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Correio da Manhã

Cultura
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Maria João entre homens

Maria João é a única mulher nomeada para o Prémio de Jazz Europeu, ao lado de dois ilustres – o cantor britânico Jamie Cullum e o pianista sueco Bobo Stenson, com o qual, curiosamente, já trabalhou nos anos 90.
27 de Julho de 2006 às 00:00
Já namoraram mas é como duo que dão nas vistas há mais de 10 anos
Já namoraram mas é como duo que dão nas vistas há mais de 10 anos FOTO: d.r.
A cantora portuguesa – que disputa um prémio de 14 500 euros –, concorre na categoria principal dos troféus de jazz Hans Koller (assim designados em homenagem ao saxofonista e compositor austríaco), atribuídos anualmente (desde 1996) pelo Austrian Music Office.
Esta não é a primeira vez que a cantora, conhecida pelo seu poder vocal – há mesmo quem diga que ‘berra’ –, impressiona a crítica. Logo em 1984, dois anos após ter ‘tropeçado’ no jazz, Maria João foi galardoada com o prémio de revelação do ano num programa televisivo. Um excelente pronúncio da capacidade da então jovem desportista, que começara a ter noção de que até sabia cantar por influência de uma amiga (Cândida). Uma descoberta feita durante um curso de nadador salvador. “Eu berro mais do que a Cândida!”, constatou então Maria João.
A entrada no mundo do jazz aconteceu em 1982, por acaso. Desafiada por um amigo, Maria João foi a uma audição na Escola de Jazz do Hot Clube e gostou. O seu talento está patente em mais de duas dezenas de discos em nome próprio e colaborações diversas.
Começava assim uma carreira meteórica e mais dois prémios, logo um ano depois, um no Festival de Jazz de S. Sebastian (Espanha), o outro atribuído pela revista ‘Nova Gente’, como intérprete feminina do ano.
Desde 1994, não mais parou de cantar em duo com o pianista Mário Laginha, que a acompanha desde o seu primeiro disco, em 1983.
Agora, aguarda-se o resultado da avaliação do júri. O prémio será entregue a 1 de Dezembro, no clube de jazz Porgy & Bess, em Viena de Áustria. No dia seguinte, o vencedor actuará no mesmo local.
PERFIL
Aos 40 anos, Maria João é um dos nomes mais conhecidos do jazz português. Internacionalmente, a cantora também tem dado cartas, depois de cantar com nomes sonantes como a pianista japonesa Aki Takase, a cantora Lauren Newton ou em quarteto com Christof Lauer, Bob Stenson e Mário Laginha. O disco ‘Danças’, lançado em 1994, marcou o início de uma nova fase e do duo Maria João/Mário Laginha (músico com o qual chegou a namorar), que persiste até hoje. Irreverente, original e criativa, a cantora tem um filho de 16 anos, João Carlos.
CINTURÃO NEGRO
Em miúda foi patinho feio mas, aos 13 anos, tornou-se numa mulher. Fugia das escolas, não ia às aulas e apaixonou-se pelo desporto. Primeiro, a natação, depois o ioga, o judo, o karaté... O encanto pelas artes marciais valeu-lhe mesmo um cinturão negro em Aikido.
'QUINTETO M.ª JOÃO'
Disco de estreia, em 1983. Gravado na RTP 2, ‘Quinteto Maria João’ (já com Mário Laginha ao piano) revelou, sobretudo, uma voz indomável. Ainda que cantando em inglês.
'FÁBULA'
Disco de 1995 que reflecte a enorme capacidade interpretativa de Maria João. O álbum foi gravado em Colónia (Alemanha) com músicos estrangeiros, excepção feita a Mário Laginha.
'UNDERCOVERS'
Em 2002, de novo com Mário Laginha, Maria João dá voz a 16 versões de autores que ambos admiram. Dos U2 a Tom Waits, passando por Jobim, sem esquecer a musa Joni Mitchell.
RIQUEZA DE IMPROVISO (António Rubio, crítico de Jazz)
Já lá vão mais de 20 anos de carreira, iniciada com os ‘standards’ e o jazz tradicional. Depois, a passagem pela Alemanha, onde o seu estilo se alterou por completo, entrando em improvisação total e afastando-se progressivamente do jazz. A riqueza de improviso vem de uma capacidade de registos vocais e timbres únicos. Este poder confirma a sua importância como cantora de estilo único.
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