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Correio da Manhã

Cultura
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Indonésia proíbe filme sobre Timor

A curta-metragem de animação portuguesa ‘Timor Loro-Sae’ foi impedida de participar no Festival Internacional de Cinema da Indonésia – JiFFest, por “razões de segurança”. O facto não impede, contudo, o presidente da República, Xanana Gusmão, de se deslocar ao certame.
7 de Dezembro de 2006 às 00:00
Indonésia proíbe filme sobre Timor
Indonésia proíbe filme sobre Timor FOTO: D.R.
A decisão das autoridades indonésias apanhou “de surpresa” Vítor Lopes, o realizador de ‘Timor Loro-Sae’. Contactado pelo CM, o realizador disse estranhar a medida, mas confessou que a decisão não o surpreende.
“É ridícula esta proibição, uma vez que o filme foi seleccionado para o festival”, realçou o argumentista e realizador, acrescentando que a obra é uma “interpretação muito própria” da história recente de Timor-Leste.
“Para este filme, baseei-me em factos históricos e não poupei as três potências [Portugal, EUA e Indonésia] que estiveram em Timor”, declarou Vítor Lopes, para quem a sua curta-metragem se dirige a todos os que desconhecem a história de Timor. Realçando o “poder interventivo” das curtas-metragens, Vítor Lopes lamentou que este tipo de filme não entre nas grelhas de programação das televisões e do cinema.
ESTREIA PRESIDENCIAL
Para além de ‘Timor Loro-Sae’, o governo de Jacarta proibiu ainda a projecção dos documentários ‘Contos de Crocodilos’ (Holanda), ‘Passabe’ (Singapura) e ‘A Estrada Negra’ (Austrália). Para os censores, estes filmes podem acarretar riscos para a segurança interna.
Em carta enviada à organização do JiFFest, a agência estatal de censura alegou que os filmes “poderiam pôr em risco a segurança e a ordem numa situação já complicada, como na província de Aceh, e [as relações bilaterais] em Timor-Leste”.
No entanto, o governo indonésio não proibiu o documentário ‘Viagem de um Herói’, sobre a vida do presidente timorense. Xanana Gusmão vai mesmo assistir à projecção do filme, no domingo. Neste documentário de 80 minutos, Gusmão narra a luta de Timor-Leste pela sua independência.
Na sua 18.ª edição, o JiFFest arranca hoje e prossegue até dia 17, com a exibição de mais de 200 filmes de 35 países.
PERFIL
Nascido em Estarreja em 1963, Vítor Lopes estudou Arte e Design. Co-realizador da primeira longa-metragem de animação nacional, ‘João Sete Sete’, é autor de curtas-metragens, premiadas em festivais na Austrália, República Checa, Reino Unido e Portugal.
Colabora no Cine-Clube de Avanca.
PREMIADO E EXIBIDO NO MUNDO
Os Prémios Competição Avanca e Videocor (Portugal, 2004), Melhor Filme de Animação (Grécia, 2004) e Montagem (Itália, 2005) são alguns dos galardões atribuídos à curta-metragem de animação ‘Timor Loro-Sae’, apresentada em numerosos festivais de cinema de animação internacionais.
O filme foi produzido em 2004 por António Costa Valente, com o apoio financeiro do ICAM/Ministério da Cultura, RTP – Radiotelevisão Portuguesa e Câmara Municipal de Estarreja. Em quase 12 minutos, a curta-metragem narra a história do povo timorense que, após 500 anos de colonialismo, resistiu a 26 anos de ocupação indonésia.
O filme faz a ponte entre as suas lendas tradicionais, a colonização portuguesa e a dramática história do povo que resistiu à ocupação indonésia. Segundo o realizador Vítor Lopes, esta curta-metragem visa “levar mais longe o nome de Timor-Leste e prestar homenagem a este povo que, ao fim de 500 anos de colonialismo, lhe vê negado o direito à autodeterminação e independência”.
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