Mais de 30 mil pessoas acompanharam o cortejo fúnebre do músico e poeta.
1 / 15
Um mar de gente e de cravos vermelhos inundou Setúbal, nessa terça-feira, 24 de fevereiro de 1987, quando José Afonso foi sepultado, no cemitério de Nossa Senhora da Piedade.
Mais de 30 mil pessoas, segundo números oficiais então divulgados, acompanharam o músico, o compositor, o poeta, o combatente, o criador de "Grândola, Vila Morena", que morrera na madrugada anterior, 23 de fevereiro, aos 57 anos, no hospital da cidade.
A antiga Escola Industrial e Comercial de Setúbal, onde José Afonso fora professor duas décadas antes, e de onde a ditadura o expulsara, acolhia agora o seu corpo. No pátio e nas ruas em volta, onde já não cabia mais gente, recitavam-se versos da "Trova do vento que passa", de Manuel Alegre: "Há sempre alguém que resiste/ há sempre alguém que diz não."
Por volta das 15h00, quando a urna, levada em ombros por amigos do músico, apareceu ao cimo das escadas da escola, a multidão, sem qualquer aviso ou combinação prévia, começou a cantar "Grândola, vila morena", a senha do 25 de Abril. Foi a primeira de muitas canções de José Afonso entoadas durante essa tarde.
Os músicos Francisco Fanhais e Luís Cília encabeçavam o grupo que transportava o caixão, coberto por um pano vermelho, sem qualquer símbolo, como o músico pedira, rodeado de cravos e com um pão aberto.
Nas horas seguintes, operários da antiga cintura industrial de Lisboa e pescadores de Setúbal, amigos de José Afonso, familiares, como o irmão João, e companheiros de percurso, como José Mário Branco, Sérgio Godinho ou Júlio Pereira, reverzar-se-iam no transporte do corpo.
No funeral de José Afonso, não havia luto. Esse era outro dos desejos do cantor.
Todos se juntaram, homens e mulheres, novos e velhos, jovens e crianças, quase sempre de cravo vermelho e punho direito cerrado e erguido. Todos cantaram.
O quilómetro e meio que separa a atual Escola Secundária Sebastião da Gama do chamado cemitério velho, foi percorrido a passo, ao longo de duas horas e meia, ao som da música do cantor, sobretudo "Grândola, vila morena".
A Sociedade Musical da Fraternidade Operária Grandolense juntou-se ao cortejo e eram tantas as pessoas que parecia impossível vislumbrar o início ou o fim da torrente. O trânsito parou. As avenidas 5 de Outubro e Jaime Cortesão ficaram cheias, sem clareiras na multidão.
Muitas fábricas deram tolerância aos trabalhadores, para acompanharem o funeral de José Afonso, assim como a Câmara Municipal de Setúbal, a cidade onde este fundara, ainda antes da Revolução dos Cravos, o Círculo Cultural.
Sindicatos, cooperativas, grupos desportivos, empresas, comissões de trabalhadores, partidos e movimentos políticos manifestaram o seu pesar.
Foi o caso da Intersindical e da União Geral de Trabalhadores, da Frente Revolucionária de Timor Leste Independente (Fretilin), de empresas como a Carris e de outras que eram públicas como a Portucel, a Rodoviária Nacional, EDP ou os CTT.
O Presidente da República Mário Soares lamentou a perda. Figuras da política como Ramalho Eanes, Vasco Gonçalves e Maria de Lourdes Pintasilgo, os socialistas Lopes Cardoso e Marcelo Curto, José Manuel Tengarrinha e Helena Cidade Moura, do MDP, Isabel do Carmo e Carlos Antunes, Jerónimo de Sousa, do PCP, Palma Inácio, da LUAR - Liga de Unidade e Acção Revolucionária, Mário Tomé e Maria Santos, que foram deputados da UDP e do PS, também estiveram presentes, segundo a imprensa da época.
Os escritores Urbano Tavares Rodrigues, os atores e encenadores Maria do Céu Guerra, Helder Costa, Lia Gama e Artur Ramos, o cineasta José Fonseca e Costa, o médico, músico e produtor José Niza (que trabalhara com José Afonso), os músicos Carlos Paredes, Carlos do Carmo, os Trovante, Vitorino e Janita Salomé, o fadista Rodrigo e os espanhóis Luís Pastor e Pi de La Serra também acompanharam o funeral.
Não faltaram o futebolista Diamantino, que jogava pelo Benfica, nem o treinador Joaquim Meirim, do Desportivo das Aves.
Teresa Gouveia, então secretária de Estado da Cultura, esteve presente a nível particular, enquanto o governo, o primeiro liderado por Cavaco Silva, se manteve mudo, como nota a imprensa da época.
Os jornais desses dias também dão conta do esforço da governadora civil de Setúbal, Irene Aleixo, para proibir a realização do velório, na escola, alegando "perturbação emocional da população estudantil".
Mas foram exatamente esses, os mais novos, que acorreram em massa ao estabelecimento de ensino, para acompanhar o funeral.
Um cordão humano, feito por amigos do criador de "Maio, maduro maio", manteve a urna à cabeça do cortejo.
A chegada ao cemitério foi feita ao som da "Balada do outono": "Águas das fontes calai/ Ó ribeiras chorai/Que eu não volto a cantar". Populares agitaram lenços brancos e vermelhos e a filarmónica voltou a tocar "Grândola".
José Mário Branco, Francisco Fanhais, Luís Cília, João Afonso, Pi de la Serra e Camilo Mortágua carregavam a urna.
Às cinco e meia foi depositada na campa rasa n.º 1606.
Foi "um enterro a cantar", num "cemitério vivo", escreveu Nuno Ribeiro, o repórter do Diário de Lisboa.
No final dessa tarde cinzenta e nebulosa, populares gritavam "Zeca estará sempre vivo", e um grupo de jovens, de cravos vermelhos nas mãos, erguia uma enorme faixa branca onde se lia "Zeca, não morrerás entre nós".
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.