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Correio da Manhã

Cultura
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“Já vivi todo o sucesso que havia para viver”

David Fonseca lança hoje ‘Between Waves’, composto na ressaca da exposição mainstream.
2 de Novembro de 2009 às 00:30
“Já vivi todo o sucesso que havia para viver”
“Já vivi todo o sucesso que havia para viver” FOTO: David Fonseca

Correio da Manhã – Como descreve este novo disco? Como pode convencer as pessoas a comprá-lo?

David Fonseca – Quando estou a fazer um disco nunca sei muito bem sobre o que ele é, mas quando o acabo tenho sempre uma percepção clara do que significa. E este disco representa uma ideia sistemática que me ocorreu durante a digressão (que foi quando o foi feito) que tem a ver com o facto de se tocar em muitos sítios e, de que quando acordo, nunca saber onde estou. Diria que este disco é uma colecção desses momentos, desse passado que aconteceu ainda agora mas que se manifesta de uma forma meio obscura, como numa ressaca. É uma colecção de memórias, um disco pós festa do anterior disco, ‘Dreams in Colours’.

CM – Daí ‘Between Waves’...

 

D.F. – Sim. A imagem da capa reflecte isso, sou eu na praia a levar com ondas em cima tentando perceber o que é que se passou. Quis estabelecer uma ideia muito visual da reflexão sobre uma coisa que ainda agora aconteceu e, não tarda nada, está aí outra.

 

CM – O disco foi totalmente composto na estrada?

 

D.F. – Mais ou menos. Eu tenho sempre um gravador comigo e vou gravando tudo. Quando comecei a seleccionar o material tinha seis horas e meia, de tudo, de frases a sons e pedaços de músicas que fui coleccionando.

 

CM – Foi complicado de fazer?

 

D.F. – Foram dois anos na estrada, fizemos mais de 60 concertos aqui e lá fora e daí o facto deste ser um disco em que vivo muito fora do meu ambiente natural. São histórias que estão ligadas a ambientes que não me são familiares.

 

CM - Musicalmente qual o desafio?

 

D.F. – Fui gravando tudo sozinho, bateria, baixo, etc. e isso fez com que percebesse a música de

outra forma. Quis uma sonoridade muito crua, mas que pudesse incluir elementos que nunca usei, como solos de saxofone histéricos ou xilofones de madeira...e tentei colar isso tudo como se estivesse ainda baralhado, criar uma certa dissonância.

 

CM – É, então, um disco, com um significado especial, porquanto releva de vivências a que não estava habituado...

 

D.F. – A solo não. Com o ‘Dreams in Colour’ atingi um patamar muito mainstream...

 

CM – Como foi essa experiência?

 

D.F. – Eu venho de uma banda (Silence 4) que foi marcante e confesso que já vivi todo o sucesso que havia para viver. Não prevejo que possa voltar a ter tamanho sucesso e nem o acho razoável. Como o objectivo nunca foi esse, o sucesso, quando isso acontece é óptimo mas não tenho a pressão de fazer um seguimento. Aquilo que quero fazer é seguir-me a mim próprio, ter de ser verdadeiro com aquilo que sinto. Mas uma coisa é certa: a cada disco tenho mais trabalho do que no passado, quando esse sucesso todo aconteceu. Há sempre novos desafios.

 

CM – Recentemente promoveu audições para substituir a Rita (Red Shoes). Como correu?

 

D.F. –Bem, mas não responderam tantos como gostaria. Foi um processo que correu bem e acho até que já temos a pessoa que queríamos. O único problema que tive foi verificar que há muitas pessoas dispostas a concursos de TV que envolvem a música, mas não haver muita gente disponível para uma audição que é uma coisa muito mais certa. Acho que tem a ver com a educação musical em Portugal, que basicamente não existe. Há aqui uma falha crassa, até porque sei por experiência própria que em Portugal nós adoramos música. E então por que é que não se ‘empurra’ mais as crianças para a aprenderem? Daí o fazer-me um pouco de confusão que não haja mais gente com 20 e poucos anos a concorrer a uma audição como a que fiz.

 

 

EDITORA PRÓPRIA PARA TER "MAIS LIBERDADE LÁ FORA"

 

CM – No último ano fez vários concertos lá fora, desde os EUA (festival South by Southwest (SBSW), em Austin, Texas) à Grécia e Espanha. Como foram as reacções?

 

D.F. – Foram boas. As coisas começam a acontecer. Foi a terceira vez que fui ao SBSW e o facto de termos feito a primeira parte dos Keane em Espanha não foi estranha a isso, de termos feito depois uma digressão também em Espanha, que foi incrível, esgotada, também se deve a isso, o facto do ‘Kiss Me Kiss Me’ ter tido um sucesso relativo na Grécia, o lançamento em Itália, com os One Republic e a Gabriella Cilmi...ou seja aconteceram mais coisas com o ‘Dreams in Colour’ do que no resto da minha carreira. Isso deve-se a um trabalho sistemático e nada acontece por acaso. Com este disco não sei, mas vamos continuar a procurar outras formas de o mostrar. Aliás, este disco já é lançado pela minha editora – Castle of the Amazing Cats – de modo a ter mais liberdade lá fora. É uma nova dinâmica e vamos ver como podemos fazer para lançar o disco em mais sítios não dependendo apenas da vontade da editora.

 

CM – E a tua editora é apenas para os teus discos ou admites lançar outros artistas?

 

D.F. – Não, é só para os meus discos. Não tenho perfil de editor, nem quero.

 

PERFIL

 

DAVID FONSECA: Fundou os Silence 4 em 1996. 'Silence Becomes It' saiu em 1998 e vendeu 250 mil cópias. A banda desfez-se em 2002 e no ano seguinte iniciou-se a solo. Em 2004 integrou o projecto Humanos.

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