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João Canijo: "Este é o meu melhor filme"

João Canijo conta que foi Rita Blanco quem descobriu o fio condutor da história. Revela ainda o novo projecto sobre uma peregrinação a Fátima a pé.
6 de Outubro de 2011 às 11:24
Realizador diz que já foi a Fátima a pé
Realizador diz que já foi a Fátima a pé FOTO: Pedro Catarino

Correio da Manhã - Depois de ver o filme apetece dizer que era o filme que queríamos ver. É essa também a opinião do realizador? Era esse o filme que querias fazer?
João Canijo - Era claramente o filme que queria fazer. O projecto inicial tinha variantes, mas no essencial é o filme que eu queria fazer. 

- A ideia como nasceu?
- A ideia nasceu de uma forma muito simples. Tudo partiu de uma tragédia grega, que era a ‘Electra’. E essa era uma história sobre a falta de amor. O amor foi então o ponto de partida. E daqui se passou para o amor incondicional e para o amor familiar. Entre um pai e uma filha ou uma mãe e uma filha. Este foi o tema que dei às artistas para começar a desenvolver o projecto.

- E a elas pediu-se para construírem as personagens?
- Foram dois anos de trabalho com os actores todos. Começou com a Rita (Blanco). A Cleia (Almeida) veio depois. A certa altura a Rita descobriu o fio condutor da história. Realmente, só podia vir da cabeça de uma mulher. E foi por exclusão de partes: “Qual a maior prova de amor que uma mãe poderia dar a uma filha?” Era o de assumir a tragédia por ela. Sem a partilhar. Chegou-se então à conclusão de que tinha de ser um pecado que a filha nunca iria saber que cometeu. 

- Só poderia ser o incesto com o pai...
- Pois. Mas houve pelo meio um longo desenvolvimento em que os actores foram descobrindo isso. E eu ia filmando tudo. Fiquei com 60 horas para digerir. É daqui que sai uma estrutura de história. E cenas. Numa terceira fase já está tudo estruturado.

- Durante a rodagem houve espaço para improvisação?
- Nada foi improvisado. Nessa altura já está tudo estruturado. 

- Entretanto, calculo que a escolha da Rita Blanco viesse já de longe...
-
Vinha de longe. Até porque este método de trabalho nasceu de uma curta-metragem que fiz para o festival de artes performativas com uma cena entre uma mãe e uma filha em que participava a Rita Blanco.

- Gosto daquela ideia de usar o jogo de Portugal-Espanha em ruído de fundo. Podemos tirar uma ilação de esperança ou a tragédia do fado lusitano?... ^^
-
Pois, a esperança está onde menos se espera... Por acaso, calhou que a rodagem ocorreu durante o Mundial, portanto seria isso que estaria a passar na televisão nessa altura. Por acaso o filme de Portugal-Espanha aconteceu antes do filme acabar. Até pelo resultado que teve... Sendo que o golo da equipa adversária aconteceu mesmo no momento crucial do filme.

- Como foi a rodagem no Bairro Padre Cruz? Precisaram também de uma ambientação?
-
Foi muito simples porque houve justamente essa ambientação. E o bairro foi-se habituando a nós antes de começarmos a filmar. Foram muitos meses de introdução no bairro. Foi aí que se descobriu que o bairro tinha um som ambiente muito particular. Aquela casa em particular tinha um som de vizinhos muito ‘sui generis’...

- Foi também aí que surgiu a ideia de misturar os diferentes sons...
-
... Isso existia desde o início. Houve a sorte tremenda dos vizinhos da casa ao lado serem uma banda sonora genial. Aconteciam discussões todos os dias e a todas as horas. Foi só gravar.

- Até que ponto foi difícil fazer essa montagem com duas cenas sobrepostas no mesmo plano? O efeito é espantoso...
- Foi tudo escrito, pensado e planificado antes da rodagem. Não há improvisação de câmara. A dificuldade é essa: pensar antes e planificar. Depois é tudo muito fácil.

- Era o que queria perguntar: foi um filme difícil de fazer?
-
Não. Foi difícil de pensar. Foi difícil de trabalhar, mas depois o fazer foi muito fácil. 

- Entretanto, sabe-se que tiveram este reconhecimento de uma menção honrosa no festival?
- É óptimo, porque este é o meu melhor filme. E o filme que estava mais próximo daquilo que eu queria fazer. O reconhecimento deixa-me muito contente.

- De onde vem este realismo tão cru?
- Vem de um percurso, daquilo que se quer fazer. O que mais quero é que os actores dos meus filmes se confundam com os figurantes, mas aqueles que são reais. No fundo, quero que os personagens se confundam com personagens de documentário. Desde o meu primeiro filme quero que as representações sejam verdadeiras e genuínas.

- E para o próximo filme já há ideias?
- Sim, vai se rural, dadas as circunstâncias do pais. Vai ser uma peregrinação a Fátima a pé de um grupo de transmontanas de uma aldeia perdida do distrito de Bragança. O título provisório é ‘Caminhos da Alma’. A história ainda a vamos descobrir. Estou a escrever o guião.. 

- Já foi a Fátima a pé?
- Sim, já fui a Fátima a pé. Mas de Coimbra. Fiz 42 kms num dia e 38 no outro.

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