M.J. Arlidge: “Escrever é um trabalho fantástico: pagam-me para inventar coisas”

Autor de best-sellers fala ao Correio da Manhã sobre o sucesso que mudou a sua vida.
Por Ana Maria Ribeiro|19.12.16
M.J. Arlidge: “Escrever é um trabalho fantástico: pagam-me para inventar coisas”
Foto Pedro Catarino

Ouvi dizer que na Feira do Livro de Lisboa, teve uma fila imensa de gente a pedir-lhe o autógrafo…

Fiquei muito surpreendido. Vi uma grande fila à frente do meu stand e pensei: será que não se engaram? Mas não. Traziam os meus livros na mão! É que nestas sessões é sempre uma incógnita: às vezes não aparece ninguém; outras aparecem imensas pessoas…

Já lhe aconteceu não aparecer ninguém?

Ah, uma vez, numa feira em Lyon, fiquei ao lado de um escritor francês, creio que de comédias, muito popular, e ele tinha montões de gente à espera e eu… não. Ele apresentou-se, julgando, naturalmente, que eu o conhecia, mas para dizer a verdade nunca tinha ouvido falar dele. Foi embaraçoso. Em Lisboa, a fila era grande e só de mulheres.

Só mulheres? Acha que é porque a sua protagonista, a detetive Helen Grace, é uma mulher?

Talvez. De qualquer forma são as mulheres quem mais lê ficção. Em Inglaterra, pelo menos, é assim. Os homens não lêem romances, preferem os livros de não ficção: livros de história, ensaios, livros sobre desporto… As mulheres gostam de histórias, de se imaginarem em mundos diferentes... Acho que deve ser assim em todo o lado, que é uma tendência global. O que é óptimo. Não me importo nada de escrever para mulheres. Adoro.

Que expectativas tinha relativamente aos seus fãs portugueses?

Todos os autores com quem tenho falado me dizem que os leitores portugueses são muito animados, barulhentos e entusiasmados. Constatei isso mesmo. Foi muito divertido.

Já tinha estado em Lisboa?

Já. Várias vezes, em férias. Mas a última foi há dez anos. A primeira vez coincidiu com a realização do Europeu de Futebol de 2004. Vim ver a Inglaterra perder com a França, mas foi muito bom. O tempo estava maravilhoso. Sentávamo-nos nas esplanadas até às duas ou três da manhã, a beber vinho verde. Guardo memórias muito boas dessa estada.

Algum autor português que conheça e de que goste?

Não. É um problema, em Inglaterra, sobretudo na escrita de romances policiais. O mercado editorial está totalmente dominado pelos autores ingleses e norte-americanos. Temos poucas traduções – nem alemães, nem holandeses... Temos alguma coisa dos nórdicos, claro, mas em todo o mundo se estão a traduzir os nórdicos, não é?

Considera-se um grande leitor?

Bem, neste momento leio sobretudo policiais. Antes de começar a escrever, não era, de todo, um leitor obcecado com o tema, mas agora sinto-me na obrigação de ler o que se anda a escrever nessa área. Gosto de livros com serial killers. Os meus autores preferidos são o Thomas Harris, Patricia Highsmith… Tenho lido bastantes livros dos autores americanos: Harlan Coben e o James Patterson do início da carreira.

Esses dois por alguma razão?

Porque acho que os estilos deles são os mais parecidos com o meu. Os policiais britânicos focam-se muito na personagem e na descrição dos locais. São livros lentos. Os americanos são mais rápidos e os capítulos terminam quase sempre com uma frase bombástica que te dá vontade de passar ao próximo logo a seguir. Fiquei estasiado quando percebi que há capítulos do James Patterson que só têm um página. É fantástico, esse tipo de concisão. Dizer o que se tem a dizer depressa e depois passar à frente.

Escreve todos os dias?

Exceto aos fins de semana. Encaro a minha actividade como um trabalho normal: de segunda a sexta, das nove da manhã às cinco ou seis da tarde. Porque me tornei um escritor a full-time… Eu sei que há escritores que se levantam às dez, escrevem um bocadinho, acabam às duas da tarde… enfim, têm uma atitude relaxada face à escrita. Não é o meu caso. Tento ser disciplinado. Até porque tenho um contrato que me obriga a produzir dois romances por ano.

Largou completamente a televisão?

Já não produzo. Mas escrevo para televisão. Metade do trabalho do dia é para a TV, metade para os meus livros. Acabo de assinar um contrato para a minha primeira série como argumentista, o que é fantástico. É sempre bom veres o teu nome no ecrã.



Esse sucesso todo deve-se ao seu romance de estreia, que em Portugal foi publicado com o nome ‘Um, Dó, Li, Tá’ [20|20 Editora]?

Sim. Vendeu tão bem no Reino Unido que me permitiu dedicar-me totalmente à escrita. É um trabalho fantástico: pagam-me para inventar coisas.

Era um sonho antigo?

Sempre pensei escrever, sim. Aliás, toda a vida escrevi, mas não tinha a confiança suficiente para me lançar nisso aos 20 anos, por isso é que arranjei outro emprego. Fui produtor de televisão, o que não deixava de ser criativo, mas, enfim… Foi o livro que me deu o empurrão de que eu precisava. E acho que quando nos sentamos para escrever acabamos sempre por ser surpreendidos por aquilo que nos sai da cabeça e que nem imaginávamos que tínhamos dentro de nós.

Que conselhos daria a um jovem que quer começar?

Quando vou a feiras de livros de crime, falo com muita gente. Pessoas que têm medo de falhar e por isso não avançam. Fazem pesquisa e mais pesquisa, frequentam ateliers de escrita criativa… Acho tudo isso muito bem, mas no fundo o que é preciso é sentar o rabo na cadeira e escrever. A imaginação humana é algo de muito poderoso.

Há um novo ‘boom’ no género policial. Porquê este interesse em escrever e em ler romances policiais?

Acho que é por duas razões. Há curiosidade intelectual em torno do crime, porque a verdade é que a maior parte de nós não se imagina a infringir a lei. Até parece ilógico: magoa as pessoas, é imoral… A maioria de nós pergunta-se: como é possível fazer-se isto? Sobretudo no caso dos serial killers, cujos crimes são particularmente horríveis. Depois, num outro nível, acho que as pessoas gostam de apanhar sustos. É por isso que vão ao cinema ver filmes de terror.

Quando escreve, vê o filme na sua cabeça? Quer dizer, escreve como se estivesse a realizar?

Sim. Eu preparo muito bem os meus livros. Planeio todos os capítulos antes de começar a escrever. Tenho um quadro na parede onde vou colando a informação, para fazer uma leitura imediata das situações…

Que atriz imagina a interpretar a figura de Helen Grace?

Na verdade, o primeiro livro está a ser adaptado agora, para a BBC, por uma empresa de cinema. Na cabeça deles, a Helen deverá ser interpretada pela Charlotte Gainsbourg. Porque tem bom sotaque inglês, é bela de uma forma estranha, parece ter um passado traumático… O livro é bastante explícito e a Charlotte não tem medo de se expor, como já vimos várias vezes na sua carreira. Acho que é esse tipo de sexualidade perigosa que eles procuram.

Tem receio de perder a inspiração?

Bem… para já não. Normalmente tenho montes de ideias. E como só comecei a escrever quando já tinha quase 40 anos… até lá estive a fermentar ideias na minha cabeça. Como finalmente descobri aquilo que realmente gosto de fazer, espero poder continuar a fazê-lo durante muitos anos.

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