Escritora portuguesa fala do seu romance 'Desamparo'.
Quando começou a pensar neste livro que nos fala de crise, de amor e de morte?
Penso que foi quando acabei o anterior, ‘Dentro de Ti, ver o Mar’. Costumo guardar histórias de jornais e comecei a coleccionar várias sobre o êxodo dos portugueses para o interior do País. O regresso à agricultura, à ruralidade… Histórias contadas, às vezes, num tom eufórico.
Enganosamente eufórico…
Sim. Nos anos 90 eram os montes no Alentejo, o lugar idílico para onde toda a gente queria ir. Mas a vida no campo é boa para quem lá vai ao fim de semana. Basta abrir o ‘Correio da Manhã’ para ver a quantidade de gente que anda à sachada por causa de um pedaço de terra. Há a vizinha que dá os ovos, mas também há o resto.
A crise que afeta a dita classe média inspirou parte da história?
Crise sempre houve. Mas agora agudizou-se. Esgotou-se um modelo e ainda não encontrámos outro. Foi o mesmo que aconteceu em 1989, com a queda do Muro de Berlim. Aí esgotou-se o comunismo, agora esgotou-se o capitalismo. Mas ainda não se sabe o que se há-de fazer. Pensava-se que o capitalismo se auto-regularia, mas não é assim. Agora anda tudo às aranhas, a começar pelas mais altas instâncias. Eu não tenho a certeza de que o pico da crise tenha passado. Até porque a economia portuguesa, tão dependente da de Angola, terá de sofrer com a queda do preço do petróleo.
O livro segue de perto a queda das famílias e dos indivíduos na indigência. Mas sem alarmismo.
Mais dos que os noticiários, os anúncios nos jornais que dão conta de insolvências, leilões e hastas públicas de casas é impressionante. É a história da desgraça de famílias inteiras. Comecei a juntar histórias dessas em 2012. Na altura estava a ler a Clarice Lispector e surgiu-me o título. ‘Desamparo’. Por causa dos versos: ‘Agora eu conheço o grande susto de estar viva, tendo como único amparo exactamente o desamparo de estar viva’. O desamparo é um susto, mas também um choque e um desafio. Puxa-nos para nos salvarmos. Nada nos ampara e podemos cair, é certo. Mas também podemos dar a volta. Não se sabe. O que sabemos é que os modelos antigos já não nos servem.
O livro também tem uma situação de violência doméstica. Com um desenlace: o povo faz justiça pelas próprias mãos.
Gostei muito de escrever a história da Vanessa, que me apareceu luminosamente. Há um crime no meio de uma festa, e ninguém se apercebe.
Parece uma cena de Hitchcock…
Gosto muito dele. Não pensei nisso, mas se calhar fui lá buscar a ideia.
Esta é também uma reflexão sobre as relações entre Portugal e o Brasil?
É dedicado a uma mulher que me inspirou uma das personagens principais, a Jacinta. Saiu de Portugal para o Brasil muito cedo, e só voltou muitos anos depois, para conhecer a mãe. Já tinha casado e descasado. É um tema que me ocorre porque tenho uma relação próxima com o Brasil. Vou lá muito, tenho lá muitos amigos. É uma conversa recorrente a ligação entre os dois países ou a falta dela, os estereótipos, as ideias feitas que há de um lado e de outro…
Há a descrição de lugares e de acontecimentos históricos neste livro. São lugares reais e acontecimentos verídicos?
Sim, faço sempre imensa pesquisa e acho muita graça à intromissão da realidade na ficção. Compôs-se na minha cabeça a ideia de que queria por neste romance a história da emigração brasileira para cá. Que começou com os dentistas, muito polémicos porque vinham ameaçar o trabalho dos dentistas portugueses. Depois vieram os publicitários. Até chegarem, mais recentemente, as pessoas com menos classificações. Temos a mania de que somos acolhedores, mas a verdade é que há xenofobia em Portugal. Os casos de que falo no meu livro existem na realidade.
O livro faz entremear o português de Portugal com o do Brasil. É-lhe fácil escrever das duas formas?
Agora é. Agora que sou casada com um brasileiro [risos]. O Gilson [Lopes] ajudou-me imenso. Mas tive a ajuda de outros amigos. Até o Caetano Veloso me ajudou a corrigir o português da Bahia, que tem as suas especificidades. Também é verdade que sempre li muita literatura brasileira. A começar pelo Jorge Amado, que quando era miúda havia em todas as casas, porque era muito picante. Também tinha lido Veríssimo, a poesia do Drummond. Na altura havia muito interesse na literatura brasileira. Porque o Brasil nunca censurou a expressão erótica, nem durante a ditadura. Aqui sim. O Cardoso Pires teve o primeiro livro todo escortinhado por coisas como: "Punha a mão no joelho de fulana". Não deixavam passar um "beijo apaixonado" ou coisas que tais. Por isso eu imaginava que o Brasil era assim uma espécie de Ilha dos Amores do Camões. No meu caso, que casei com um brasileiro, até foi…
No Brasil também há xenofobia contra os portugueses?
Eu nunca me senti mal no Brasil. Nunca fui maltratada. Mas também nunca fui lá para trabalhar. Fui sempre de visita. Não sei se fosse trabalhar a coisa seria igual.
Este é também um livro sobre a velhice e sobre a morte. Pensa muito na morte?
Claro. Já passei dos 50. Até comecei antes. A partir de certa altura das nossas vidas começamos a perder familiares. E passamos muito tempo a visitar pessoas doentes ou incapazes, em lares. Conhecemos de perto essa realidade. É inescapável e eu queria falar do assunto.
Chegou a escrever uma crónica em que dizia que depois dos 50 as pessoas reaprendiam a ser felizes?
Eu própria estava muito deprimida quando cheguei aos 50. Para as mulheres é pior, creio eu. Estava sozinha e imaginava-me a ficar sozinha para sempre. Pensava que a minha vida amorosa tinha acabado. Claro que por outro lado estava livre, podia fazer tudo o que me apetecesse, sem dar justificações a ninguém. Tentava compensar-me, racionalizar a coisa. Mas tive a sorte de encontrar o homem com quem me casei aos 49 e recuperei o ânimo. Bastante, mesmo.
Mas a idade também tem vantagens?
Tem-se menos medo de tudo. E isso é muito bom. Não se vive a pensar na opinião dos outros, nem em função das expectativas dos outros. Para quem escreve, para quem tem uma actividade criativa, conseguimos libertarmo-nos da nossa educação, descobrimos quem somos para além dela. É muito importante. Acho que nos meus três ou quatro últimos romances tenho conseguido fazer isso. Escrevo sem me preocupar com o que vai pensar A, B ou C. Durante um tempo, não escrevia conteúdos eróticos por receio do que a minha mãe podia pensar, por exemplo. Agora não me coíbo de nada.
O livro começa com uma morte a acaba com uma morte…
Não sei se a Alice morre. Fica mais ou menos em aberto, para que cada um pense o que quiser. Inicialmente pensei que ela morria. Mas depois lembrei-me de uma coisa que a minha filha, muito sabiamente, me disse aos dez anos. Perguntou-me porque é que nos livros para adultos só aconteciam desgraças e os autores matavam sempre as personagens. "Os adultos não são capazes de ser felizes e de inventar felicidade?" perguntou-me ela. Acho que somos capazes de inventar felicidade, mas não o fazemos para não sermos considerados ingénuos.
Considera-se uma escritora ingénua?
Chamaram-me ingénua várias vezes ao longo da minha carreira literária, mas descobri que é precisamente a ingenuidade que nos faz avançar com ideias para transformar o Mundo. Na política, na arte… em tudo. Prefiro viver o mais possível viver nessa dimensão da possibilidade e da mudança do que tornar-me cínica. Prefiro ser ingénua.
O lema deste seu livro podia ser: "Pelo amor nos salvamos". É o seu lema de vida?
Não sou muito de lemas, mas se fosse, esse seria o meu lema. Quando se faz por amor até os erros são reparáveis. É assim. Vivemos toda a vida para aprender as coisas mais simples.
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