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Correio da Manhã

Cultura
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“Homem Sem Rumo” em cena na Comuna

Álvaro Correia diz que, a haver algo de comum entre as encenações que assinou, tal será a escolha do repertório, que incide invariavelmente sobre textos em que a falta de afecto marca as relações entre as personagens. O seu mais recente espectáculo – “Homem Sem Rumo”, acabado de estrear na Comuna, em Lisboa – não é excepção. Cinco personagens, todas relacionadas por laços de sangue, são também os mais encarniçados inimigos uns dos outros, pois lutam pelo mesmo: dinheiro.
24 de Outubro de 2008 às 00:30
“Homem Sem Rumo” em cena na Comuna
“Homem Sem Rumo” em cena na Comuna FOTO: Jorge Paula

O texto, do norueguês Arne Lygre (n. 1968), conta a história de Peter, um homem que tem o sonho de edificar uma cidade a partir do nada e que 30 anos depois, no auge do sucesso, descobre que tem uma doença terminal. À sua volta, quais abutres, acumulam-se os familiares – falsos ou verdadeiros, nunca saberemos – que aguardam a morte de Peter e um quinhão dos seus bens.

Mas se o enredo da peça gira em torno da grande obsessão contemporânea pelo dinheiro, o mais interessante - e, ao mesmo tempo, horrível - do texto é a forma como Lygre, na boa tradição bergmaniana, retrata as relações familiares: de forma fria, distante, desprovida de compaixão. Só no final, num crescendo de tensão de certa forma inesperado, e que se prende com a necessidade de dar um desfecho ao texto, há uma cena de violência física que pode chocar (o espectáculo está classificado para maiores de 16).

 

Álvaro Correia salienta que a peça o fascinou pela actualidade e pela teatralidade. “Vivemos num tempo em que o dinheiro se sobrepõe a tudo, inclusivamente ao afecto”, diz. “Nesse sentido, levar a peça de Lygre à cena faz muito sentido, até porque a questão não é abordada de forma moralista ou didáctica. Por outro lado, interessou-me o jogo teatral, a contracena, no fio da navalha.”

 

A escrita de Lygre cativa pela estranheza – aquele tipo de estranheza que impede que compreendamos tudo o que se diz e faz em palco. Longe de iluminar o texto, a encenação sublinha essa estranheza: há um desajuste – intencional – entre texto e subtexto das personagens. Se percebemos as palavras que dizem, não compreendemos as suas intenções, a motivação dos actos que praticam e das decisões que tomam. E é o suficiente para que o espectador se mantenha alerta do início ao fim do espectáculo.

 

A interpretação do elenco – composto por Jorge Andrade, João Tempera, Carlos Paulo, Maria Ana Filipe, Mia Farr e Tânia Alves – corresponde na perfeição a esta investida no reino do incompreensível, num espectáculo que resulta tão opaco quanto, por isso mesmo, fascinante. 

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