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Correio da Manhã

Cultura
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'KAMASUTRA' HÚNGARO IMPRESSIONA A 'SUL'

O Festival Internacional de Dança Contemporânea - "a sul", além de trazer a Portugal trabalhos de artistas de países que apresentam elos mais ou menos estreitos com Portugal, tenta, basicamente, colocar o Algarve no mapa da dança.
23 de Setembro de 2002 às 00:32
Num espectro cultural ferido de fragilidade, em que a formação artística continua a ser particularmente débil - para não dizer totalmente inexistente - e as iniciativas do Estado (sob os auspícios do Ministério da Cultura), com capitais mistos e privados, se revelam manifestamente insuficientes, ainda são as autarquias que têm vindo a dispender uns "trocos" com semelhantes iniciativas.

Neste caso as de Faro, Loulé, Tavira, Portimão e Vila Real de Santo António numa iniciativa da Associação Devir. Se a criação, que, naturalmente envolve esquemas relativamente estruturados é quase impossível, no actual contexto (incentivar a nível de província) os festivais acabam por se remeter a um papel de "circulação" das obras possíveis de "importar". Estão nesse caso o solo "Virgem Solitária" e o dueto "Quase Três" que constituiram um programa apresentado em Tavira, num antigo lagar, agora conhecido por Casa das Artes.

Ambas as obras, apresentadas em estreia nacional, têm em comum uma componente sexual, particularmente explícita, afastando-se nas escolhas musicais dos autores. Leonor Keil, bailarina da Companhia de Paulo Ribeiro, sediada em Viseu, escolheu o talentoso bailarino-coreógrafo venezuelano Javier de Frutos, para criar para si uma peça estreada esta Primavera no famoso Festival de Avignon. Sobre a velha "Sagração da Primavera" - numa versão para pianola que a torna menos espessa e vigorosa e bem mais "humanizada" - uma "virgem" sozinha em cena, de saia branca a arrastar pelo chão, protagoniza mais uma interpretação musical livre, e por vezes idiossincrática, da lendária peça.

Para maiores de 18

Depois do "virtuosismo desarticulado" de Leonor Keil, uma das nossas mais brilhantes bailarinas cujas interpretações são sempre um estímulo e um prazer para os olhos, seguiu-se uma espécie de 'kamasutra' húngaro interpretado pelo casal Márta Ladjánszki e Gyula Berger, acompanhados ao vivo pelo saxofonista-compositor, Attila Dóra.

Simulando práticas sexuais obsessivas, sobretudo a beleza e intensidade interpretativa da artista, deixaram uma forte impressão nos espectadores já que todo o trabalho se articula em volta de sucessivas situações de conflito e imagens bem conseguidas especialmente a do epílogo quando o casal se esfuma atrás de uma simples janela fechada.
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