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Correio da Manhã

Cultura
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Luís Miguel Cintra: “O que vou deixar? Não sei se vou deixar alguma coisa”

Luís Miguel Cintra fala sobre os 40 anos da Cornucópia, companhia que fundou e que é, hoje, um pilar do teatro nacional.
13 de Outubro de 2013 às 08:08
"Tenho tido conversas com o Manoel de Oliveira. Fala-me da alegria de, sendo pequenos, termos contado alguma coisa"
'Tenho tido conversas com o Manoel de Oliveira. Fala-me da alegria de, sendo pequenos, termos contado alguma coisa' FOTO: Rafael G. Antunes/Sábado

Correio da Manhã – Este mês, o Teatro da Cornucópia celebra quarenta anos de atividade. É um número que impressiona…

Luís Miguel Cintra – Não dei por isso. É como se de repente tivesse chegado à idade de reforma (para o ano faço 65 anos) e passou tudo tão depressa que nem dei por isso. Por um lado, ainda bem, por outro é como se não estivesse preparado. Sobretudo porque aquilo que seria em princípio, depois do trabalho que desenvolvemos, uma situação estável é, afinal, uma situação muito difícil. Há um certo sentimento de injustiça e de revolta. Que é inútil.

- O sentimento de revolta é inútil? 

- Porque o que mudou foi a perspetiva política sobre a cultura, e quanto a isso não há nada a fazer. A não ser tentar lutar por uma sociedade diferente. Nem sequer se trata de um problema específico do teatro. A verdade é que durante 40 anos acreditámos estar a fazer um trabalho de utilidade pública, portámo-nos como tal, e agora dizem-nos que serviço público… não há. O Estado não serve para tornar as pessoas mais felizes, mas sim para lhes extorquir dinheiro. E para o meter no bolso de outras pessoas que ninguém sabe muito bem quem são.

- Ser ator, na sua vida, foi uma descoberta que lhe trouxe a Faculdade de Letras, quando ingressou no grupo de teatro da universidade, ou era uma paixão que vinha de trás? 

- Sempre gostei de teatro. Fazia marionetas para os miúdos do prédio e para os meus irmãos. Além disso, o meu pai e a minha mãe tiveram o cuidado de me dar muitos hábitos culturais, desde miúdo. Comecei a ir ao teatro muito cedo. Era um espectador assíduo do Teatro do Gerifalto, por exemplo, e lembro-me perfeitamente da Maria Albergaria, a fazer de bruxa em todas as peças. Eu adorava. Até me lembro do primeiro espetáculo que vi, sobre a ‘Nau Catrineta’, no Teatro Avenida, que me assustou. Havia um capitão da nau que passou na passerelle e se meteu comigo. Fiquei cheio de medo desse tipo. Não sei que ator seria, mas ia muito bem.

- Reteve a paixão, durante a adolescência? 

- Como era um adolescente muito tímido, hesitei. Mas depois de uma consulta ao Instituto de Orientação Profissional, disseram-me que todos os atores eram tímidos e que representar significava, para eles, vencer a timidez. Animei-me a ser ator. Mesmo assim, achei que tinha de tirar o curso de letras. Quando lá cheguei, meti-me no Grupo de Teatro de Letras e no fundo só fui às aulas no primeiro ano. Depois não ia a aulas praticamente nenhumas, a não ser as dos professores de quem gostava. Fazia os exames. Acabei o curso administrativamente, porque na altura do 25 de abril ainda não tinha feito a tese.

- Já tinha a sua voz, que é tão marcante e tão decisiva na sua carreira? 

- O meu pai tinha uma voz idêntica. Acho que é uma coisa que tem a ver com a nossa constituição física. Mas eu fui muito sensível a isso. Trabalhei a voz com várias pessoas e quando fui para Inglaterra tirar o curso o professor perguntou-me porque é que eu não ia para cantor de ópera. Eu achei que me estava a insultar, a dizer que eu não tinha jeito nenhum para ser ator, mas não era. Eu tinha mesmo boa voz.

- Se não tivesse sido ator, já pensou no que poderia ter sido? 

- Sonhei com todas as profissões artísticas, e mais uma, que era ser padre. E quando digo todas, são todas: maestro, toureiro, violinista… Tive uma boa educação musical. No fundo, era vaidade. Era superficial. Mais a sério, cheguei a pensar ser arquiteto, porque gostava da construção de edifícios. Interessava-me o funcionamento dos espaços e a sua relação com as pessoas. Quem me dececionou da ideia foi o professor Mário Dionísio, que me disse que arquitetura não era um curso artístico, mas sim um curso técnico, e que eu devia era ir para Letras. Que as Letras me dariam uma base para ser artista. Eu prezava muito a opinião dele.

- Em 40 anos, muita coisa mudou. O teatro é hoje menos respeitado? 

- Não, pelo contrário. Quer dizer, sim, mas só no sentido da proximidade. Agora temos uma relação mais próxima e menos mitificada com o teatro. A relação antiga, sobretudo antes do 25 de abril, era muito mais empenhada politicamente. Mais militante. Sentíamos uma força na reação do público… mais intensa. Atualmente, grande parte das pessoas não preza particularmente o que vai ver. Ir ao teatro faz parte do divertimento. É uma forma de preencher o tempo. Desacralizou-se o ato de ir ao teatro. Mas é como tudo, também passou a haver muito mais teatro. Há muita oferta de espetáculos.

- Da parte dos artistas, o que mudou? 

- O que existe é uma diferença na vida cultural das pessoas. Houve a democratização da cultura, no sentido em que muito mais pessoas têm acesso às manifestações culturais, muito mais gente vai aos museus, aos concertos… Mas de uma forma frequentemente superficial. Como não pode deixar de ser, porque a educação se superficializou. Os programas de agora não têm nada a ver com os programas de antigamente. É natural que a relação seja mais superficial – tudo tende para isso. Isso até é mais grave do que a redução dos apoios às artes.

- Quer explicar? 

- Estão a limitar a responsabilidade intelectual das pessoas. No fundo, aquilo que é pedido de responsabilidade política aos cidadãos. É tudo delegado para uma farsa que é a democracia eleitoral que nós temos: as pessoas abdicam de qualquer responsabilidade política porque têm os seus representantes, sabendo, ao mesmo tempo, que estão a votar em coisas em que não acreditam. É uma farsa total. E a educação faz parte dessa farsa: treina as pessoas para serem meras peças de uma engrenagem. Formam-se técnicos que são precisos para que certas funções sejam executadas. A educação não tem a finalidade de tornar as pessoas mais felizes – e devia ter.

 


- O que significa para si o enorme prestígio de que a Cornucópia goza hoje? 

- Há uma parte muito agradável. Quando houve esta redução drástica dos apoios, sentimos que, de facto, somos muito importantes para muita gente. Na vida de muitas pessoas, a memória dos espetáculos da Cornucópia e o hábito de vir aqui é fundamental e houve reações que me comoveram e que mostraram que há pessoas ligadas a nós afetivamente. Por outro lado, há uma responsabilidade, uma fidelidade a esse prestígio que nem sempre nos dá muita liberdade. Sentimo-nos obrigados a corresponder a isso.

- Algum dissabor? 

- Quando fizemos o ‘Miserere’… Temos fama, junto de pessoas cultas, de ter feito Gil Vicente muito bem. Os estudiosos encontravam finalmente nos espetáculos de teatro a consequência do saber que eles tinham descoberto ou inventado. Quando fizemos o ‘Miserere’, fizemo-lo de forma completamente iconoclasta e até contra o próprio texto do Gil Vicente. Algumas das pessoas que mais gostam de nós foram as que gostaram menos de um objeto que tentava ser inovador. Há um lado de fixação da imagem que está associado a esse prestígio e que nem sempre é agradável. As pessoas querem reconhecer aquilo que já sabem que existe.

- E os prémios que foi acumulando? 

- Os prémios que recebemos e os que eu tive, a título pessoal, o Pessoa, por exemplo, ajudaram-me a sentir-me seguro. A não ter de lutar por provar que se é bom e que se merece ser apoiado. Enganei-me, mas isso é outra história. Os prémios fizeram-me perder o medo. Medo de mudar, de fazer coisas diferentes… foi importante. Claro que na prática, os prémios, como se viu, não correspondem a nada de especial. Não só o Estado me retirou apoio, como não recebi outros apoios por parte de mecenas. Não aconteceu.

- Que testemunho é que a Cornucópia deixa às gerações vindouras? Ou que quer deixar… 

- Ao mesmo tempo que me esforço muito por dar o melhor de mim próprio, e não me poupo a esforços, tenho a perspectiva de que tudo passa. Portanto, não tenho vontade de me eternizar. O que vou deixar? Não sei se vou deixar alguma coisa. Mas a minha passagem pelo teatro, a existência da Cornucópia terá modificado, pelo menos, o teatro português. Disso tenho a noção. Agora, que resultado é que isso vai dar? Depende das pessoas que aparecerem. Foi importante ter tido contacto com muita gente, na minha educação, formou-me, mas eu não fiquei igual àqueles que me influenciaram.

- Não o preocupa a continuidade da companhia? 

- Não. As pessoas espantam-se porque não nos preocupamos com a sucessão na Cornucópia. Eu não quero sucessão na Cornucópia. A cornucópia correspondeu à vontade das pessoas que cá trabalharam. Outras terão de ser diferentes. Senão estamos a ter um trabalho de conservação e nós não queremos conservar. Queremos transformar.


- Quando fala agora da redução de subsídios admite que a companhia possa ser transformada num grupo amador. Mas diz também que nem tudo seria mau nesse processo… 

- Há certos hábitos de trabalho, uma certa rotina que se instala, que temos de combater. Uma sacudidela de repente, com um novo estímulo, pode ser maravilhosa. Tivemos a prova disso este ano, ao fazermos uma residência com alunos de teatro, em dez dias. Foi maravilhoso. Ficámos encantados com aquela semana, com aqueles alunos entusiasmados, com grande maturidade. Fiquei com vontade de repetir. Há uma ingenuidade e uma frescura que, 40 anos depois, é difícil manter.

- A renovação da companhia tem-se feito… 

- Os elencos têm-se renovado sempre, com a entrada de pessoas novas. Mas não é muito fácil fazê-lo numa situação de financiamento tão precário.

- Disse-me que aos 50 anos tinha começado a pensar na morte. 

- Agora ainda penso mais.

- Não se reconciliou com a condição de mortal? 

- Sim. Não é fácil pensarmos que somos uma parte ínfima da marcha da humanidade. É deslumbrante pensar isso, é um pensamento luminoso, mas é difícil pensar assim. Cada um é o centro do mundo para si próprio. Para mim, neste momento, já é mais fácil. Tenho tido conversas muito comoventes com o Manoel de Oliveira, que é uma pessoa de quem gosto muito, e que também pensa sobre isso. Ele tem-me dito coisas muito lúcidas sobre a aceitação do sermos pequenos, mas, ao mesmo tempo, da alegria, sendo pequenos, de termos contado para alguma coisa. Para mim, não chega a dose de prazer que eu possa ter tido em viver. É-me indispensável transmitir algo aos outros. Tenho muito gosto em estar com outras pessoas. Eu estou dependente do contacto com os outros e sempre foi assim que pensei o teatro.

- Os seus últimos espetáculos falam inevitavelmente de percurso espiritual, da relação do homem com a divindade… 

- Sempre esteve presente. Notava-se menos quando eu não era autor do espetáculo, mas sempre tive uma opinião. Agora, torno-o mais explícito. Continuo a ter algo que sempre tive: uma relação de honestidade total e de lealdade para com o espectador. Como ator, sempre fui leal. Se há coisas que me preocupam, e se a minha cabeça está nesse estado, eu falo com essa cabeça que tenho e é assim que construo o trabalho. Disso orgulho-lhe muito. Nunca faço batota perante o espectador e considero que o momento do ator se apresentar diante do público é um momento de particular verdade. Para quem leva a sua profissão a sério. Quando um ator quer, para além da personagem, fazer passar uma imagem pessoal, não consegue representar. Para poder representar tem de estar num grau zero de disponibilidade. Tem de ter a disponibilidade de se expor totalmente diante das pessoas. E sente-se isso quando se fala com grandes atores.

- Que projetos faz, a médio e longo prazo, para a companhia? 

- Passei grande parte do verão a fazer algo que nunca tinha feito: carteiras de projetos. Se tiver dinheiro faço isto, se não tiver faço aquilo, se tiver uma coprodução faço assim… Não os quero dizer porque também estamos no mercado.

- O que guarda, para si, destes 40 anos de trabalho? 

- As relações internas da companhia. O que vivi e o que me foi dado viver, através do teatro. Conheci pessoas extraordinárias no teatro. Trabalhar no teatro é uma forma muito especial de conhecer gente. A primeira vez que tive noção disso foi quando morreu a Alda Rodrigues, numa altura em que tinha estado a trabalhar connosco. Senti uma falta dela que me surpreendeu. Achei que tínhamos relações pessoais normais, mas foi como se me tivessem arrancado parte de mim. Aquilo que ficamos a saber uns dos outros é tão íntimo e pessoalizado, é tão verdade, que se constroem relações humanas mais fortes do que em qualquer outra profissão. Tenho muitas saudades de muitas pessoas com quem trabalhei. A Glicínia [Quartim] foi uma pessoa muito especial. Aprendi muito com ela e acho que os melhores espetáculos que vi na vida foram feitos por ela, por iniciativa dela. Tinha uma honestidade em relação ao público, uma lealdade… Aprendi muito da ética profissional com ela. Morreu cedo. Às vezes é preferível. Em vez de as pessoas sofrerem com as suas próprias limitações progressivas… A Glicínia, vi-a já a sofrer, mesmo no trabalho connosco.

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