Barra Cofina

Correio da Manhã

Cultura
4

Homenagem a Alçada apaga título

Uma opção do editor de não incluir na bibliografia do escritor António Alçada Baptista o título ‘Conversas com Marcello Caetano’ está a suscitar polémica. De facto, apesar de um dos coordenadores da obra de homenagem, Guilherme Oliveira Martins, afirmar ao CM que na bibliografia são referidas “obras originais e não entrevistas ou obras de circunstância”, a importância do título está fora de causa: Mário Soares evoca-o no seu depoimento e Veiga Simão ‘pesca’ a sua introdução para definir o autor.
16 de Fevereiro de 2007 às 00:00
O tributo a Alçada Baptista não inclui ‘Conversas com Marcello’
O tributo a Alçada Baptista não inclui ‘Conversas com Marcello’ FOTO: Jorge Paula
‘António Alçada Baptista, Tempo Afectuoso – Homenagem ao Escritor e Amigo de Todos Nós’, posto à venda na semana passada, é edição conjunta do Centro Nacional de Cultura (CNC) e da Editorial Presença, que publica os livros de Alçada desde 1985. Coordenado por Guilherme Oliveira Martins, presidente do CNC e do Tribunal de Contas, e Maria Helena Mira Mateus, catedrática da Faculdade de Letras de Lisboa, reúne 46 depoimentos, incluindo de dois presidentes da República, Mário Soares e Jorge Sampaio, além de escritores, jornalistas e amigos de Alçada Baptista que completou 80 anos no passado dia 29 de Janeiro.
O livro constitui um manancial de informação sobre a oposição dos chamados católicos progressistas à ditadura de Oliveira Salazar e recorda peripécias e circunstâncias de interesse sobre a criação da revista de ideias e cultura ‘O Tempo e o Modo’ no início dos anos 60. Em destaque estão não só o autor e o seu itinerário intelectual, mas também a última década e meia antes do 25 de Abril, quando a sua Livraria Moraes era reduto da liberdade possível.
O fulcro da polémica está na bibliografia. É que entre as obras de Alçada estão ‘Documentos Políticos’, de 1970, e ‘Peregrinação Interior – Vol I’, de 1972, mas não ‘Conversas com Marcello Caetano’, de 1973, um livro com um enorme impacto político e intelectual. A sua ausência da bibliografia é uma falha insólita.
Sobre a falta pela qual não é responsável, Guilherme Oliveira Martins disse ao CM que se trata de “obra relevante” que “o autor sempre reconheceu”. Observou ainda que ele próprio pediu o depoimento de Miguel Caetano, filho do último chefe do Governo do Estado Novo.
Por seu turno, o editor Francisco Espadinha, da Presença, atribui a falta a “um lapso de revisão” e diz que “a lacuna será oportunamente suprida numa próxima edição”.
DEPOIMENTOS
MÁRIO SOARES
Não gostou de ‘Conversas com Marcello’, mas conta a “conversa penosa, embora cordial” no Café de La Paix, em Paris, em que Alçada lhe deu o livro. Já o lera e disse-lhe “uma brutalidade” de que se arrependeu. Que passava à história como “António Ferro de Salazar”.
VEIGA SIMÃO
Lembra um trecho da introdução de ‘Conversas com Marcello’: “O Mundo está cheio de sofrimento não por causa daquilo que não pensámos nem por aquilo que não julgámos, mas fundamentalmente por causa daquilo que não fizemos ou pelo que fizemos mal.”
OLIVEIRA MARTINS
Nem na introdução nem no depoimento refere o livro, mas escreve sobre Alçada: “É um praticante activo da ‘aristocracia do comportamento’, por isso lhe encontramos uma coerência, uma generosidade, uma dúvida serena, uma prática permanente de procura do sentido da dignidade humana.”
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)