Barra Cofina

Correio da Manhã

Cultura
2

Morreu Antonioni, o Grande

O primeiro sucesso internacional da carreira de Michelangelo Antonioni, ‘A Aventura’, rodado em 1959, levou Cannes ao rubro. Na estreia, durante o festival, o filme deixou público e crítica completamente divididos, entre aqueles que aplaudiam de pé e os que assobiavam e pateavam furiosamente.
1 de Agosto de 2007 às 00:00
Michelangelo Antonioni faleceu na segunda-feira à noite
Michelangelo Antonioni faleceu na segunda-feira à noite FOTO: direitos reservados
E foi sempre assim a carreira do realizador italiano, desaparecido anteontem, aos 94 anos, no mesmo dia do ‘colega’ sueco Ingmar Bergman: Antonioni teve um percurso artístico muito pouco consensual e até marcado por alguma polémica. Os seus filmes – 22, no total – têm, normalmente, um enredo simples e pouco diálogo, retratando a alienação humana e a angústica existencial. Constituem aquilo a que alguns chamam ‘o cinema introspectivo’ e poucos de entre eles conseguiram aplausos unânimes.
Economista de formação, Antonioni foi jornalista, crítico de cinema e argumentista antes de estudar técnica cinematográfica e de assinar o primeiro filme, ‘Escândalo de Amor’, relativamente tarde (tinha 38 anos). Filmes como ‘A Noite’, ‘Blow Up (História de um Fotógrafo)’, ‘Profissão: Repórter’ ou ‘Identificação de uma Mulher’ fizeram o seu renome internacional e valeram-lhe alguns dos muitos prémios com que foi distinguido. Em 1985, com 63 anos, sofreu um enfarte, do qual nunca recuperou completamente: a fala ficou fortemente afectada e passou a deslocar-se com muita dificuldade. No entanto, ainda arranjou forças para continuar a trabalhar e rodou mais quatro filmes, o último dos quais, ‘Eros’, em 2004, aos 92 anos.
A qualidade e originalidade do seu trabalho acabaram por ser recompensadas com um Óscar de Carreira em 1995 e, dois anos depois, Veneza reconhecia o mérito da sua obra com um Leão de Ouro.
Anteontem, Antonioni morreu “pacificamente” sentado na sua poltrona, na casa de Roma, ao lado da mulher. O corpo está em câmara ardente na Câmara Municipal da capital italiana e será enterrado amanhã em Ferrara, cidade onde nasceu em Setembro de 1912.
"FOI A MINHA ESCOLA DE CINEMA"
“Nunca fiz estudos regulares de cinema e ter trabalhado com Michelangelo Antonioni, no início da década de 60, foi a minha grande escola na Sétima Arte”, contou ao CM o realizador português José Fonseca e Costa, que foi assistente de realização de Antonioni no filme ‘O Eclipse’, de 1962. Da experiência, vivida aos 29 anos, Fonseca e Costa recorda a convivência com “um homem genial”, “brilhantemente inteligente” e que “dominava como poucos a escrita cinematográfica”. “O Antonioni tinha um grande sentido de humor e como pessoa era extremamente correcto no tratamento com os outros. Era, também, um homem muito discreto, que se concentrava no trabalho”, lembra, lamentando a perda de mais um grande nome de uma geração marcante do cinema. “Como se pode imaginar, sinto muito a morte dele. É o último a desaparecer de uma geração única: o Visconti, o Rosselini...” O autor de ‘Sem Sombra de Pecado’ sublinha ainda a coincidência das mortes de Antonioni e de Ingmar Bergman, salientando aquilo que os dois realizadores tinham em comum – além da genialidade. “Embora com estilos diferentes, o que eles tinham a dizer era semelhante, pois tanto um como o outro trabalhava aquilo que há de mais profundo na alma humana”, conclui.
HOMENAGEM DUPLA
O cinema King, em Lisboa, homenageia os dois nomes maiores da Sétima Arte falecidos nesta semana – Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni – com a reposição de três filmes nos próximos dias 3, 4 e 6, nas sessões da meia-noite.
'SARABAND'
O último filme de Bergman é exibido à meia-noite. Liv Ullman e Erland Josephson reencontram as personagens de ‘Cenas da Vida Conjugal’.
'PROFISSÃO: REPÓRTER’
Realizado por Antonioni em 1975, com Jack Nicholson e Maria Schneider. Às 00h15.
'BLOW UP (História de um fotógrafo)’
Primeiro filme em inglês do cineasta italiano, com Vanessa Redgrave, David Hemings e Sarah Miles, a partir de um conto de Júlio Cortazar. Às 00h30.
Ver comentários