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Correio da Manhã

Cultura
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Indignação à porta

Cerca de meio milhar de pessoas reuniu-se ontem ao final da tarde num ‘encontro de cidadania’ na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, para protestar contra a extinção da Companhia de Bailado. Os ecos do protesto, feito com palavras de ordem como “queremos o Ballet Gulbenkian’, chegaram ao Presidente da República, Jorge Sampaio, que abandonava o local depois de ter participado no lançamento de um livro.
14 de Julho de 2005 às 00:00
Centenas de pessoas juntaram-se ontem frente à Gulbenkian em protesto contra o fim do Ballet
Centenas de pessoas juntaram-se ontem frente à Gulbenkian em protesto contra o fim do Ballet FOTO: Vítor Mota
Na ocasião, Sampaio encontrou-se com Rui Vilar e Teresa P. Gouveia, da Administração da Fundação. Marcelo Rebelo de Sousa foi outra das personalidades que escutou o protesto.
O ‘encontro de cidadania’ aconteceu no momento em que os bailarinos abandonavam as suas instalações, sendo acolhidos com salvas de palmas e palavras de apreço. Ao contrário, a multidão reagiu com gritos de “cobardes” quando recebeu a informação de que nenhum dos elementos da administração se encontrava no edifício.
Entre os presentes, encontrava-se grande parte da comunidade artística ligada à dança (ver reacções), alunos do Conservatório de Dança de Lisboa e ainda alguns políticos, casos de Jerónimo de Sousa (PCP) e Francisco Louçã (BE).
O ‘encontro de cidadania’ foi mais uma das formas de protesto contra a extinção do Ballet Gulbenkian. Uma decisão que o presidente do Conselho de Administração, Rui Vilar, declarou ontem “irreversível”. Na internet circula uma petição que conta já com mais de onze mil assinaturas. Os 25 bailarinos, bem como o pessoal técnico, estão agora em negociações com a administração com vista ao pagamento das respectivas indemnizações.
GOVERNO NÃO VAI INTERFERIR
O Governo não vai tomar qualquer medida para impedir a Fundação Calouste Gulbenkian de pôr fim à sua Companhia de Bailado. A revelação foi feita ontem pela ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima. Em declarações ao Fórum TSF, a ministra justificou a decisão com o facto de se tratar de uma matéria do foro interno da Fundação.
“Uma intervenção do Governo nesta questão não tem cabimento. Trata-se de uma decisão de uma entidade absolutamente privada e independente”, afirmou Isabel Pires de Lima. A Fundação, recorde-se, anunciou na semana passada a decisão de acabar com a sua Companhia de Bailado, alegando uma restruturação de fundo. A extinção da companhia, com 40 anos de vida, processar-se-á até 26 de Agosto, anunciou na ocasião a Fundação.
REACÇÕES
OLGA RORIZ - COREÓGRAFA
“Esta casa é muito dura e já sabíamos que a decisão não era reversível. Mas também não seria por isso que deixaríamos de manifestar a nossa indignação. Há bailarinos que entraram aqui há mais de dez anos, no fulgor da sua carreira, e que agora vão ter sérias dificuldades em integrar-se noutras companhias”.
BERNARDO GAMA - BAILARINO
“É muito duro para um jovem bailarino porque uma carreira não se termina assim. Foi uma morte sem funeral. Não é o caso de todos, porque há alguns que, como eu, já estavam no final da carreira, mas ainda iria dançar pelo menos mais cinco anos nesta casa. O futuro agora é uma incógnita.
SANDRA ROSADO - BAILARINA
O pior é não compreender o porquê desta decisão. Sabemos apenas aquilo que vem no comunicado. Nem sequer convocaram a companhia toda para anunciar a extinção. Mas também sabemos que, por detrás, há outras razões, que são evocadas por pessoas que deveriam ter a coragem de vir a público explicá-las”.
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