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Correio da Manhã

Cultura

Memórias da fadista

Magnética, inteligente, dona de uma voz única a que o Mundo se ajoelhou e fez vénia, Amália Rodrigues mudou para sempre o fado. Quem privou com ela recorda a fadista exuberante e a mulher divertida mas solitária que carregou para sempre a mágoa de ser apelidada de fascista após o 25 de Abril.
23 de Julho de 2020 às 17:40
Magnética, inteligente, dona de uma voz única a que o Mundo se ajoelhou e fez vénia, Amália Rodrigues mudou para sempre o fado. Quem privou com ela recorda a fadista exuberante e a mulher divertida mas solitária que carregou para sempre a mágoa de ser apelidada de fascista após o 25 de Abril.
23 de Julho de 2020 às 17:40

Nascida em 1920, no seio de uma família pobre e sem ligações à tradição fadista, Amália da Piedade Rodrigues revelou desde cedo uma sensibilidade artística invulgar. O talento começou a manifestar-se nas ruas do bairro lisboeta de Alcântara, ainda menina, quando fintava a timidez e cantava para a vizinhança. Aos 19 anos, já como fadista profissional, estreou-se na famosa casa de fados "Retiro da Severa" e em apenas três meses passou de novata a cabeça de cartaz.

Amália, Amália Rodrigues
Amália, Amália Rodrigues
Amália, Amália Rodrigues
A partir da década de 40, a fama e reconhecimento, nacional e internacional, cresceram ao ritmo da inquietação que a levou a desafiar-se constantemente – ao longo de uma carreira com mais de 50 anos – e a revolucionar o fado. Acrescentou-lhe novas melodias, apresentou-lhe os poetas eruditos e entregou-os ao povo, o povo que a amou mas que também lhe partiu o coração quando lhe virou costas nos primeiros dias de democracia.

Figura maior da cultura nacional, Amália deixou uma marca profunda no País que a ouvia e em todos os que a conheceram. E poucos a terão conhecido tão bem como Estrela Carvas, amiga e secretária pessoal que acompanhou a fadista durante 30 anos.
RELATOS DOS AMIGOS

Estrela viu o mundo ajoelhar-se a Amália

A conduzir Amália e os seus guitarristas pelo País fora, a fazer o som dos concertos em frente ao palco ou na intimidade do número 193 da rua de São Bento, em Lisboa, Estrela Carvas tem um livro cheio de memórias de dias intensos vividos ao lado da "rainha do fado".


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Amiga e secretária pessoal recorda as aventuras vividas com a diva do fado
Estrela viu o mundo render-se ao génio de Amália, mas também presenciou a solidão e a tristeza que se assomavam da fadista quando os holofotes se apagavam. "Nunca conheci ninguém que vivesse tão sozinho como ela", revela a antiga secretária, recordando a firme convicção que Amália tinha de que as pessoas apenas se interessavam pela vedeta e não pela mulher.

Nunca conheci ninguém que vivesse tão sozinho como ela

Estrela Carvas

A unir a Amália que conquistou os grandes palcos mundiais e a Amália que não se deixava iludir pelas demonstrações de afeto estavam a "boa formação, a generosidade e a simplicidade". "Nunca se envaideceu", sublinha Estrela, que trabalhou com Amália Rodrigues até ao início dos anos 90, mas que manteve uma ligação com ela até à sua morte, a 6 de outubro de 1999.


A mulher que todos queriam agradar

"Senhora dona Amália, como está? ‘Só Amália, só Amália’", foi assim, com a "gentileza" que lhe era característica, que a já veterana Amália Rodrigues respondeu ao jovem Jorge Fernando, de 20 anos, quando se conheceram no aeroporto de Lisboa, prestes a embarcar para o Luxemburgo. No dia anterior, Jorge Fernando tinha sido convidado por Carlos Gonçalves, diretor musical da fadista, para substituir o viola Manuel Martins, que estava doente.

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O músico tocou com Amália durante seis anos
O concerto no Luxemburgo inaugurou uma parceria que durou seis anos nos palcos, uma "escola" que o músico e produtor não esquece: "Foi como se tivesse saído da universidade quando deixei de tocar com ela".
Destes anos e dos que se seguiram, em que gravaram juntos pontualmente, ficou uma amizade para sempre coroada pelas palavras que Amália lhe escreveu na capa do primeiro disco em que tocou – "Amália Fado" (1982): "Jorge, gosto de si como filho".

Gosto de si como filho

Escreveu Amália a Jorge Fernando

"Ela semeou algo muito profundo em mim", confessa Jorge Fernando, que recorda as lições de cultura que eram as famosas tertúlias em casa da fadista e a corte que se formava à sua volta: "toda a gente gostava de agradar e servir a Amália".


Uma personalidade magnética

Nunca fez parte "da corte da Amália", mas privou com ela de perto nos últimos anos de vida. A relação de Rui Vieira Nery com Amália Rodrigues remonta aos tempos de infância do musicólogo. Filho do guitarrista Raul Nery – que acompanhou Amália em várias digressões –, conheceu-a ainda criança, mas só muito mais tarde, no início dos anos 90, quando escreveu pela primeira vez sobre a fadista, é que se voltaram a encontrar.

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O musicólogo tinha uma relação "solar" com Amália

Da grande amizade que uniu Rui Vieira Nery e Amália, e das conversas que partilharam, o musicólogo recorda uma mulher com um "senso de humor muito divertido", "muito inteligente" e "de laços afetivos muito fortes": "Gostava muito de quem gostava. Não gostava nada de quem não gostava".


A diva que era uma pessoa simples

Quando a voz de Camané se fez ouvir no espetáculo "Maldita Cocaína" (1992), de Filipe La Féria, Amália Rodrigues gostou do que ouviu e decidiu dar-lhe um empurrão na carreira: "Disse ao David Ferreira [na altura, da editora EMI] que eu estava no bom caminho. Passados dez dias assinei contrato", conta o fadista.

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A fadista ajudou a lançar a carreira de Camané
Mas esta não foi a primeira vez que o caminho de Camané se cruzou com o de Amália. Conheceu a diva do fado quando tinha dez anos, num concerto de homenagem a Alfredo Marceneiro e, nesse ano de 1977, Amália ouviu-o cantar na Grande Noite do Fado. Mais tarde, voltaram a encontrar-se e Amália convidou-o a atuar num espetáculo de homenagem a si. 

Apesar de não ter estado muitas vezes com ela, Camané guarda a lembrança de "uma pessoa muito simples, muito normal, para alguém com aquela dimensão artística".
A VOZ DE AMÁLIA

Ao longo de décadas, muitas linhas foram escritas sobre a voz de Amália, caracterizada como única e irrepetível. Mas o mistério que esta voz encerra continuam por desvendar. "O segredo da voz da Amália tem de perguntar a Deus Nosso Senhor, porque é, de facto, um milagre". A afirmação é do musicólogo Rui Vieira Nery, que não é um único a atribuir qualidades do âmbito do divino e ininteligível à voz de Amália. Jorge Fernando, que tantas vezes partilhou palco com a fadista, garante que nunca viu nada assim.

O segredo da voz da Amália tem de perguntar a Deus Nosso Senhor, porque é, de facto, um milagre

Rui Vieira Nery

O timbre e a emoção com que canta tinham a capacidade única de transportar o público para ambientes de felicidade contagiante ou de tristeza profunda, estivesse a cantar a alegre "Cheira bem, cheira a Lisboa" ou a soturna "Abandono". E é essa voz "cheia de sentimento, cheia de alma", como descreve Camané, que teve a capacidade de transpor barreiras linguísticas e fazer com que públicos de Espanha ao Japão se apaixonassem por ela, década após década.

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"Única" e "irrepetível" são dois dos adjetivos atribuídos à sua voz
Amália podia trocar o fado pelo flamengo, samba, canções da Broadway ou rancheras mexicanas – como tantas vezes fez e merecendo sempre os maiores louvores – que a impressão digital da sua voz permanecia intocada. "Em cada coisa que ela canta, por mais diferente que seja das outras, tem uma marca de personalidade única", resume Viera Nery.
CANTAR GRANDES POETAS


À voz única, que bastaria para colocar o fado num patamar diferente daquele em que o encontrou, Amália acrescentou-lhe uma nova dimensão melódica e poética que mudou para sempre a História do fado. Além dos poetas populares, a fadista começou a cantar poetas contemporâneos que escreviam versos mais eruditos. O contributo do compositor Alain Oulman, a partir dos anos 60, foi decisivo para que Amália – que também viria a revelar a sua veia de poeta – arriscasse cantar a grande poesia portuguesa de todos os tempos.


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Amália democratizou a poesia erudita ao levá-la para o fado
Dos contemporâneos David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Melo, Alexandre O’Neill, José Carlos Ary dos Santos e Manuel Alegre, Amália recuou ao século XVI e deu voz a Camões no disco "Amália canta Luís de Camões" (1965), uma ousadia que chocou os puristas do fado e da literatura e que fez correr muita tinta. 

O musicólogo Rui Vieira Nery recorda que muitos consideravam um escândalo "cantar Camões numa música tão pobre", mas que o maior especialista camoniano da época, Hernâni Cidade, percebeu a importância do que Amália estava a fazer: "Isto vai levar Camões ao povo, que é para quem ele sempre escreveu".
AMÁLIA E A POLÍTICA

 

Nunca se quis comprometer politicamente, mas isso não evitou que Amália visse o seu nome envolvido em polémicas. Em ditadura ou democracia, houve sempre quem lhe apontasse um dedo acusador ou tentasse  colar-se à sua fama.

O poeta mais cantado por Amália foi David Mourão-Ferreira, autor do único tema que fez soar os alarmes na PIDE. "Abandono", sobre os presos políticos encarcerados no Forte de Peniche, foi editado no disco "Busto", de 1962, que chegou a estar apreendido pela polícia política durante alguns dias. Mas "o regime percebeu que não era possível apreender um disco da Amália. A força e a escala da Amália acabaram por se impor mesmo à censura", explica o musicólogo Rui Vieira Nery.

Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar

"Abandono", de David Mourão-Ferreira

Amália ainda chegou a estar algum tempo na mira da PIDE – o seu nome constava de um relatório de 1939 que indicava que pertencia à célula dos fadista do Partido Comunista Português –, mas o regime percebeu que a fadista era um trunfo e apressou-se a tentar capitalizar a sua fama e projeção internacionais. Apesar de ter beneficiado de alguma promoção do Antigo Regime, e de nunca ter negado admirar Salazar, Amália nunca cantou "aquilo que agradava ao regime", recorda Nery. A fadista até interpretou poemas de opositores como Mourão-Ferreira, Alexandre O'Neill, Sidónio Muralha e Manuel Alegre.

Investigações recentes mostram mesmo que a fadista chegou a ajudar financeiramente presos políticos durante a ditadura. Mas isso não impediu que o 25 de Abril de 1974 tivesse um impacto estrondoso na sua carreira.

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Após o 25 de Abril, Amália foi apelidada de fascista
Com a revolução, Amália viu vários dedos apontados a si e foi acusada de ser a cantora do regime, uma agente da PIDE, vendida, traidora, fascista. E viu o público, maravilhado com a viragem democrática, virar-lhe as costas.

Quem conviveu com Amália garante que esta foi uma mágoa que a acompanhou até ao fim da vida.

Textos | Catarina Cruz
Entrevistas | Catarina Cruz e Secundino Cunha
Edição | Alfredo Leite
Vídeo | Lourenço Ramos, Mariana Margarido e Nuno Fernandes Veiga
Edição de vídeo | Lourenço Ramos e Mariana Margarido
Fotografia | Arquivo CM, arquivo de Estrela Carvas e Direitos Reservados

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