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Correio da Manhã

Cultura
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FERNANDO TORDO: ENGANÁMOS A CENSURA

Quando, em Abril de 1973, Fernando Tordo interpretou, pela primeira vez na televisão, o tema “Tourada”, escrito em parceria com Ary dos Santos propositadamente para o Festival da Canção, muitos foram os que ficaram de boca aberta a perguntar-se como é que em época de regime apertadíssimo, a censura não havia sabido ler nas entrelinhas.
24 de Abril de 2003 às 00:02
Seis milhões de pessoas ouviram a canção em directo, diz Tordo
Seis milhões de pessoas ouviram a canção em directo, diz Tordo FOTO: Marques Valentim
Os 30 anos de “Tourada” são hoje comemorados no Centro Olga Cadaval, em Sintra, através do espectáculo “E No Entanto Ela Move-se”, título do último trabalho de originais de Fernando Tordo.
Com uma letra incisiva e “um ritmo estranho para uma canção portuguesa” como recorda Tozé Brito, a “Tourada” não só viria a vencer o Festival de 73 como a tornar-se na mais representativa de uma época “em que já existiam grandes e pequenos sinais que indiciavam que algo ia acontecer”, recorda hoje Fernando Tordo ao CM.
“Surpreendeu-me a vitória mas antes já me tinha surpreendido o facto dela ter sido apurada. Tudo o que eu e o Ary dos Santos fizemos foi aproveitar a terminologia da tourada para fazer o retrato de uma sociedade e a censura não percebeu isso. Conseguimos enganá-la”, lembra Tordo.
A verdade é que nem no Festival Eurovisão, no Luxemburgo, a canção passou despercebida. “Lembro-me da reacção dos jornalistas que ficaram muito surpreendidos com o texto da cantiga e com o que ela queria dizer”.
Resultado de uma parceria que já existia desde 1968 entre Fernando Tordo e Ary dos Santos, “Tourada” é hoje, segundo o intérprete, uma canção importante, não só no sentido restrito, musical, mas também no histórico. “Calcula-se que naquela noite mais de seis milhões de pessoas ouviram a canção”, recorda.
OPINIÕES
CARLOS MENDES (CANTOR): “MENSAGEM MUITO SUBTIL”
“Essa era uma canção com uma mensagem tão subtil que conseguiu enganar a censura. Aliás, acho que foram muito poucos os que, no início, se aperceberam da mensagem. É curioso porque fui eu que em 1973 entreguei o prémio do Festival da Canção ao Fernando Tordo”.
SIMONE DE OLIVEIRA (CANTORA): “ENORME VALOR HISTÓRICO”
“Ainda hoje ninguém sabe como é que essa canção passou. A censura deve ter tido um ataque de burrice colectiva. Mas ainda bem porque essa canção tem hoje um enorme valor histórico. Curiosamente, venceu o Festival no ano em que eu voltei a cantar depois de ter estado três anos parada”.
TOZÉ BRITO (ED. UNIVERSAL): “NÃO PERDEU ACTUALIDADE”
“Ouvi essa canção estava em Londres. Confesso que não dei logo pela mensagem. Só depois percebi a intenção que estava por detrás. Hoje, é engraçado ver que esse tema não perdeu actualidade. A carapuça não era só política mas também social. E em alguns aspectos estamos iguais”.
’TOURADA’
Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
de espera.
Entram guizos chocas e capotes e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes porque tudo o mais
são tretas.
Entram vacas depois dos forcados que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão não pega.
Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.
Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.
Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.
Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...
Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro aos milhões.
E diz o inteligente
que acabaram asa canções.

Música: Fernando Tordo
Letra: Ary dos Santos 1973.
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