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Correio da Manhã

Cultura
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Miguel Gameiro: “Já escrevi muito sobre mim. Acho que já me esgotei”

O cantor está de volta aos discos com um álbum, ‘Maria’, dedicado à Mulher. O pretexto para falar de género e de estilo...
Miguel Azevedo 14 de Março de 2018 às 20:21
Ao longo da carreira, eles escreveu para várias artistas e cantou com algumas delas. Agora Miguel Gameiro faz-lhes a devida homenagem num disco sugestivamente intitulado 'Maria' e cujas receitas revertem para a instituição Evita, Associação de Apoio a Portadores de Alterações nos Genes Relacionados com Cancro Hereditário.   

'Maria’ é um disco gravado com oito mulheres (entre elas estão Mariza, Ella Nor, Cuca Roseta, Susana Félix ou Miss Lyl), dedicado à mulher e pensado para sair no dia da Mulher. De alguma forma e por algum motivo estava em dívida para com elas?
(Risos) Não. Este é um trabalho que já está pensado há cerca de três anos. Era uma vontade que tinha de fazer um disco que celebrasse a mulher.

Porquê?
Por vários motivos, porque de repente me dei conta que já tinha escrito para várias mulheres, porque já estive em palco com várias mulheres e porque queria muito fazer esta celebração da figura da mulher e das suas várias facetas. E depois porque ao longo do tempo a maior parte dos meus temas são sobre relações, sobre amores e desamores.

Então este acaba por ser quase um disco conceptual?
Sim, é um disco um bocadinho fora da caixa (risos), mas também era o disco que eu queria fazer nesta altura. Para fazer o meu próximo álbum, que já está pensado na minha cabeça, eu tinha de fazer este antes. Preciso de me renovar e ganhar novo ânimo. É inevitável, ao fim de quase 25 anos de carreira, não sentirmos a máquina mais tranquila. E eu não gosto de coisas tranquilas (risos). Gosto de desafios.

E como é que foi para si voltar a pegar nestas canções, alguma delas compostas há muito tempo e voltar a vesti--las agora até com novas vozes?
Foi um processo muito engraçado. Isto é um bocadinho como na gastronomia: nós temos um ingrediente e com ele podemos fazer coisas muito diferentes. A música é um bocadinho isto. Algumas destas canções que tenho aqui pertencem aos meus dois primeiros discos a solo. Agora surgem com abordagens, roupagens e caminhos diferentes. Dei-lhes uma nova vida, até porque estas eram canções que estavam quase esquecidas nos discos por não terem sido singles.

Este álbum tem apenas um original, ‘Tu Mulher’!
Sim, foi a canção que quis fazer especificamente para este projeto. Era importante ter neste disco um tema que fosse escrito agora. É uma canção que fala nestas facetas da mulher, de ser e de estar. Eu estava em estúdio a gravar as restantes canções e num dos dias sentei-me ao piano a tocar e saiu isto. Esta nova canção nasceu ali naquele momento.

Esse tema tem um texto declamado pela apresentadora Fátima Lopes!
Sim, é um texto lindíssimo da Helena Sacadura Cabral chamado ‘Ser Mulher’. A Fátima Lopes é uma pessoa que eu admiro muito e por isso convidei-a.

Pegando nesse texto, o que é para si, homem, esta coisa de ‘Ser Mulher’?
(Risos). As mulheres que fizeram e fazem parte da minha vida sempre tiveram um peso e uma importância muito grande. A minha avó, por exemplo, era uma pessoa extremamente humilde e nos tempos em que ainda se faziam vendas de porta a porta, ela vendia leite. Saía de casa às cinco da manhã, trabalhava imenso mas ainda encontrava tempo para cuidar dos netos até a minha mãe chegar do trabalho. Ao fim de semana, a minha avó lá vestia uma roupa mais elegante, uns sapatos de salto alto para descer a rua e ir jogar cartas com os amigos ou para ir em passeios. Eu tinha uma profunda admiração pela minha avó e, hoje, a forma que tenho de ver as mulheres foi muito influenciada por ela, aquele ser de múltiplas facetas que pensa mais nos outros do que em si própria. E a minha mãe também era a mesma coisa.

E o que é que sente que elas lhe passaram para o seu lado artístico?
Elas passaram-me o sentido de ser humano, de ser próximo e simples, não só com os outros mas comigo também. Elas passaram-me muito a ideia de que nós não somos aquilo que temos. Nós somos o que somos enquanto pessoas. Isso é que conta. Eu acho que muita gente vive confundida entre o que é o ser e o ter. Eu foco-me muito no ser e isso ajuda-me muito a escrever.

Acredita que a música tem género, que a música feita por mulheres é diferente da música feita por homens, e vice-versa, ou isso é apenas um mito?
Não. Música é música. O que há são visões diferentes, mas não tem nada a ver com género. Amor é amor, para homens ou mulheres. Quando falamos de relações ou ruturas, por exemplo, elas significam exatamente o mesmo para todos.

Mas quando escreve para uma mulher, pensa nisso?
Quando me fazem um convite para escrever, o que geralmente faço é pegar na imagem que tenho dessa pessoa. Aí é muito mais fácil para mim. Isso aconteceu, por exemplo com a Mariza. Eu estava a gravar o videoclipe do meu segundo disco quando o telefone tocou. Na mesma noite eu fiz a música e passados dois dias fiz o poema, ainda que muito aconselhado pela minha mulher (risos).

Procura muito a opinião da sua mulher?
Sim, procuro. Ela é o meu grande equilíbrio no meio deste desequilíbrio interior em que eu às vezes ando. É importante termos alguém que nos possa dar alguns conselhos.

É mais fácil escrever para outros do que para si próprio?
É! Para mim é mais fácil porque eu próprio já não sou tema.

Como assim? Todos nós temos sempre coisas novas para contar aos outros ou não?
(Risos) Eu já escrevi muito sobre mim e acho que a nossa vida não é assim tão rica para encher discos atrás de discos. Eu, sinceramente, acho que já me esgotei. Quando escrevo para mim nem sempre a música sugere um tema e, por isso, quando tenho a oportunidade de escrever para outros é sempre mais fácil.

Mas ao longo destes anos de canções já escreveu muito sobre si?
Já, o que eu não dizia é que era sobre mim (risos).

Porquê?
Porque essa parte não interessa nada. O que interessa é que as pessoas se identifiquem com aquilo que eu escrevo e a verdade é que a determinada altura já todos sentiram aquilo que eu canto nas minhas canções.

A 'MARIA' CHAMA-SE SILVIE ORNELAS
 
Como é que se passa agora este disco para o palco? Vai ser difícil juntar estas mulheres todas!
Sim. Eventualmente poderei ter uma ou outra convidada. Mas a pensar nas ausências fiz um casting nacional para ir à procura da ‘Maria’, que ao vivo irá fazer as vozes dessas mulheres.

E já a encontrou?
Já, é a Silvie Ornelas, uma miúda incrível escolhida entre 30 vozes.

Já tem concertos marcados?
Sim, já tenho muita coisa. Vou fazer dois tipos de concertos este ano: em auditórios, num formato um pouco mais reduzido e acústico, e concertos ao ar livre com todo o peso que isso já tem (risos).

Parte das receitas deste disco reverte para uma instituição contra o cancro, a Evita. Porquê?
Porque eu acho que é importante quando nos é dada a oportunidade de fazermos pelos outros. E nós devemos agradecer essa oportunidade. Poder ajudar os outros faz-me sentir que a vida em sociedade faz sentido e que somos humanos.

Já viveu este drama do cancro de perto?
Sim, já vivi com a minha mãe mas felizmente isso já faz parte do passado. É um problema que toma cada vez mais conta das pessoas que estão ao nosso redor e que cada vez está mais próximo. E no caso concreto da Evita este é um tipo de cancro que é muito pouco falado que é o cancro genético e hereditário. Poucas pessoas falam nisto e eu neste meu humilde gesto acho que tenho essa obrigação
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