo, numa espécie de tudo ao molho e fé na ficha… eléctrica), os Strokes são autênticas máquinas a sorver o que foi esquecido lá atrás. Depois, têm o gosto e o trabalho de reciclar tudo e voltar a dar – afinal, é mais ou menos assim que se vêm fazendo os grandes discos de rock…
A produção de David Kahne também os impede de pôr pé em ramo verde: as guitarras são para arranhar (mas lá anda a melodia, sempre), a voz não é para fazer festinhas aos egos, a bateria é mesmo para se sentir no coração. Nesse aspecto, ‘First Impressions Of Earth’ é cumprido a rigor, sem um único momento que passe a impressão de quebra de rendimento, de baixa de produtividade. Há temas de adesão imediata, como se viu. Mas até os que mais parecem fugir ao padrão – ‘Ask Me Anything’ e ‘15 Minutes’, com Casablancas a vogar por um registo próximo do de Shane MacGowan (!) – acabam por exercer um estranho magnetismo, um contágio crescente em quem ouve.
Tudo pesado, apetece dizer que temos, de uma vez por todas, uma banda que personifica o melhor que a música popular (ou o rock) sabe dar no novo milénio: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Desde que seja bem aproveitadinho – e é o caso –, nada a opor.
NOTA: ‘A Toque de Caixa’ vai mudar de dia de publicação, passando da edição de domingo para a de sábado, a começar já no próximo dia 20.
TOCA A TODOS
Will Oldham, mais conhecido como BONNIE ‘PRINCE’ BILLY, norte-americano famoso com álbuns como ‘Master and Everyone’ e ‘Sings Greatest Palace Music’. Pela primeira vez, em ‘Summer In The Southeast’, decide-se a registar o seu frente a frente com o público. E as canções ganham nova dimensão com a energia de palco e com a banda que o suporta.
ELISSA JONES tem em ‘This Melodie’ a sua segunda aventura (depois de ‘Shadows’), pautada por um voluntário desalinhamento de modas e modelos. Na linha de Tasmin Archer ou Des’rée, a soul e as raízes negras não comprometem a liberdade criativa.
TOCA E FOGE
Se há álbum que já merecia andar por cá é ‘Our New Orleans’, cujos lucros revertem a favor das vítimas dos furacões. Não há gato por lebre: produções entregues a Hal Willner, Ry Cooder, Joe Henry, e vozes de Allen Toussaint, Dr. John, Irma Thomas e RANDY NEWMAN, entre outros, garantem que às boas intenções se juntam as óptimas canções.
Passaram 20 anos desde que apareceu alguém a rivalizar com Paddy MacAloon (Prefab Sprout) dentro da editora Kitchenware. MARTIN STEPHENSON continua a compensar a intermitência com talento. Em ‘Wheel Of Fortune’, atira-se aos ‘blues’. E não é que continua a marcar pontos?
MERCADO EXTERNO
É das vozes mais carismáticas de Itália, em álbuns como ‘Sugo’ ou ‘Diesel’. Agora, EUGENIO FINARDI surpreende – com Francesco Di Giacomo e Marco Poeta lança ‘O Fado’. ‘Barco Negro’, ‘Coimbra’ e ‘Foi Deus’ aparecem em Português, nas vozes dos seus cúmplices, já que Finardi se reserva para as traduções em italiano e canta originais de Linhares Barbosa, Frederico de Brito e Amadeu do Vale, entre outros. Óptimo exemplo do Fado visto do exterior.
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