Barra Cofina

Correio da Manhã

Cultura

Lágrimas por Raul Indipwo

As lágrimas foram inevitáveis. Quando, ontem à tarde, as centenas de pessoas que enchiam a Igreja da Basílica da Estrela, em Lisboa, para assistir à Missa de Corpo Presente de Raul Indipwo, se puseram a cantar ‘Vou Levar-te Comigo’, a emoção transbordou.
7 de Junho de 2006 às 00:00
O caixão estava coberto com as bandeiras portuguesa e angolana
O caixão estava coberto com as bandeiras portuguesa e angolana FOTO: Natália Ferraz
A esmagadora maioria das pessoas estava vestida de branco, por vontade expressa do artista, falecido domingo, aos 72 anos, vítima de pneumonia, e entre os presentes contavam-se muito famosos.
Gente do espectáculo, como Vanda Stuart, Luís Represas, Nucha, Rão Kyao, Bonga ou Alexandra, gente da moda, como Eduardo Beauté ou Augustus, gente do futebol, como Jorge Gonçalves. Fatalmente, muitos dos nossos colunáveis também se fizeram notar, entre os quais José Castelo Branco e Betty Grafstein, Cinha Jardim, o barão Von Breisky e, como não podia deixar de ser, Lili Caneças, amiga pessoal de Raul Indipwo. Ao contrário de Castelo Branco, que entrou majestosamente pela Igreja usando a passadeira vermelha, Lili Caneças vinha amparada pela filha e não quis falar aos jornalistas, visivelmente consternada.
E no livro de condolências, o actor Octávio de Matos e a mulher, a actriz Isabel Damatta, entre muitos outros, deixaram a sua mensagem de saudade ao artista angolano. Só mesmo a classe política faltou à chamada, excepção feita a Isaltino Morais.
ARTISTA PARA O FUTURO
A missa foi longa, emotiva, e teve música pelo meio. A voz de Raul Indipwo ecoou pela Igreja através de uma gravação, e quando o caixão saiu para a rua, coberto pela bandeira portuguesa e pela bandeira Angolana, os populares que se tinham apinhado à porta da Basílica desataram a bater palmas.
O embaixador angolano em Portugal, Assunção dos Anjos, falou da importância de Indipwo e do Duo Ouro Negro para a divulgação da música e da cultura angolana no resto do Mundo. “Raul Indipwo era um angolano agarrado às suas raízes e deixa uma obra extraordinária, que as novas gerações vão, com o tempo, reconhecer”, afirmou. E o cortejo partiu para o crematório do Cemitério dos Olivais, onde o corpo de Raul Indipwo entrou, pouco passava das cinco da tarde.
REACÇÕES
ALEXANDRA
“Trabalhei muitas vezes com o Raul e o que posso dizer é que ele era um amigo muito chegado que me vai deixar uma grande saudade. Nos últimos tempos estava esquecido pelo grande público, mas essa é uma daquelas mágoas com que os artistas têm de viver...”
LUÍS REPRESAS
“Como pessoa, o Raul era, acima de tudo, um homem muito optimista, que amava a vida, a música e tudo o que era belo. Humanamente, era um ser superior... Como artista foi com ele e com o Milo (Duo Ouro Negro) que descobri a música e a cultura angolanas.”
VANDA STUART
“Encontrei o Raul muitas vezes em trabalho, e ele tinha sempre uma palavra de amizade para dizer a toda a gente. Era uma grande alma, um ser humano de excepção. A última vez que estive com ele foi na Gala da Abraço, e nunca pensei perdê-lo tão cedo...”
DATA DE UMA VIDA
1933
Nasce, em Kuneme, Angola, a 30 de Novembro de 1933, Raul José Aires Corte Peres Cruz.
1959
Funda, juntamente com Milo MacMahon, o Duo Ouro Negro, que no início da década de 60 começa a actuar em Portugal e grava os primeiros discos.
1966
Depois de digressões em vários países, o Duo Ouro Negro actua no célebre Olympia de Paris. No ano seguinte, está na Gala Garnier da Ópera de Monte Carlo e no Canecão, Brasil.
1971
O Duo Ouro Negro actua no Festival de Vilar de Mouros, tal como Amália Rodrigues.
2000
Depois da morte de Milo, no final dos anos 80, Raul Indipwo passa a vestir-se apenas de branco e cria, em 2000, a Fundação Duo Ouro Negro.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)