Barra Cofina

Correio da Manhã

Cultura
8

José Mário Branco: voz da contestação cala-se aos 77, sem anúncio prévio

Corpo do músico é velado esta quarta-feira em Lisboa. Funeral acontece quinta-feira.
Ana Maria Ribeiro 20 de Novembro de 2019 às 01:30
José Mário Branco
José Mário Branco venceu o prémio aos 72 anos
José Mário Branco: “Portugal é a Madeira da Europa”
José Mário Branco
Com Zeca Afonso em Paris, para gravar ‘Cantigas do Maio’
Deslocação do GAC (Grupo de Ação Cultural), em 1976. Com António Cardoso e António Vasconcelos
Com a mulher à época, Isabel Costa, e os filhos
Músico em jovem
José Mário Branco
José Mário Branco venceu o prémio aos 72 anos
José Mário Branco: “Portugal é a Madeira da Europa”
José Mário Branco
Com Zeca Afonso em Paris, para gravar ‘Cantigas do Maio’
Deslocação do GAC (Grupo de Ação Cultural), em 1976. Com António Cardoso e António Vasconcelos
Com a mulher à época, Isabel Costa, e os filhos
Músico em jovem
José Mário Branco
José Mário Branco venceu o prémio aos 72 anos
José Mário Branco: “Portugal é a Madeira da Europa”
José Mário Branco
Com Zeca Afonso em Paris, para gravar ‘Cantigas do Maio’
Deslocação do GAC (Grupo de Ação Cultural), em 1976. Com António Cardoso e António Vasconcelos
Com a mulher à época, Isabel Costa, e os filhos
Músico em jovem
Surpresa. É uma das palavras mais repetidas pelos amigos de José Mário Branco, o genial cantautor português que morreu esta terça-feira, aos 77 anos, vítima de doença súbita. A notícia foi dada pelo manager do artista, Paulo Salgado, e apanhou o País desprevenido. Ainda no ano passado, a celebrar 50 anos de carreira, tinha voltado aos discos, para publicar os inéditos que lhe ficaram do período entre 1967 e 1999.

Filho de professores primários, José Mário Monteiro Guedes Branco nasceu no Porto, a 25 de maio de 1942, e começou por se interessar por História. Passou pela universidade (primeiro em Coimbra depois no Porto) mas não terminou o curso, porque entretanto a música o chamou. A música que usava como arma para mudar o Mundo.

Na década de 60 aderiu ao Partido Comunista Português, foi perseguido pela PIDE e exilou-se em França, em 1963, para fugir a uma guerra em que não acreditava. Foi por essa altura que se estreou como cantor e compositor. Em entrevista, assumiu que fazia "canções explicitamente contra o regime, de protesto, pela liberdade", porque "era preciso mudar este país".

Regressado a Portugal após o 25 de Abril de 1974, tornou-se num dos nomes mais importantes da música nacional. Foi nessa altura que fundou o GAC (Grupo de Ação Cultural – Vozes na Luta!), com o qual gravou dois álbuns. Mas fez mais: o trabalho de José Mário Branco estendeu-se ao cinema e ao teatro (fez parte da Comuna e fundou o Teatro do Mundo). A sua canção mais conhecida é, talvez, ‘FMI’, de 1979, considerada uma síntese do movimento revolucionário português e na qual o autor desfia os seus estados de espírito, como numa performance.

Além da música em nome próprio, foram muitas e profícuas as suas colaborações com outros artistas: produziu Camané, Amélia Muge, Samuel e Nathalie. Para espanto de muitos, trabalhou com Katia Guerreiro, fadista que apoiou Cavaco Silva. "Ganhei uma amiga", afirmou. O velório realiza-se hoje no Teatro Thalia, de onde parte o funeral amanhã, às 17h30, para o cemitério do Alto de S. João, Lisboa.

Orquestrou a canção que mudou Portugal
Em 1971, José Afonso chegou a Paris. Foi ter com o amigo José Mário Branco para gravar o álbum ‘Cantigas do Maio’. Entre as canções que levava debaixo do braço contava-se ‘Grândola Vila Morena’, um tema que, segundo o próprio, só fora cantado uma vez na coletividade a quem a dedicara (a Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense).

José Mário Branco lembrou-se de dar à canção a estrutura tradicional do cante alentejano e de lhe associar o som dos passos dos homens que regressam da monda no final de um árduo dia de trabalho. Os sons foram gravados no saibro do jardim do estúdio, numa pequena aldeia a 60 km ao norte de Paris.

Na altura, era impossível imaginar o que veio a acontecer com a canção: os militares de Abril escolheram-na como senha para dar início à revolução. Porque era uma canção tradicional, "que levantava menos suspeitas" mas, acima de tudo, por causa do som dos passos em tom de marcha militar…

DEPOIMENTOS
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República
Símbolo de resistência
"José Mário Branco foi um símbolo de resistência, um símbolo de luta, um símbolo de esperança e um símbolo de permanente exigência à democracia portuguesa. Estou consternado, porque, apesar de tudo, desapareceu tão cedo...";

António Costa, Primeiro-ministro
Antecipou o 25 de Abril
"É com profunda tristeza que lamento a morte de José Mário Branco, figura cimeira da música moderna e da cultura portuguesa. O álbum ‘Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades’ foi prenúncio da revolução de Abril e de uma obra empenhada.";

Camané, músico
Dos melhores do País
"Ao receber a notícia tive uma sensação de choque, porque não estava à espera. Ninguém estava à espera. Era um grande amigo e um dos melhores compositores e melhores artistas e intérpretes da música portuguesa.";

Sérgio Godinho, músico
Uma dor profunda
"Tenho uma dor muito profunda... De repente, esta morte súbita. Sempre fomos extremamente leais. Nunca houve um desentendimento entre nós. No essencial, estivemos sempre próximos e cúmplices."
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)