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Correio da Manhã

Cultura
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Faleceu Artur Ramos

Faleceu ontem, em Lisboa, aos 80 anos, o encenador e realizador português Artur Ramos, que o grande público conhece sobretudo pelo muito trabalho desenvolvido no pequeno ecrã.
10 de Janeiro de 2006 às 00:00
Ele, que foi o primeiro realizador da RTP, assinou uma das primeiríssimas séries de grande qualidade ‘made in’ Portugal: o inesquecível ‘Retalhos da Vida de um Médico’, a partir da obra homónima de Fernando Namora.
E numa altura em que havia teatro na televisão, Artur Ramos foi o grande impulsionador de uma rubrica que permitiu aos portugueses tomarem contacto com alguma da melhor dramaturgia mundial de sempre. Na RTP, dirigiu peças de Tchekov, Marivaux, Garrett, Gil Vicente, Wilde, O’Neil, Pagnol ou Bernard Shaw, entre muitos outros.
Uma das suas maiores glórias foi ter sido o primeiro encenador português a ter levado à cena uma peça de Samuel Beckett. Em 1968, sete anos depois da estreia absoluta da peça, em Nova Iorque, o encenador estreava, na Casa da Comédia, ‘Os Dias Felizes’, numa tradução de Jaime Salazar Sampaio e com interpretações de Glicínia Quartim e Ruy Furtado.
Aliás, no teatro, onde também se destacou, ficaram na memória as suas encenações na companhia de Amélia Rey Colaço, onde dirigiu obras de Salazar Sampaio, Augusto Sobral ou Harold Pinter (Prémio Nobel da Literatura 2005). Nos últimos anos, dedicava-se sobretudo à tradução, tendo publicado, em colaboração com a mulher, Helena Ramos, vários ficcionistas contemporâneos.
O funeral de Artur Ramos realiza-se amanhã, no Cemitério do Alto de S. João, Lisboa. O cortejo parte às 11h00 do centro funerário de S. Pedro de Alcântara, onde o corpo estará em câmara-ardente a partir das 14h00 de hoje.
PERFIL
Artur Ramos nasceu em Lisboa a 20 de Novembro de 1926 e licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras. Em Paris, onde viveu durante cinco anos, obteve uma bolsa do governo francês para o Instituto de Altos Estudos Cinematográficos. Em Portugal, foi realizador efectivo da RTPe fundou duas companhias de teatro: o Grupo de Acção Teatral e a Companhia do Teatro Maria Matos. Foi crítico de teatro da revista ‘Seara Nova’ e professor do Conservatório Nacional. No cinema, assinou dois filmes: ‘Pássaros de Asas Cortadas’, a partir de uma obra de Luiz Francisco Rebello, e ‘A Noite e a Madrugada’, com base num original de Fernando Namora.
O ano passado foi homenageado pelo Festival Internacional de Teatro de Almada como “um homem de cultura, e uma personalidade humanista e tolerante, a quem devemos, todos os que trabalhamos no teatro, um exemplo de qualidade artística, de escrupulosa seriedade e de permanente energia”, conforme se podia ler no programa da homenagem.
DEPOIMENTOS
DELICADEZA E GENOROSIDADE
“Foi uma das pessoas que mais me apoiou no início da minha formação. Sempre reconheci nele uma grande delicadeza e generosidade e era muito atento aos outros, sobretudo aos mais novos.” (Luís Miguel Cintra - Actor)
"FIGURA DE REFERÊNCIA"
“Foi uma figura de referência da realização de cinema e, do ponto de vista cívico, atento ao mundo e à sociedade em que vivia. Foi meu mestre e uma pessoa muito generosa.” (José Nuno Martins - Realizador)
"O MEU MAIOR AMIGO"
“Era o meu maior amigo de há 60 anos, um encenador de grande nível e imaginativo que estava na vanguarda do teatro, onde desenvolveu um trabalho extraordinário.” (Luiz F. Rebello - Dramaturgo)
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