Em Abril de 2002 partiu em reportagem para o Médio Oriente. Voltou com um livro porque nem tudo foi dito. Chama-se ‘Cinco Sentidos’, tem a chancela da Difel e lançamento marcado para esta tarde, no edifício-sede da ‘Rádio Renascença’. Apresenta quem leu e gostou, aprovou e prefaciou: Mário Soares.
Correio da Manhã – “Será que não tem remédio o conflito israelo-palestiniano?”, lê-se. E, então, será?
Arsénio Reis – Acredito que, a existir, terá de vir de fora e sem hipocrisia, o que ainda não aconteceu. Quando convém reactivam-se processos de paz que se deixam cair quando já não convém. Eles, entre eles, têm fontes de alimentação de ódio várias e diárias... Mas há coisas que me permitem alguma esperança, por exemplo, há uma espécie de Escola da Paz que reúne elementos dos dois povos no sentido de se entenderem em vez de se acusarem. Há mesmo organizações que travam uma luta paralela pela paz, às vezes, com um grau de exposição arriscado mas fazem-no pelo grande espaço comum onde israelitas e palestinianos vivam juntos. Ainda há quem acredite!
– “Ser pró-Palestina não é ser anti-Israel”, disse ao CM, precisamente em Abril de 2002, a escritora israelita Dorit Rabinyan. Subscreve?
– Claro que sim. Por isso é que, com apoio exterior, empenhado e saudável, acredito que o entendimento seja possível, o que já não acredito é que seja fácil. Aquilo não tem água, não tem petróleo, não tem diamantes, não tem ouro... Nada, a não ser três religiões a reclamar o seu berço, a base da sua cultura. Esta é uma guerra cultural, o que está em causa são interesses culturais, não económicos. Eles não são assim tão diferentes. Não sei traçar perfis mas o israelita pode parecer tão ostensivo como o palestiniano receptivo. Ambos nos usam deliberadamente, mas... Como é que se resolve isto: uma terra que é reclamada por judeus, muçulmanos e cristãos?
– Houve uma proposta de administração internacional das Nações Unidas para a ‘Terra Santa’, que não só reconhecia o estado de Israel como previa o da Palestina...
– Rejeitada pelos países árabes que hoje devem estar bem arrependidos mas... É muito complicado separar direitos quando todos os têm e todos têm ali a sua história.
– E depois destes ‘Cinco Sentidos’, redefiniu o sentido da vida?
– Inevitável! A vantagem destas coisas é a de nos fazer olhar para o nosso dia-a-dia de maneira diferente, sobretudo, nós portugueses, maníacos da automaldicência. Acho agora que a vida pode ter vários sentidos e no Médio Oriente não é excepção. É mesmo uma lição de sobrevivência e até de vivência. Na verdade, tudo faz hoje mais sentido para mim do que alguma vez fez.
Arsénio Reis nasceu em Maio de 1968 em Luanda, Angola. É casado, tem um filho e teve como primeiro emprego uma repartição de finanças que, rapidamente, lhe mostrou que o caminho tinha de ser outro: Escola Superior de Jornalismo. O baptismo de rádio aconteceu em pleno ‘boom’ das ‘pirata’, em meados dos anos 80, até que, em 1991, ingressou na ‘Rádio Renancença’ (RR), onde se mantém até hoje, nas funções de editor da manhã, leia-se, madrugada: das 04h00 às 13h00.
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