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Correio da Manhã

Cultura
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MIGUEL GRAÇA MOURA: JÁ PERDI A MINHA REPUTAÇÃO

Numa altura em que a Orquestra Metropolitana vive momentos agitados, o maestro Miguel Graça Moura aceitou falar ao 'CM' sob algumas condições. Recusando ser responsável pela situação, acusa Santana Lopes de estar a exercer uma vingança.
17 de Outubro de 2003 às 00:00
MIGUEL GRAÇA MOURA: JÁ PERDI A MINHA REPUTAÇÃO
MIGUEL GRAÇA MOURA: JÁ PERDI A MINHA REPUTAÇÃO FOTO: Jordi Burch
- Correio da Manhã - Acusa o Estado de dever 138 mil contos à AMEC e de ser o grande responsável pela situação na Orquestra Metropolitana de Lisboa. Na sua opinião porque é que esse dinheiro não chega?
Miguel Graça Moura - Porque o Estado quer vingar-se da derrota que sofreu na Assembleia Geral deste ano, onde a maioria votou a minha continuidade. O Estado, manipulado pela Câmara Municipal de Lisboa, fez, entretanto, tudo o que podia para arrasar a minha imagem.
- Mas quando fala de maioria refere-se aos patrocinadores regionais que apenas contribuem com cerca de 10 por cento para o Orçamento da AMEC. Os que lhe retiraram a confiança foram os patrocinadores nacionais, CML, ministérios e secretarias de Estado que contribuem com quase 80 por cento. Isso não o leva a querer demitir-se?
- De maneira nenhuma. Isso é um perfeito disparate. Quer dizer que a lei do dinheiro se sobrepõe a tudo o resto!
- Seria uma questão de bom senso...
- Isto é um problema de lei e a lei diz que todas as instituições têm o mesmo peso. Se estamos num Estado de direito a maioria de um órgão máximo tem o direito de fazer valer a sua vontade. Se esses correspondem a menos dinheiro, não dá o direito aos outros de não pagarem o que devem. Isso é a lei do bandido: perdemos na lei, então ganhamos na asfixia. Estamos é perante uma escandalosa falta de respeito pelas 160 famílias que estão numa situação dramática.
- Se o pagamento da dívida do Estado à AMEC dependesse da sua saída, estaria disposto a abandonar o cargo em nome dessas 160 famílias?
- Não depende da minha demissão. Depende de cumprir a lei. Se a Comunicação Social, a Assembleia da República e a sociedade civil se mobilizarem para dizerem que 'isto é um escândalo', então o dinheiro aparecerá. Tudo é negociável, até a minha saída, mas jamais sairei pela força e jamais permitirei que a lei não seja cumprida por minha causa. Eu tenho noção que isto é um combate de David e Golias no qual já perdi a minha reputação e a minha carreira. Ao menos que esse sacrifício sirva para fazer pedagogia em Portugal.
- Houve uma auditoria em 2002 que confirmou actos de má gestão e, passo a citar, "deficiente organização e controlo interno, a não existência de inventário de livros e CD, contabilização em duplicado de valores recebidos, trabalhadores em situação ilegal, despesas de representação que carecem de justificação, etc..." Não acha que isso basta para que lhe seja retirada a confiança?
- Nada disso são ilegalidades. Essa auditoria diz também que todos os actos de gestão do presidente da direcção estão cobertos pelos estatutos e acordo de fundadores. Por isso estamos perante uma monumental hipocrisia e apenas o fazer jogo sujo para permitir os votos de vingança do dr. Pedro Santana Lopes.
- O CM noticiou esta semana que o maestro pagava viagens a 'amigas' do estrangeiro com dinheiros da AMEC. Quem eram essas mulheres e o que vinham fazer a Portugal?
- Essas viagens não eram pagas pela AMEC.
- Mas há facturas que entraram na contabilidade de AMEC!
- Porque essas viagens foram pagas com cartões da AMEC, mas foi tudo reembolsado. Estou de consciência tranquila.
- Mas quem eram essas mulheres?
- Só foram pagas pela AMEC as viagens de mulheres que vinham em papel profissional. As outras ninguém tem nada a ver com isso.
- Impôs como condição desta entrevista responder apenas a uma questão sobre aquilo a que chama "nojeira e chafurdice". Mas o facto de não querer explicar algumas facturas que vieram a público não acha que isso também serve para alimentar mais suspeitas?
- Não, de maneira nenhuma.
- Mas não gostaria de limpar a sua imagem?
- Os tribunais é que vão limpar a minha imagem. Sei que a imagem que a opinião pública tem de mim vai ser corrigida quando os tribunais ditarem o que têm a ditar sobre o assunto.
- O que sente quando alunos, professores e músicos se manifestam contra si como aconteceu na quinta-feira passada?
- Não é contra mim. Aliás, a comissão dos músicos teve o cuidado de me telefonar nesse dia a dizer que não era nada contra mim, mas que era um método que eles tinham encontrado para tentar fazer pressão para que nos paguem os salários.
- Então se não era nada contra si, porque saiu das instalações sob escolta policial?
- Porque não estava para me sujeitar a sair no meio da gritaria. É muito fácil manipular estudantes, músicos e funcionários dizendo-lhes: "se os senhores puserem o maestro dali para fora dentro de pouco tempo vamos retomar isto tudo, mas se não fizerem vamos abrir outra coisa ao lado mas não vem toda a gente". Quem é que resiste a isto?
- Tem provas dessa pressão?
- Claro, foi-me dito pelos próprios músicos.
PERFIL:
Miguel Graça Moura é natural do Porto, tendo frequentado o Conservatório de Música entre 1976 e 1981. Em paralelo à sua formação musical, frequentou ainda o curso de Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes do Porto. Fundou e dirigiu vários grupos musicais, entre os quais se destaca o Música Viva. Estreou-se como maestro em França. Em 1986 regressa ao nosso país onde funda e dirige a Orquestra Portuguesa da Juventude e a Orquestra de Câmara "La Folia". Em 1992 Graça Moura fundou a Orquestra Metropolitana de Lisboa e a Academia Nacional Superior de Orquestra.
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