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Correio da Manhã

Cultura

João Pedro Rodrigues: "Partimos para este filme como se não houvesse regras"

Estreia esta semana 'A Última Vez que vi Macau', falso documentário ou ficção de fantasmas e sonhos misturada com uma Macau de outrora. Em conversa com os realizadores João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, dupla de criadores que tem uma vida em comum há quase duas décadas, esmiúçam-se circunstâncias e ‘acidentes’ fortuitos que deram corpo a este documentário que ganhou a vida e se fundiu com as memórias e os sonhos do cinema.
17 de Março de 2013 às 21:40
O próximo projeto de João Pedro Rodrigues, 'O Ornitólogo', será uma espécie de reinvenção do mito de Santo António
O próximo projeto de João Pedro Rodrigues, 'O Ornitólogo', será uma espécie de reinvenção do mito de Santo António FOTO: D.R.

Correio da Manhã – Como evoluiu o projeto ‘A Última Vez Que Vi Macau’? Percebe-se, João Rui, que era um território onde tinha de voltar...

João Rui Guerra da Mata – Eu digo-o no filme. Os anos que passei em Macau foram os anos mais felizes da minha vida. E há 30 anos que não voltava lá. Vivo com o João Pedro há 19, 20 anos e desde sempre falámos em ir a Macau. Acabámos por nunca ir. Eu contaminei-o com as minhas histórias de Macau...

Imagino que já se cruzassem também com o seu imaginário de ficção, João Pedro...

JPR – Eu só comecei a conhecer o Extremo Oriente por causa do cinema. De resto, acho que actualmente o cinema asiático é o mais interessante. Há uma procura formal muito mais interessante que o cinema standard que faz boa parte do cinema americano e europeu. No cinema asiático não há regras. E nós partimos para este filme como se não houvesse regras. Como se fosse possível ter sempre toda a liberdade do mundo. O que nos propusemos fazer foi fundir a ficção que tinha de Macau com a ficção que ele tinha das suas memórias.

JRGM – Só que, quando lá chegámos, percebemos que o território permitia todas as ficções, e mais algumas. E isso interessava-nos mais. Fomos a Macau três vezes e temos 150 horas de Macau. Mas logo da primeira vez percebemos que o documentário teria de ser desvirtuado.

JPR – Foi como se a cidade se apropriasse de nós. Como se o material que filmámos...

... fosse um corpo, tomasse vida...

JPR – É isso mesmo. Começou a ganhar um corpo, começou a dar-nos pistas. Das últimas vezes que fomos a Macau já filmamos coisas que sabíamos que iríamos usar, para completar outras ideias.



E queriam ter Cindy Scrash em jeito de ‘mulher fatal’, como a Jane Russell?

JRGM – Por sinal, estávamos em Macau quando a Jane Russell morreu (28/2/2011). Isso pode até ver-se na curta ‘Alvorada Vermelha’, em que estamos a folhear jornais portugueses. As manchetes eram todas: ‘Morreu a lady from Macau’. Ainda por cima já tínhamos o filme ‘Macau’, do Sternberg (1952), (onde entra a Jane Russell), na cabeça.

JPR - O facto dela ter morrido quando estávamos em Macau e a pensar nela foi uma coincidência inquietante em as peças do puzzle se juntavam.

Temos de falar de ‘O Ornitólogo’, o seu próximo projeto, João Pedro. É quase uma necessidade de voltar ao passado?

JPR – Quando era jovem estudei Biologia para ser Ornitólogo. Aliás isso tem estado sempre presente no meu cinema. Sempre que podia filmava animais. E isso tem um lado ‘voyeurístico’, que é tipicamente cinematográfico. Mas neste filme eu queria sair completamente de Lisboa. Vai ser uma espécie de reinvenção do mito de Santo António.

Não estava à espera dessa...

JPR - (Risos) É algo que está dentro da curta ‘Manhã de Santo António’. É também outra viagem ao meu passado, pois passava o tempo na natureza numa aldeia ao pé de Tomar.

Algo pré-cinema...

JPR - Sim, completamente pré-cinema.

Cultura Cinema João Pedro Rodrigues João Rui Guerra da Mata 'A Última vez que vi Macau'
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