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Correio da Manhã

Cultura
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MARIZA: NÃO ME SINTO EMBAIXADORA DO FADO

“Fado Curvo” lembra-nos que a vida e o amor não acontecem em linhas rectas... Tal como a música. Por isso, é este o título do novo trabalho daquela que a BBC 3 elegeu como a melhor artista europeia de world music. Mariza, fadista:
27 de Março de 2003 às 01:39
Quando canta o Fado, Mariza sente-se mais ela própria
Quando canta o Fado, Mariza sente-se mais ela própria FOTO: Pedro Catarino
Correio da Manhã – Qual foi a sensação de receber o prémio para melhor artista europeia de world music da BBC 3 entregue pelo compositor Michael Nyman que a anunciou como uma “diva”?
Mariza – Foi fantástico... a cerimónia, os bastidores, a possibilidade de estar ao lado de artistas ligados às raízes musicais dos povos, como os Gotan Project. Não me sinto uma embaixadora da cultura do Fado, nem diva. Mas quando recebi o prémio agradeci a Portugal por me ter dado a possibilidade e a honra de cantar o Fado.
– Os ingleses não lhe têm poupado elogios, o que lhe abre muitas portas a nível da internacionalização...
– Quanto mais alto se sobe maior é o trambolhão (risos). É bom sentir que a minha música está a ser bem acolhida em Inglaterra mas isso não é uma garantia para nada. O que existe, neste momento, é um maior interesse pelo Fado e a possibilidade de chegar lá e cantar para pessoas que estão a aprender a gostar de Fado e a tentar entendê-lo.
– Consta que conseguiu pôr os ingleses a trautear em português...
– Isso foi quase uma brincadeira (risos). No final de um dos meus espectáculos da digressão britânica cantei “Lisboa, Menina e Moça” e atrevi-me a ensinar-lhes o refrão. E eles cantaram.
– É verdade que está a desenvolver um trabalho de investigação sobre o Fado, que deverá resultar num documentário produzido pela BBC?
– Sim. Tudo começou com uma pesquisa pessoal, mas depois surgiu a ideia de realizar um documentário para as pessoas interessadas no Fado. É um trabalho que vai tentar dar uma perspectiva sobre os primórdios do Fado e os seus intérpretes mais representativos.
– De acordo com as suas próprias palavras, “Fado Curvo”, o seu segundo disco, que esta semana é lançado, é um álbum “mais difícil” de que “se aprende a gostar”. Porque enveredou por uma linha menos popular?
– Está relacionado com o facto de este disco ser praticamente baseado em temas originais. O ouvido habitua-se a ouvir determinados fados e a sua estrutura fica impressa na memória colectiva. Neste disco só há três ou quatro fados tradicionais. A partir daí, segui por um caminho novo, procurando originais e outros poetas (como Eugénio de Andrade, Florbela Espanca ou António Boto) que se identificassem comigo. Por isso é que o ouvido tem de aprender a gostar.
– É um disco muito heterogéneo...
– Sim. Tem fados tradicionais, mas também coisas mais leves. Desde o fado de Coimbra, passando pela chula até ao malhão. Depois há canções como “O Deserto”, de Carlos Maria Trindade, que incluiu um trompete num tom maravilhoso... é um fado verdadeiramente à minha medida.
– Fica-se com a ideia de que é um álbum mais orgânico e intimista...
– “Fado Curvo” tem muito mais a ver comigo. Por outro lado, tenho o problema de não gostar de estar em estúdio. Por isso, eu e o meu produtor, o Carlos Maria Trindade, que defende que o fado não deve ser matemático, resolvemos gravar tudo até ao terceiro “take”. Quem ouve o disco nota que há alturas que a minha voz está mais suja ou cansada e até se ouve o tracejar das guitarras. Não houve a preocupação de fazer um disco limpo e perfeito... Por isso é mais orgânico e emocional.
– O que sente quando canta o Fado?
-- Sinto-me eu. Identifico-me totalmente... Eu sou assim.
PERFIL
Mariza cresceu no bairro da Mouraria e, inevitavelmente, apaixonou-se pelo Fado. Com seis anos, já frequentava o meio e as Casas de Fado começaram a ser um local familiar. Na adolescência aventurou-se pelo gospel, pela soul e pelo jazz, mas, como não há amor como o primeiro, acabou por render-se definitivamente ao Fado.
Em 1999, o público "descobriu-a", num concerto de homenagem a Amália realizado nos Coliseus de Lisboa e Porto. Herman José deu-lhe, então, uma mãozinha cedendo-lhe espaço no seu restaurante e nos seus programas de televisão. O primeiro disco, “Fado em Mim”, surge no final de 2001, produzido por Jorge Fernando. Apelidaram-na de “a nova Amália”, enquanto o disco atingia os “tops” de vendas além-fronteiras e vários prémios, entre os quais o da BBC Radio 3. Agora, uma altura em que nas “bocas do Mundo” volta com o segundo álbum, “Fado Curvo”.
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