Com um novo álbum na bagagem, 'Pietá', Milton Nascimento actua em Portugal nos próximos dias 22 (Coimbra), 25 (Porto) e 27 (Lisboa). Em entrevista, o cantor falou da infância, do novo disco e da doença à qual resiste, aos 60 anos
Correio da Manhã - Este disco parece quase uma declaração de vida. É um dos seus trabalhos mais espirituais, mais sentidos. O que o levou a fazer um disco dedicado à sua mãe de criação, "Pietá"?
Milton Nascimento - A minha mãe Lilia, a quem eu chamava "Pietá", não era cantora profissional, mas foi a primeira voz feminina que ouvi na vida e que influenciou toda a minha carreira. Devia-lhe isto.
- Este disco resume muito da sua história, da sua infância. Que recordações guarda da sua meninice?
- Guardo as melhores recordações. A minha mãe de sangue morreu quando eu ainda era bebé. Fui adoptado por um casal a quem devo tudo o que tenho hoje, a Lilia e o meu pai, o Zino. Acho que sou uma pessoa de sorte, porque ter ganho essa família de presente não é para todos. Hoje recordo com carinho os momentos que passei com a minha mãe a cantar na rua e nas festas da igreja.
- Há um tema neste disco que se chama "Boa Noite" em que o Milton canta que "cada pessoa responde ao seu trovão". O que é que o atormenta neste momento?
- É engraçado porque quando eu era pequeno sonhava com o ano 2000, que ia acontecer isto e aquilo... toda a gente dizia um disparate. Entretanto, chegou o ano 2000 e pouco mudou. Estão aí as guerras, os assassinatos, as crianças maltratadas e acho que está tudo pior do que quando eu era pequeno. Por isso acho que temos de tocar o "tambor" novamente (risos).
- No tema "Imagem e Semelhança" há um verso que diz: "Pai do Céu me manda alguma ajuda". Que relação tem com a religião e com Deus?
- Religiões, eu abraço todas. A partir do momento em que canto para um público anónimo, não posso estar preso a nenhuma. Toda a gente diz que o homem foi feito à semelhança de Deus, mas se isso é verdade, então Deus deve ser horrível. Esse tema fala disso. Sinceramente, acho que é muita pretensão do homem dizer que foi feito à imagem de Deus.
- Há uma frase sua do início de carreira que ficou famosa. Dizia o Milton que ou "cantava a verdade, a sua verdade, ou não cantava". Ainda é um homem que defende essas convicções?
- Eu só canto aquilo que acho especial e aquilo que tem a minha voz. Por isso só pode ser a verdade.
- Que tipo de pessoa é hoje o Milton com 60 anos de idade?
- É complicado responder a essa pergunta porque eu não tenho esses anos todos. Eu sou da idade de quem estiver perto de mim.
- Há um tempo, o Milton atravessou um momento muito difícil na sua vida, atingido por uma doença que o debilitou muito. Em Portugal chegou a noticiar-se a sua morte. Como está a sua saúde neste momento?
- Acho que está tudo resolvido. Eu sofro de diabetes, mas basta-me cumprir algumas regras de dieta para tudo correr bem. Neste momento, estou tranquilo e há momentos em que acho que estou melhor do que antes.
- O Milton está de regresso a Portugal para vários espectáculos. O que podemos esperar destas suas actuações?
- Preparei um espectáculo que mistura as canções deste novo disco com outros temas da minha carreira. Venho com uma banda que é a melhor da minha vida. E para quem gosta das meninas que cantam comigo vai poder ouvir ao vivo a voz de uma delas, a Marina Machado, que vai fazer-me companhia.
- Por falar em meninas, há uma que merece especial destaque neste trabalho, a Maria Rita, que é a filha da Elis Regina!
- É verdade. Essa é uma história engraçada. Foi a Elis Regina que me lançou na música e agora sou eu que tenho a respon- sabilidade de lançar a filha dela. Parece que isso estava des- tinado.
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