Júlio Magalhães lança hoje o seu quarto romance, 'Por Ti, Resistirei', e fala sobre o prazer da escrita e do seu ritmo agitado por ser jornalista.<br/><br/>
- O seu novo livro, ‘Por Ti, Resistirei’, é mais um romance histórico, agora passado na II Guerra Mundial. Foca a posição de Portugal no conflito que não era muito definida...
- Não era nada. Portugal teve uma acção completamente neutral na Guerra. Por um lado, Salazar estava identificado com a Alemanha mas, por outro, não podia trair a velha aliança com os ingleses. Portanto, manteve-se neutral. A população é que estava mais dividida. Havia muitos que eram a favor da Alemanha, mas outros não. Até porque, nessa altura, Portugal recebeu muitos refugiados e há neste livro uma figura central, Aristides de Sousa Mendes, que era embaixador em Bordéus e que ajudou muitos judeus a virem para Portugal. Tornou-se numa figura central, embora só neste século se tenha conhecido. Trato também de um romance entre um português e uma judia francesa.
- Além de Aristides Sousa Mendes, o livro fala de Amália ou da ‘saudade’. Recorre a estes elementos por admiração ou necessidade?
- É mais por respeito, porque eram esses os factos da época. Era essa a tónica dominante, a forma como vivíamos. A ideia deste livro é também um pouco os leitores recuarem no tempo e terem a percepção de como era o País, embora o livro esteja muito centrado no Estoril e em Cascais, por serem pontos importantes na Segunda Guerra. Por lá passou gente importante, burguesia, até detectives.
- Volta neste romance à ideia de mudança, imigração. É uma nota autobiográfica?
- É praticamente autobiográfica. São histórias que estão próximas da realidade da minha vida, da minha família e amigos. Este é o livro em que estou mais longe da realidade e mais perto da ficção, em termos literários. Há aqui uma mudança, que ainda não é muito notada, mas que revela um afastamento de factos que vivi. Seja como for, tem sempre algo de autobiográfico, o que facilita muito. Sou jornalista e não faço da literatura a minha profissão. Os temas que encontro nos livros, que ouso abordar, têm que ter um carácter jornalístico.
- De que forma, em concreto, o jornalismo influencia a sua escrita, tendo em conta a evolução face ao seu primeiro livro e o desprendimento dos factos que referiu?
- As pessoas vão sentir que há um desprendimento maior do que nos outros livros. Os anteriores eram muito factuais, romanceados é certo, mas muito mais factuais. Os próprios romances eram reais. Neste livro, já há cenários ficcionados. Até porque não vivi na época. É evidente que há um percurso, até porque os meus primeiros livros eram grandes reportagens. Este já não. Este já tem o lado de reportagem, mas comporta elementos ficcionados, que têm a ver com investigação que fiz e com criatividade.
- Seria possível que ‘Por Ti, Resistirei’ tivesse sido o seu primeiro romance?
- Não, impossível. Quando parti para os meus primeiros livros defini com a editora que só ia escrever temas do século XX que conhecesse, que conhecesse pessoas que os conhecessem, precisamente porque me sentia jornalista e não queria fugir a esse carácter jornalístico. Admito é que depois dos meus livros terem tido algum sucesso, e a editora também me venha ‘pressionando’ a escrever um todos os anos, queira fazer uma evolução na literatura e naquilo que são as histórias dos meus livros. Por isso mesmo, esta evolução se afasta do jornalismo, ainda sem chegar aos grandes escritores e à grande literatura portuguesa.
- As suas obras centram-se em grandes histórias de amor e ‘Por Ti, Resistirei’ segue essa linha de modo intenso. É um romântico?
- A vida das pessoas é um romance permanente. As grandes histórias de guerra encerram em si sempre um grande romance. A guerra foi feita por homens, mas as mulheres têm uma parte interventiva. Por outro lado, quando os homens vão para a guerra, há mães, filhas, irmãs que ficam. O sofrimento é idêntico. O romance faz sempre parte da vida de cada um de nós e faz sempre parte da História.
- O facto de apostar em tantos elementos portugueses não pode constituir um entrave à internacionalização da sua obra?
- Gostava de ver os meus livros lá fora, mas reconheço que ainda não tenho dimensão para isso. Primeiro há que conquistar o mercado em Portugal, temos de fazer as coisas passo a passo. A partir do momento em que comecei a escrever, e os livros tiveram o sucesso que tiveram, e que não tiveram muito a ver comigo ou com a qualidade da literatura que faço – tiveram a ver com as histórias – , comecei a ganhar gosto por isso. Quando escrevi o primeiro não disse que escrevia mais nenhum. Se puder continuar a escrever e continuar a ter uma editora de confiança, vou continuar. Esse caminho vou fazendo passo a passo. Seja como for, a internacionalização depende sempre da editora. Mas mentiríamos todos, se disséssemos que não gostávamos de ter leitores lá fora e vermos a nossa dimensão conquistar fronteiras. Esse é um passo que tem de ser conquistado devagar e com calma. Para já temos de dar só passos à medida das nossas pernas.
- O jornalismo ocupa muito tempo e até há pouco tempo tinha um cargo de grande responsabilidade na TVI. Como é que consegue arranjar tempo para escrever?
- É uma pergunta clássica: o tempo que tinha como director de informação é o tempo que você tem como jornalista. Nesta profissão não se tem horas. Na quinta-feira estive no Porto, fui para o Mónaco, daqui a bocado vou apresentar o jornal... Andamos sempre nisto. Toda a gente trabalha, mas toda a gente tem também tempos livres. Além disso, fui um director de informação, aqui na TVI, com algumas especificidades. Primeiro, delego muito. Vivo no Porto, sou adepto da Regionalização e não sou a favor da concentração de poderes. A par disso, há outra característica da minha vida que me aproxima um bocadinho do que é a vida de um escritor: nestes últimos dez anos, tenho vivido um bocado sozinho, entre Porto e Lisboa, estive um ano e meio na capital. A minha vida passou muito por hotéis. Os momentos que tenho livres são para escrever. Como são para ir ao futebol, à praia, ler livros ou jogar basquetebol.
- Mas há algum ritual?
- Não. Um dia se der o passo decisivo – que passa por apenas escrever e viajar –, aí as coisas mudam de figura. Provavelmente passo a seguir os rituais do que é a vida de um escritor: muita investigação, isolar-me bastante, ir para bibliotecas, ler muito. Para já não é isso que faço nem é a perspectiva da minha vida. A minha perspectiva é trabalhar e nas horas vagas escrever. Foi um vício que ganhei, que me dá imenso prazer. Não tenho horas específicas para escrever, tanto o faço à noite como de dia, desde que tenha inspiração para isso. Se me lembrar de qualquer pormenor que acho que é importante para o livro, escrevo-o no momento, para não deixar para mais tarde. Mas não tenho ritual nenhum para escrever. Há talvez um: grande parte dos meus livros são escritos nos últimos dois meses do prazo dado pela editora. Não consigo a um ano de distância escrever quase tudo e deixar para o último mês apenas uma parte do final. Vou escrevendo muito devagar e só quando o prazo se aproxima é que intensifico o ritmo.
- Vício de jornalista...
- Sim. É aquilo que fazemos, deixando para a última, até porque nos momentos de maior pressão parece que trabalhamos melhor.
- Já vendeu mais de cem mil exemplares dos seus livros. Ser uma cara conhecida contribuiu para o êxito?
- A notoriedade que temos na televisão ajuda-nos a ter sucesso, claro. Quando há um lançamento de um livro, está lá a imprensa, vou a programas de televisão, uma possibilidade que sei que, por vezes, escritores com muito talento não têm. Senti isso muito no primeiro livro. A partir do momento em que se tornou um sucesso, assim como o segundo e o terceiro, já não é só por causa da notoriedade. Tem a ver com o facto das pessoas que leram os livros anteriores terem gostado. Se o meu primeiro livro tivesse sido um fracasso, ou se se achasse que não tinha pés nem cabeça, não valia a pena estar a insistir. Mas não, foi um sucesso. O facto das pessoas gostarem alanvacou os outros.
- Lida bem com as críticas?
- Normalmente só vejo as críticas dos leitores. Dos críticos propriamente ditos, ou dos que escrevem nos jornais, não dou importância excessiva. Para mim interessa-me quem lê o livro. Sou o primeiro a dizer que os meus livros não têm uma qualidade literária profunda. Não faz sentido críticas aos meus livros, porque assumo que são grandes reportagens e não são obras de uma grande profundidade literária, como são as dos grandes escritores portugueses. Não me dedico só aos livros. E sei que há quem goste e quem não goste, como há quem goste de me ver na televisão e quem não o aprecie. Mas obviamente não gosto de ouvir as críticas, até porque ninguém gosta de ser criticado. Se forem construtivas, ficamos chateados na mesma, mas aceitamos. Quando são levianas e têm carácter pessoal, isso já dou pouca importância.
- Como explica o sucesso dos escritores jornalistas. Além do seu caso, há o Miguel Sousa Tavares ou José Rodrigues dos Santos...
- O que explica que se venda tanto é o facto de sermos pessoas – eles numa dimensão superior à minha – em contacto com o Mundo. O jornalista, como eles e eu, e como quem trabalha nas rádios e nas televisões, temos uma profissão que nos permite ter vivências, contactar com o Mundo, falarmos com pessoas de todos os sectores. Esta vivência agrada muito e cativa as pessoas. É nos órgãos de comunicação social que as pessoas vêem a história da sua vida. É obrigatório um jornalista saber escrever um livro. Sabendo escrever e sabendo português, é capaz de fazer um livro.
- Já está a trabalhar num quinto livro?
- Pedi à editora descanso até Setembro. Foi um ano muito intenso. Apesar de ter sido director de informação, tive de escrever mais um livro que me foi pedido. Com estes dois últimos meses, a minha saída do cargo e todas estas confusões, fiquei esgotado. A partir de Setembro, pensamos numa nova história. O livro sai esta semana e vai estar no Verão. Não há, para já, uma história projectada.
- Marcelo Rebelo de Sousa, que está no seu jornal ao domingo, apresentou ‘Por Ti, Resistirei’ na semana passada. O que lhe disse sobre a obra?
- Não, acho que ele não leu. [Risos] Primeiro disse-lhe: ‘Não leia e não fale do livro no jornal, porque julgam que fui eu que lhe pedi’. Mas ele disse-me: ‘Não, não, tenho de falar.’ Acho que não leu o livro nem vai perder tempo a lê-lo. É o que acho...
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