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Correio da Manhã

Cultura
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Guerra dos bonecos ganha nova frente

No final da década de 80, os estúdios Disney regressaram à ‘pole position’ do cinema de animação com ‘A Pequena Sereia’, filme que espoletou uma série de sucessos cujo ponto comum foi o reencontro da companhia com os valores fundamentais implementados pelo próprio Walt Disney.
1 de Abril de 2006 às 00:00
Em 1995, porém, tudo mudou, com a chegada de Buzz, Woody e os restantes brinquedos de ‘Toy Story’, já não desenhados à mão, mas por computador. A Disney percebeu a importância da revolução (o filme rendeu 362 milhões de dólares) e assinou contrato para distribuir as produções da Pixar. Os números, em milhões de dólares, falam por si: ‘Vida de Insecto’ (363), ‘Toy Story 2’ (485), ‘Monstros e Companhia’ (525), ‘À Procura de Nemo’ (865), ‘Os Incríveis’ (631).
A dependência tornou-se tão grande que, ante a ameaça de perder a parceria, o fim anunciado do departamento de animação tradicional e as expectativas defraudadas da sua primeira produção computadorizada a solo – ‘Chicken Little’ –, a Disney preferiu jogar pelo seguro e comprou a Pixar em Janeiro.
Nos últimos anos, Pixar e DreamWorks – esta a apresentar sucessos como ‘Antz’, os dois ‘Shrek’ e ‘Madagáscar’, que contrabalançaram o ‘flop’ dos filmes de animação tradicional – dominaram o mercado em acesa competição e deixaram uma esteira de novas oportunidades que outros grandes estúdios pretendem agarrar.
TRIUNVIRATO
É o caso da 20th Century Fox que, com ‘A Idade do Gelo 2: Descongelados’ pretende rentabilizar os lucros do primeiro ‘Ice Age’ e criar um triunvirato no mercado da animação por computador, depois de perder tempo e terreno com ‘Robots’. A Fox sabe que é possível bater a Disney/Pixar, pois ‘Shrek’, a jóia da DreamWorks, só nos EUA rendeu mais de 700 milhões de dólares, já para não falar da sequela. E se pensarmos ainda nos DVD...
A tentação é demasiado grande para Hollywood resistir. Este ano, a produção surge particularmente viva e prevê-se nova batalha entre Pixar – que lançará ‘Cars’ e ‘Ratatouille’– e a DreamWorks, ao ataque com ‘Over The Edge’ e ‘Flushed Away’.
No meio desta guerra, onde param os sucessores de ‘O Rei Leão’? A Disney, por intermédio do novo presidente, pretende voltar atrás na intenção de matar a animação à mão, bastante mais morosa e dispendiosa, mas muitos acreditam que a sereia não voltará a cantar, apesar da última edição dos Óscares ter apresentado três candidatos ‘tradicionais’, com vitória da plasticina de Wallace e Gromit. Os bonecos concebidos pelo lápis aguardam para serem descongelados...
O OUTRO BRASILEIRO
Carlos Saldanha tinha 22 anos quando deixou o Rio de Janeiro para rumar aos EUA. Fez mestrado em animação computadorizada na Escola de Artes Visuais de Nova Iorque, com dinheiro emprestado por amigos. Ainda estudante, realizou a curta-metragem ‘Time For Love’ e ganhou prémios.
Pela mão de Chris Wedge, seu instrutor no mestrado, juntou-se à produtora Blue Sky, sendo encarregue dos efeitos especiais de ‘Clube de Combate’ e realização de ‘A Idade do Gelo’, ‘Robots’ e ‘A Idade do Gelo 2’, além da curta ‘Gone Nutty’, que lhe valeu uma nomeação para o Óscar. O cinema brasileiro não é só Fernando Meirelles e Walter Salles...
O SUCESSO DE SCRAT
O primeiro ‘Ice Age’ (2002) ajudou a 20th Century Fox a recuperar a confiança no cinema de animação, depois
do fracasso de ‘Titan A.E.’ (2000), ainda desenhado por processos tradicionais. A produtora Blue Sky pretendia fazer um drama mas a Fox só aceitou o filme no formato de comédia para crianças, acentuada pelo sucesso de Scrat nos testes de público.
O pequeno roedor que faz das tripas coração para proteger a bolota apenas deveria surgir nos minutos iniciais, mas ganhou outras cenas. Em ‘A Idade do Gelo 2’ tem um papel muito maior e foi a principal figura usada na promoção do filme, embora não diga uma só palavra.
TRIOLOGIAS NA CALHA
Desde que ‘O Padrinho II’ ganhou o Óscar para filme do ano, as sequelas tornaram-se apetecíveis para os investidores e o cinema de animação não foge à regra, apesar da Disney ter apostado, nos últimos anos, no mercado de vídeo e depois DVD para lançar as continuações de obras como ‘O Rei Leão’ ou ‘Tarzan’.
No entanto, ‘Toy Story 2’ revelou-se ‘O Padrinho II’ da animação por computador e ‘Shrek 2’ confirmou que o público não se importa de voltar ao cinema para ver os mesmos bonecos. O ogre verde da DreamWorks já tem um 3.º episódio na calha, assim como Buzz, Woody e os outros brinquedos da Pixar/Disney.
FOCADO
Scrat e a sua bolota. As desventuras do pequeno roedor, que não surge tão marginal ao enredo como no primeiro ‘A Idade do Gelo’, provocam gargalhadas. O ritmo da história também aumentou nesta sequela, para além de existir um maior equilíbrio na relevância de todasas personagens, incluindo as novidades. Quem gostou do anterior, vai adorar este filme.
DESFOCADO
Perdoe-se alguma ingenuidade no argumento, sobretudo na forma como é resolvida a ameaça do degelo e também alguma incoerência nas mudanças terra/água no vale. Diego, o tigre dentes de sabre, é o personagem que mais perde em relação ao primeiro ‘A Idade do Gelo’. Tecnicamente, o filme fica a dever às obras da Pixar/Disney, mas é só por pormenores.
FICHA TÉCNICA
Título original: ‘Ice Age:The Meltdown’
Realizador: Carlos Saldanha (foto)
Argumento: Jon Vitti
Vozes: Ray Romano (Manny), John Leguizamo (Sid), Denis Leary (Diego), Queen Latifah (Ellie), Jay Leno (Fast Tony)
CÂMARA OCULTA
Apesar do papel reduzido, Scrat, acompanhado da sua bolota, tornou-se na figura mais querida do público no primeiro filme. Ganhou em todas as sondagens...
ONDE VER
Lisboa – Amoreiras, Colombo, Vasco da Gama, Twin Towers, Fonte Nova, Millenium Alvaláxia, Londres, Monumental, El Corte Inglés
Faro – Fórum Algarve
Porto – Dolce Vita, MaiaShopping, NorteShopping, GaiaShopping, AMC
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