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“Julian Assange é uma personalidade incrível”

Acaba de chegar às salas o filme polémico que recria o momento em que Julian Assange cria o site Wikileaks. O CM falou com o britânico que interpreta, com brio, o controverso australiano. Cumberbatch é, atualmente, um dos atores em maior demanda. Ele, que apresentou no festival de Toronto mais dois filmes que prometem marcar o final do ano: ‘Doze Anos Escravo' e ‘Agosto em Osage'.

14 de Novembro de 2013 às 18:35
Benedict Cumberbatch
Benedict Cumberbatch FOTO: Reuters

Correio da Manhã - Como descreveria a figura de Julian Assange, que interpreta em ‘O Quinto Poder'?

Benedict Cumberbatch - É um pai, é alguém que teve a sua infância. É uma personalidade com espírito e uma integridade profundas. Criou uma organização que revela dados da realidade, que muitas pessoas partilham, mas que tem gerado diversas discussões, independentemente de acharmos bem ou mal.

- Tentou contactá-lo durante o processo de fazer este filme?

- Sim, tentei contactá-lo para não ter apenas um lado da história. Isso é sempre mais enriquecedor do que trabalhar a partir de uma fotografia. Infelizmente, não consegui falar com ele, mas respeito inteiramente o seu ponto de vista.

- E é verdade que ele não queria que fizesse o filme?

- Sim, é verdade. Não creio que ele tivesse compreendido bem a nossa intenção, mas também não o posso censurar.

- Enquanto cidadão, como encara a polémica que se ergueu em redor do Wikileaks?

- Interessou-me a história, mais do que o meio em si. Fiquei chocado e fascinado com as revelações. Nada que me espantasse muito, dados os contornos de ambos os lados da guerra. Sejam os civis ou os soldados. O que o Julian fez foi entregar essa informação aos media generalistas para os tratarem. Acho que a narrativa nasce também daí.

- Agora que conhece melhor a pessoa, o que foi que mais o fascinou na personalidade do Julian?

- Foram muitas coisas. O Julian [Assange] é uma personalidade incrível. Pode não ser consensual, mas à medida que se tenta compreender alguém acaba por ser uma viagem muito interessante. Conheci-o melhor por ter de o interpretar. Não seria o mesmo se o tivesse conhecido pessoalmente.

- E tentou contactá-lo?

- Sim, claro. Mas, como se sabe, ele não era da mesma opinião.

- O facto de ele ter recusado o encontro afectou-o?

- Era algo que esperava. De certa forma, os argumentos dele eram fortes, mas eu também tinha argumentos igualmente fortes...


- Como trabalhou com o realizador Bill Condon a construção da personagem?

- Foi tudo feito de uma forma muito partilhada e bastante aberta. Ele compreendeu bem a pressão que eu tinha. E compreendi que ele queria fazer um filme que não fosse consensual, mas sim uma fonte de discussão. Se interrogarmos as pessoas sobre a atividade do Julian Assange e do Wikileaks, cada uma terá argumentos válidos sobre o que aconteceu. O que o filme faz é explorar esses elementos dentro da diversidade.

- Como foi trabalhar com o Daniel Brühl?

- O papel dele é muito difícil de fazer, apesar de ter a proximidade física do verdadeiro Daniel Domscheit-Berg. No entanto, teve de se embrenhar na personalidade de alguém que cai nas mãos de Julian Assange. Acho que o Daniel segura a personagem de uma forma brilhante. Trabalha com uma grande subtileza e humor. Tivemos uma excelente colaboração.

- Como foi a sua reação quando se viu ao espelho no papel de Julian Assange?

- É interessante porque ouvia uma entrevista dele gravada na net no meu iPod e quando me vi tive um calafrio. Percebe-se que funciona. Apesar de ter um rosto diferente do dele. Mas há o suficiente para fazer uma interpretação.

- Sentiu alguma reserva em interpretar alguém que ainda está vivo?

- É algo que acabamos por abandonar ao fim de algum tempo. Foi complicado, claro. Mas não podia ficar obcecado com isso, porque tinha mesmo de criar aquela personagem. É claro que o meu rosto é mas longo que o dele, ele tem olhos escuros e eu claros; tem o cabelo branco e eu escuro... (risos) Para além de elementos de personalidade e tiques físicos e vocais.

- É o tipo de desafio que um ator procura?

- Claro que sim. Este é um projeto de grande classe. Gosto de coisas que me provoquem. Aliás, os três filmes que levei a Toronto [‘Doze Anos Escravo', ‘O Quinto Poder' e ‘Agosto em Osage'] são a mostra disso.

- Isto para já não falarmos na personagem que interpreta no novo ‘Hobbit'...

- Ah, pois, um dragão adormecido na Terra Média é o desafio mais difícil de imaginar... (risos) Embora com outras expectativas. É uma personagem de ficção, como a da série ‘Sherlock', ainda que em termos de expectativa esteja à altura das reais. Interpretar o dragão ‘Smaug' foi algo que me deu uma enorme liberdade, até porque não tinha limites de câmara, maquilhagem, guarda-roupa. Era como uma criança a brincar com a imaginação, a voz, movimentos e expressões.

- Como encara a realidade que vive Assange atualmente e o efeito Wikileaks?

- Acompanho pelas notícias. E sigo com bastante interesse a organização dele, tal como as revelações do Snowden. Acho que vivemos tempos fascinantes.

- Tem tido a sorte de ter interpretado papéis relevantes ao longo dos anos. O que pensava que iria ser a sua carreira quando era ainda criança, visto que começou a sua carreira muito cedo?

- Meu deus, isso é passar em revista 12 anos de história. É claro que estou muito satisfeito com a forma como as coisas estão a correr. Como ator temos de começar com expectativas muito baixas. Há profissionais muito bons e com muito talento e só poucos de nós é que têm trabalho. Acho que tenho tido muita sorte.

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