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Correio da Manhã

Cultura
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Maratona por Amadeo

Os salgadinhos a sair são como as pessoas a entrar: imparáveis!” Ontem, último dia para ver Amadeo de Souza-Cardoso na Gulbenkian, para Clarinda, 50 anos, empregada do bar, o balanço do dia fazia-se em géneros.
15 de Janeiro de 2007 às 00:00
Em frente ao bar, a fila avançava, paciente e ordeira, ao ritmo de três horas de espera para, aproximadamente, uma de visita.
Inaugurada em Novembro, ‘Diálogo de Vanguardas’, a exposição do nosso modernista pioneiro, esteve nos últimos dois dias permanentemente aberta ao público, com uma afluência ininterrupta de visitantes, a quem não assustou a perspectiva da maratona.
Uns chegaram sozinhos, outros com a família. Uns jogavam às cartas, outros faziam palavras cruzadas. A maioria, essa, aproveitou para pôr a conversa em dia. Mas “as pessoas sabem ao que vêm”, recordava ontem um responsável da segurança que, sob anonimato, lembrou como entrou ao serviço às 09h00 do dia anterior para sair às 06h00 de ontem e às 15h00 já lá estar de novo.
“Quem corre por gosto não cansa, o que é válido para eles e para mim”, comentou, referindo-se à multidão que classificou de “sempre muito bem comportada, mas mais calma durante a noite”. E mais não disse a não ser que, em quase 25 anos de prestação de serviços à Fundação, nunca ali tinha visto tanta gente junta.
Com efeito, às 15h00 de ontem, o número de visitantes (96 mil) já quase dava por cumpridas as previsões do director do Centro de Arte Moderna, desde 1994, Jorge Molder, que apostava nos 100 mil.
“Desde os primeiros dias que tínhamos a intuição de que esta ia ser uma exposição muito bem acolhida com um público numeroso e constante. Mas esta altura do ano é complicada e, com as compras, os encontros de família e as viagens programadas só nas últimas duas semanas é que o número de visitantes disparou e ultrapassou todos os limites previsíveis. Não é uma surpresa, mas um fenómeno de adesão que ultrapassa as nossas expectativas que já eram elevadas. E com 96 mil visitantes, que são os números do balanço da tarde, até à meia-noite, os 100 mil são uma certeza”, comentou.
De regresso às fileiras, uma no piso térreo do átrio, outra no piso inferior do bar, mais próxima do alvo e, logo, mais agitada, fomos ouvir quem de direito... E, sem excepção, todos justificaram o desleixo por desconhecimento e houve mesmo quem apontasse dedo acusatório à Comunicação Social: “Não dá à cultura a visibilidade que dá à política e ao futebol, aos mexericos e aos escândalos”. Registado.
Derrotadas, mas não convencidas, estavam as duas amigas que há dois dias tentavam, repetidamente, a sorte e a paciência nos caminhos de Amadeo. Sem sucesso.
Sucesso é o saldo destes dois meses de exposição que teve por ‘estrela da companhia’ o recém-recuperado ‘Avant la Corrida’, obra de 1912, há 93 anos dada como desaparecida.
UMA ESPERA QUE VALEU A PENA
"NÃO VIM ANTES PORQUE NÃO SOUBE" (M. GRACIETE DE CARVALHO, PROFESSORA)
“Sou a última, mas, professora aposentada, tenho tempo. É preciso é paciência porque esta fila é enorme. Não vim antes porque não soube antes e como eu deve haver mais. Acho que há muita coisa que não se sabe porque os noticiários só divulgam especulação. Mas cá estou... Podia era ter trazido uma cadeira, um banquinho!”
"LEVE O TEMPO QUE LEVAR, NÃO DESISTO" (M. JOSÉ FIGUEIREDO, PROFESSORA)
“Sou professora aposentada de Filosofia, que leccionei na Escola Avelar Brotero, em Coimbra, de onde vim de propósito para ver esta exposição e, leve o tempo que levar, não desisto. Desconfio de modernistas e mestres sem escola: é preciso aprender a construir para desconstruir, coisa que Amadeo fazia de forma superior.”
"O TEMPO DE ESPERA PASSOU-SE BEM" (PEDRO CRUZ, VENDEDOR)
“Esperei duas horas e meia ou três para entrar, mas valeu a pena: a exposição é espectacular. Vim pelo meu filho, influenciado por ele, não conhecia a obra do pintor, mas, agora que conheço, gosto imenso... E o tempo de espera passou-se bem, a conversar e a brincar uns com os outros, sem problemas. Foi um domingo diferente.”
"GOSTO DAQUELA DO OLHO VERDE" (JOÃO PEDRO, ESTUDANTE)
“Duas horas passam-se bem. Estou a fazer um trabalho de História para a escola e vim para saber mais sobre a vida e a obra dele. Toda a escola está a fazer trabalhos sobre alguém e a mim calhou-me Amadeo de Souza-Cardoso. Não fui eu quem escolheu, mas gostei. Assim, fico a conhecer... E até gostei daquela do olho verde”.
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