Tráfico de droga, prostituição e guerra entre grupos criminosos pelo controlo do território. São estas algumas das imagens com que as pessoas são bombardeadas sempre que a comunicação social noticia alguma ocorrência nas favelas brasileiras. E, no entanto, há pessoas que tentam ter uma vida normal num mundo onde a miséria e a violência convivem todos os dias com os habitantes.
'Morro da Favela', o mais recente livro saído da mente de André Diniz apoiado nas memórias do fotógrafo Maurício Hora, revela um quotidiano totalmente diferente das pessoas do Morro da Providência.
Primeira favela construída no Rio de Janeiro no final do século XIX, viu o termo vulgarizar-se e passar a designar todos os bairros clandestinos que nasceram nas encostas que rodeiam a cidade carioca.
"O Maurício Hora é um verdadeiro documento vivo", afirma o autor do livro que a Polvo irá colocar nas livrarias na segunda quinzena de fevereiro. Nascido e criado no bairro, "fez-me um retrato cheio de subtilezas sobre a vida na favela. O pai dele, por exemplo, foi um dos primeiros traficantes de droga locais na década de 60", numa realidade ainda muito distante da que actualmente se conhece.
No entanto, "desde logo ficou muito claro para mim que não queria fazer mais um relato sobre a violência", realça, "mas antes uma história sobre as pessoas que convivem com ela".
E, como exemplo, conta o dia em que Maurício Hora decidiu ensinar fotografia a 50 habitantes do bairro, sem que nenhum deles tivesse máquina fotográfica. Apanhado de surpresa, explicou-lhes a importância do enquadramento, fazendo um rectângulo com os dedos da mão.
"Foi aí que percebi que tinha ali a minha história", sobre pessoas que "não são nenhuns coitadinhos, mas que também não são necessariamente bandidos".
Com este livro, "procurei desmistificar a questão da favela e realçar a humanidade das pessoas que lá vivem", afirma. Para esse retrato, em muito contribui o traço do autor, muito influenciado pela cultura africana, "uma paixão que é muito minha".
A edição portuguesa de ‘Morro na Favela' é complementada por fotografias de Maurício Hora, que dão uma imagem real sobre a vida no bairro. "Ficaria bastante satisfeito se conseguisse passar para o leitor português a riqueza de uma realidade que a sociedade brasileira tem alguma vergonha em assumir".
PERFIL
Entre 2000 e 2012, o argumentista e desenhador brasileiro de 37 anos publicou mais de 25 títulos e foi galardoado com 16 prémios. ‘Morro na Favela', primeiro livro do autor publicado no nosso País foi premiado com o troféu HQ Mix, um dos prémios brasileiros mais importantes do meio.
Fotógrafo autodidacta nascido no Morro da Favela, em 2005 foi director de fotografia do Favelité, projecto que levou o cenário daquele bairro para o metropolitano de Paris. Em 2009, expôs ao lado do fotógrafo francês JR retratos da favela na Casa França-Brasil.
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