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Correio da Manhã

Cultura
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Mestres de palco

Elvis Costello como nunca o ouvimos antes – e isto é verdade, não é de todo publicidade.
25 de Março de 2006 às 00:00
Elvis Costello regressa em nome próprio com ‘My Flame Burns Blue’
Elvis Costello regressa em nome próprio com ‘My Flame Burns Blue’ FOTO: Fred Prouser/Reuters
Isto de ser compositor de mérito ou de marca não é garantia, mas ajuda muito: com Elvis Costello, tem chegado e sobrado para o homem assinar discos em estilos bem diversos e ainda para distribuir da mais fina matéria-prima por vozes alheias. Com Mark Oliver Everett, também conhecido como E, líder e alma dos Eels, a história passa por mais discreta mas já deixou óptimas impressões digitais ao longo de uma carreira que chega à década e meia sem nada que a manche.
De ambos os lados, chegam agora álbuns de palco em embrulho pouco habitual – tanto o criador de ‘All This Useless Beauty’ como o autor de ‘My Descent Into Madness’ deitam mão à ajuda de uma orquestra ou de um naipe de cordas, para garantir o enriquecimento das respectivas sonoridades. Um risco: algumas das maiores ‘xaropadas’ até hoje registadas ficaram a dever-se a este anseio pela ‘pompa e circunstância’, que acaba mal quando a base de trabalho é fraca ou quando o homem não domina a ‘máquina’ orquestral. Felizmente para a nossa ‘mitologia’, nada disso acontece com estes dois discos – bem pelo contrário.
Começando pelos Eels e por ‘With Strings, Live At Town Hall’, a que se junta um quarteto feminino de cordas, em que as damas também dão uma ajuda nos coros: a palavra de ordem é a subtileza, com arranjos que criam novos espaços às canções já conhecidas dos álbuns ‘Beautiful Freak’, ‘Daisies Of The Galaxy’, ‘Soul Jacker’, ‘Shootenanny!’ e ‘Blinking Lights and Other Revelations’ (de fora fica ‘Electro-Shock Blues’, que já teve direito ao seu ‘live’ privativo) e que acentuam as vocalizações de E.
Gravado no Town Hall nova-iorquino, a 30 de Junho do ano passado, acaba por ser um disco de revelações, acentuando a riqueza melódica de ‘Dirty Girl’, ‘My Beloved Monster’, ‘Flyswatter’ (o mais surpreendente dos arranjos), ‘Novocaine For The Soul’ (ainda o tema emblemático dos Eels), ‘If You See Natalie’, ‘Suicide Life’ e ‘Losing Streak’, eleitas de uma sequência sem quebras. E ainda há tempo para que E(verett) se lance em óptimas versões, como acontece com ‘Girl From The North Country’, de Bob Dylan, e ‘Poor Side Of Town’, de Johnny Rivers. Soberbo.
Para Costello, a explicação é ainda mais simples, os adjectivos tornam-se ainda mais curtos: ‘My Flame Burns Blue’ nasce de uma gravação com a Metropole Orkest, ‘ensemble’ holandês que junta a característica de ‘jazz big band’ a um naipe permanente de cordas. Gravado no Verão de 2004, permite a Costello um passeio delirante pelo seu reportório (de ‘My Aim Is True’ a ‘North’, passando por ‘Trust’, ‘Imperial Bedroom’, ‘Brutal Youth’ e pelo álbum com Bacharach, ‘Painted From Memory’), com escalas no ‘swing’, nos ‘blues’, na balada, na ‘country’, mas tudo alicerçado num balanço irresistível, com arranjos certeiros e deslumbrantes. ‘Clubland’, ‘Almost Blue’ e ‘Watching The Detectives’ serão as memórias mais próximas. Mas tanto essas como o resto se fixam com agrado. Uma frase? Elvis Costello como nunca o ouvimos antes – e isto é verdade, não é de todo publicidade.
TOCA A TODOS
- É bem divertido encontrar NORAH JONES neste registo solto: ela divide com Richard Julian as vocalizações em ‘The Little Willies’, nome de álbum e de um quinteto, reunido para tocar em bares. Da country aos blues, de Hank Williams a Willie Nelson, também com originais, é prazer puro. Sem pressão.
- Quem gosta de tango, do autêntico (não do que nos impingem amiúde), tem a melhor oportunidade: descobrir e ouvir, muitas vezes, o álbum da estreia europeia de CRISTÓBAL REPETTO, a revelação de Buenos Aires. Simples, sentido, sem rodriguinhos nem encenações. E a voz, estranha, que nunca mais se larga.
MERCADO EXTERNO
- Tem intercalado a escrita com a música mas, de cada vez que volta aos discos, ROSANNE CASH – a mais talentosa das filhas do patriarca Johnny – faz-nos desejar que houvesse menos intervalos. A história repete-se com ‘Black Cadillac’, sábia mistura de rock, country e pop, cheio de canções maduras, superiormente cantadas e emocionantes. No formato perfeito: pequenos retratos da vida em família – ou da falta dela. O álbum é dedicado à memória do pai e apanha a maré alta de recordações do ‘man in black’. Notável. Disponível em www.amazon.com .
TOCA E FOGE
- Sem esforço, é possível relembrar num instante mais de meia dúzia de colecções dedicadas à – excelente – obra dos BLONDIE. O problema está na repetição: os mesmos hinos, mais uma mistura, mais um truque. ‘Greatest Hits: Sound and Vision’, com DVD bónus, é só mais uma. Não há outros focos de atenção?
- LINDSAY LOHAN já provou talento no cinema – havemos de vê-la no mais recente filme de Altman. Nas cantigas, é diferente: aí está ‘A Little More Personal’ a provar que não sabe passar do mau ‘rock FM’. Não falta sequer uma versão desastrosa de ‘I Want You To Want Me’, dos velhos Cheap Trick. A evitar.
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