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Cultura
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Jacques Audiard: "Este filme não podia ter sido feito há dez anos"

O realizador Jacques Audiard, de 61 anos, concebeu mais um filme intenso e inesperado. Com personagens que nos prendem o olhar. Falámos com ele durante o festival de Cannes. Audiard, que em 2009 ganhara o Prémio do Júri com ‘O Profeta’.

17 de Março de 2013 às 18:20
Jacques Audiard: "Vi a Marion no filme ‘La Môme’ [‘La Vie en Rose’, em Portugal] e achei-a incrível. Ela fica numa espécie de transe quando interpreta. Foi isso que me fez querer trabalhar com ela"
Jacques Audiard: 'Vi a Marion no filme ‘La Môme’ [‘La Vie en Rose’, em Portugal] e achei-a incrível. Ela fica numa espécie de transe quando interpreta. Foi isso que me fez querer trabalhar com ela' FOTO: D.R.

Correio da Manhã – ‘Ferrugem e Osso’ poderia viver sem a história de amor entre a Marion Cotillard e o Matthias? Porque quis fazê-lo?

Jacques Audiard - Estou de acordo que estes não são tempos duros. Mas se fizermos uma cronologia, o meu filme precedente (‘Um Profeta’) passava-se na prisão. Sem mulheres, com pouca luz. Quis então produzir uma antítese. Com romance e muita luz. Já tinha abordado este sentimento amoroso, mas talvez de uma forma mais intelectual. Hoje em dia, as pessoas dormem juntas uma noite, mas não sabem do que falar no dia seguinte. O discurso amoroso vem depois.

Até que ponto estas ideias estavam já no conto de onde adaptou o filme?

Não estavam. Nessas histórias tínhamos apenas a situação de onde tirámos personagens e situações. Mas não o romance. Nem o acidente.

Normalmente usa mais material adaptado do que original. O que o leva a esse material, a essas escolhas?

É verdade que escrevi poucos temas originais. Apenas ‘Nos Meus Lábios’. Quando lemos algo ficamos estimulados. Eu leio muito. Às vezes parece mais fácil, mas não é. Por exemplo, nunca conseguiria imaginar uma situação com um tanque e uma orca ou um boxeur. Ou fazer um filme sobre uma mulher amputada. Só mesmo o Craig Davidson.



Até que ponto o desafio tecnológico de filmar uma mulher sem pernas o motivou?

O que queria teria de ser bastante realista. Como se fosse real. Claro que o filme não poderia ter sido feito há dez anos, pois a técnica teria sido muito pesada. E eu não teria a paciência. Hoje, isso não custa nada em termos de tempo.

Podemos traçar na sua filmografia um certo traço masculino. Até que ponto isso se reflete também na sua masculinidade?

Em primeiro lugar, gosto de filmar os seres humanos, homens e mulheres. Os homens interessam-me porque falham. Ou quando a virilidade está num estado crítico. Ou quando há uma mulher num mundo de homens. Por outro lado, detesto as sociedades masculinas. Gosto quando existem as falhas... Quando a virilidade é falível.

Falemos da mulher no filme, a Marion Cotillard. Como foi que recebeu a sua proposta? Um sim imediato, um talvez?

Vi a Marion no filme ‘La Môme’ [‘La Vie en Rose’, em Portugal] e achei-a incrível. Ela fica numa espécie de transe quando interpreta. Foi isso que me fez querer trabalhar com ela. Por outro lado, apesar de ser muito feminina, tem uma masculinidade latente.

Cultura Cinema 'Ferrugem e Osso' Jacques Audiard Marion Cotillard
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