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Correio da Manhã

Cultura
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Marialva bate Marcelo

A grande expectativa acumulada ao longo de duas semanas quanto ao futuro proprietário das 15 cartas e seis bilhetes da autoria de Marcelo Caetano, escritos durante o exílio no Brasil, desfez-se pouco passava das 16h00 de ontem. Um homem de meia-idade, vestido como uma T-shirt, arrematou o lote por 2500 euros, sem grande disputa – a base de licitação era de 2000 euros –, no leilão realizado em Lisboa pela Nuno Gonçalves – Leiloeiro, Livreiro .

26 de Outubro de 2008 às 00:30
O assistente do leiloeiro Nuno Gonçalves exibe cartas do sucessor de Salazar
O assistente do leiloeiro Nuno Gonçalves exibe cartas do sucessor de Salazar FOTO: Duarte Roriz

Nem a Direcção-Geral dos Arquivos nem a Biblioteca Nacional exerceram o direito de preferência sobre estes exemplares da amarga correspondência trocada pelo ditador deposto com duas pessoas amigas, Maria Emília e António.

A grande exclamação foi causada pelo alto valor que atingiu um requintado volume de equitação do século XVIII, de Manuel Carlos de Andrade, cuja verdadeira autoria é atribuída, no entanto, ao marquês de Marialva: 4800 euros.

A grande surpresa estava reservada para o fim: ‘KWY’, edição de 12 exemplares de uma revista de arte portuguesa, foi comprada por 28 mil euros.

O leiloeiro Nuno Gonçalves, que ontem exerceu a função de pregoeiro, disse ao CM que a expectativa suscitada pelo evento se deveu "não só à grande diversidade e valor cultural e histórico dos materiais, como ao facto de estes pertencerem a uma só pessoa".

ADMIRADOR DO REGIME GUARDA CARTAS EM CASA

Chama-se Manuel Cerqueira e tem 49 anos o novo proprietário das cartas e de bilhetes escritos por Marcelo Caetano no final dos anos 70, ontem leiloados. "Sou admirador do antigo regime", disse o licitador aos jornalistas que o rodearam assim que deixou a sala onde decorria o leilão.

Criticando o Estado por não ter exercido direito de preferência sobre as epístolas, o empresário das áreas do imobiliário e da electromedicina aludiu ao facto de aquela documentação dizer respeito à sua época. Foi um tempo que "fez parte da minha infância", acrescentou.

Quanto ao destino que irá dar às cartas, foi lacónico: "Vou guardá-las em casa."

AÇORES DISPUTAM NATÁLIA

Um licitador persistente surpreendeu a assistência que seguia com interesse o leilão. Com pronúncia açoriana, não deixou fugir para as mãos de terceiros um interessante espólio da poetisa Natália Correia, falecida em 1993.

Duarte Brás de seu nome, conforme apurou o CM, é assessor do presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César. Algumas belas fotografias de Natália, uma das quais na companhia de Vera Lagoa, vão enriquecer o acervo da Biblioteca Pública e do Arquivo Regional de Ponta Delgada.

DETALHES

MISTÉRIO REAL

Um retrato de D. Amélia foi licitado por 35 euros. O do seu esposo, D. Carlos, chegou os 85 euros. Os principezinhos Luís e Manuel, numa só imagem, ficaram mais em conta: 30 euros. Mas por que razão ninguém licitou a foto em que estavam todos juntos?

DIREITO DE PREFERÊNCIA

Catarina Guimarães, da Direcção-Geral de Arquivos, e Luís Farinha Franco, da Biblioteca Nacional, não deixaram créditos por mãos alheias no exercício do direito de preferência de que o Estado dispõe. Um número expressivo de documentos passam a integrar o património público.

 

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