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Correio da Manhã

Cultura

Morrer não é o fim

Ela é a autora mais publicada de todos os tempos e em todos os idiomas, se deixarmos de fora ‘A Bíblia’ e Shakespeare. Ela é Agatha Christie, ‘a rainha do crime’ – a literatura assim a rebaptizou – e morreu há 30 anos.
15 de Janeiro de 2006 às 00:00
Morrer não é o fim
Morrer não é o fim
Hercule Poirot e Miss Marple, Tommy e Tuppence ou Mr. Quin são os seus cartões de visita, traduzindo um desejo da própria que, um dia, terá recusado revelar dados biográficos a um estudante para um trabalho: “O importante é o que está escrito e não a vida de quem escreve. Leia os meus livros e tire as conclusões.”
E sobre os seus livros, uma equipa de neurolinguistas de três universidades britânicas fez furor ao pretender ter chegado à chave do sucesso da escritora: o ‘Código Christie’, que assenta numa linguagem hipnótica de frases curtas e palavras repetitivas, narrativas longas e vocabulário básico de que resulta uma atenção centrada no essencial, ou seja, nas pistas semeadas ao correr da trama.
Especulações aparte, o facto é que Agatha Christie ganhou o mundo com mais de 80 livros, entre romances policiais e contos, uma vintena de peças de teatro e meia dúzia de romances escritos sob o pseudónimo Mary Westmacott.
Os anos 50 foram os da consagração como dramaturga, com destaque para ‘A Ratoeira’, em exibição contínua desde a estreia, em 1952, no West End de Londres, um recorde de permanência em cartaz...
VIDA A IMITAR UM LIVRO
Agatha Mary Clarissa Miller (1890-1976), a quem os casamentos acrescentariam primeiro Christie e depois Mallowan, nasceu em Devonshire, Inglaterra, filha de um corretor da bolsa americano e de uma aristocrata inglesa.
Criança curiosa, depressa se tornou leitora compulsiva de autores como Arthur Conan Doyle e Edgar Allan Poe. Uma gripe que a deixou de cama acabou por revelar a escritora...
Em 1914, casou-se com o oficial do exército Archibald Christie e, durante a Guerra Mundial, fez voluntariado num hospital onde se familiarizou com material de enfermagem e farmácia, nomeadamente com os venenos que viriam a ser matéria-prima preciosa para a escrita futura.
Em 1919, deu à luz a única filha (Rosalind) e, um ano mais tarde, o primeiro livro (‘A Primeira Investigação de Poirot’), mas só em 1926 o seu trabalho ganhou visibilidade com ‘O Assassinato de Roger Ackroyd’.
No mesmo ano, a morte da mãe e a separação do marido potenciam um esgotamento nervoso. Recuperada, apanha o Expresso do Oriente para a Turquia, onde a espera novo sobrenome: Mallowan. “A maior vantagem de casar com um arqueólogo é que, quanto mais velha, melhor”, terá dito.
Desta parceria, que durou o resto da sua vida, resultou obra maior: ‘Assassínio na Mesopotâmia’, ‘Morte no Nilo’, ‘Morte entre Ruínas’, ‘Morrer não é o Fim’...
POIROT O PRIMEIRO DETECTIVE
Um bigode impecável, a cabeça em forma de ovo e a melhor impressão possível de si próprio identificam de imediato Hercule Poirot, o primeiro detective da escritora que se inspirou num vizinho para compor a personagem. Austin Trevor, Peter Ustinov, Tony Randall, Albert Finney e David Suchet foram Poirot nos ecrãs.
PORMENORES
A PEQUENA AGATHA
Em criança, Agatha cultivava o gosto pela matemática e pela natação, os amigos invisíveis, as colecções de peluches, a equitação e o ténis... Aos quatro anos lia sozinha um livro não porque soubesse ler mas porque decorava tudo o que via!
MISS MARPLE
Caricatura da inglesa idosa e campesina, Miss Marple é uma detective intuitiva ao contrário do racional Poirot. “A natureza humana é a mesma em qualquer lugar”, repete na dúzia de livros que protagoniza, tendo passado aos ecrãs na pele de Margaret Rutherford, Helen Hayes, Angela Lansbury e Joan Hickson.
NO CINEMA
– ‘O Adversário Secreto’ (escrito em 1922)
– ‘O Assassinato de Roger Ackroyd’ (1926)
– ‘O Misterioso Dr. Quin’ (1930)
– ‘A Morte de Lorde Edgware’ (1933)
– Um Crime no Expresso Oriente (1934)
– ‘Os Crimes do ABC’ (1936)
– ‘Morte no Nilo’ (1937)
– ‘Morte entre Ruínas’ (1938)
– ‘Convite para a Morte’/‘As Dez’ Figuras Negras’ (1939)
– ‘As Férias de Poirot’ (1941)
– ‘Poirot Contra a Evidência’ (1952)
– ‘O Espelho Quebrado’ (1962)
– ‘Noite Sem Fim’ (1967)
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