Em S. Martinho de Anta, vila com ares senhoriais, respira-se Torga em todos os cantos. A localidade do concelho de Sabrosa ostenta vários testemunhos incontornáveis da vida e obra do médico (otorrinolaringologista) e escritor. Ou não fosse a sua terra natal.
A casa, na rua da Quelha, onde nasceu, a escola onde aprendeu as primeiras letras, o seu busto em pleno centro da vila são locais da romaria torguiana que, ano após ano, cresce a olhos vistos. Ao CM, o presidente da junta de freguesia local, Mário Vilela, garante que a figura do escritor “já arrasta, por ano, à terra mais de cinco mil visitantes”. Relatos vivos de Torga ainda hoje se podem encontrar.
Porém, a sua personalidade “coriácea” e “restrita” não semeou convivências muito directas com a população. Contudo, a dimensão que atingiu no Mundo das letras é o principal motivo de orgulho dos seus conterrâneos.
Uma das pessoas que mais partilhou vivências de amizade com Torga foi o padre Avelino, fiel depositário de algumas memórias, amigo e companheiro de caça. O padre Avelino, cuja moradia tem janela com vista para a de Torga, revelou passagens desta proximidade.
“Tudo começou após o lançamento de um livro que terá, segundo palavras suas, ‘levantado meio Portugal’. Neste, era referido que um pároco fazia um parto. Fiquei admirado. Quando me questionou sobre o assunto respondi-lhe que tinha sido Deus através de Jesus. Torga, de olhos arregalados sobre os meus, num gesto de contentamento, ficou feliz por eu ter interpretado bem o que ele pretendia transmitir. Ficámos amigos com este episódio e, a partir daí, começámos a partilhar caçadas nos montes e serões à lareira em que falávamos de tudo até à 01h00 ou 02h00 da manhã, já depois das restantes pessoas da casa há muito se terem deitado”.
Serões muito especiais para o padre Avelino, hoje com 93 anos, cheios de alegria e admiração pelo amigo Torga. “A sua presença aqui era certa na véspera da Páscoa e no Natal... Espreitava à janela para ver quando a chaminé da casa de Miguel fumegava, indício da sua chegada. Como ele era muito friorento, logo que chegava acendia a lareira e fazia questão de ter a loja sempre repleta de lenha”, recorda.
Um tabu criado em volta de Torga tinha a ver com a sua alegada condição de ateu, o que levava as pessoas a estranhar a proximidade do pároco ao escritor ... “Chamar ateu a Torga é uma enorme barbaridade. O seu próprio nome é Miguel e há um anjo chamado Miguel Arcanjo. Torga disse mesmo, numa caçada, ‘aquele lá de cima também é Miguel’, referindo-se, precisamente, a S. Miguel Arcanjo”, diz.
Quanto ao apelido do homem que nasceu Adolfo Correia da Rocha, Torga deriva “do nome de um arbusto presente nos montes. Duro, mais resistente, e de cuja raiz é feito o carvão que conserva a luz e o calor por mais tempo. E na sua flor, pequena e branca, está um símbolo da poesia”, rematou.
Senhor, deito-me na cama
Coberto de sofrimento;
E a todo o comprimento
Sou sete palmos de lama:
Sete palmos de excremento
Da terra-mãe que me chama.
Senhor, ergo-me do fim
Desta minha condição
Onde era sim, digo não,
Onde era não, digo sim;
Mas não calo a voz do chão
Que grita dentro de mim.
Senhor, acaba comigo
Antes do dia marcado;
Um golpe bem acertado,
O tiro de um inimigo...
Qualquer pretexto tirado
Dos sarcasmos que te digo.
(Único poema de Torga cantado por Simone)
E NÓS, SEM VOZ! (Simone, Actriz e cantora)
Veja lá o senhor que me pediram para escrever sobre si! O senhor doutor dá-me licença que eu conte a história do nosso encontro no seu consultório em Coimbra? Lembra-se? Estava eu e o Vítor de Sousa com a sua ‘Antologia Poética’ debaixo do braço, que tínhamos ido comprar a correr, e a pensar como e o que íamos fazer para conseguir um autógrafo do poeta Miguel Torga? E naquela porta, à nossa frente, a tabuleta a dizer ‘Adolfo Rocha, otorrinolaringologista’. Claro que nós sabíamos perfeitamente que eram a mesma pessoa. Também sabíamos que o poeta não dava autógrafos, por isso, fomos bater à porta do médico. Isto de descrever esta história para um jornal faz-me uns certos nervos, o senhor, que é escritor, percebe não é? Voltando à história... Lá subimos aquele primeiro andar de degraus velhos, batemos à porta e apareceu um senhor com uma bata bem comprida, assim, um bocadinho estranho. E nós, sem voz! ‘Então, o que é que vocês querem?’. Pois, como estávamos sem voz... ‘O senhor doutor sabe que nós somos actores e precisávamos que nos ajudasse, porque estamos com uma rouquidão enorme e temos de trabalhar logo à noite, no Teatro Avenida, a fazer a peça ‘A Tragédia na Rua das Flores’. ‘Ai, não tem importância, levam uma injecção de euptolina que isso passa logo. Olhámos um para o outro, entrámos, o Vítor lá levou a injecção à boa maneira antiga e eu escapei. Era um consultório velho, com montes de medicamentos empilhados a um canto, uma cadeira com um braço partido, um bocadinho insólito... E chegou o momento de pedir o autógrafo, explicando, é claro, a mentira que tínhamos inventado. Negativa absoluta! ‘Não dou autógrafos!’. Silêncio... Silêncio. De repente, olha para nós e diz: ‘Os artistas portugueses, às vezes, são tratados abaixo de cão, não é?’. Silêncio... ‘Ora bem, dêem-me cá os livros’. E cá temos os dois, eu e o Vítor de Sousa, o autógrafo desse extraordinário Miguel Torga.
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