Malangatana Valente Ngweya morreu, aos 74 anos,no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, pelas 3h30, vítima de doença prolongada, depois de vários dias internado.
Conhecido pelos seus quadros, o artista moçambicano antes apanhador de bolas, criado, pastor, empregado de bar. Lutou activamente pela independência de Moçambique, foi preso pela PIDE, torturado, juntou-se à FRELIMO, foi deputado e recebeu inúmeros prémios.
Em 1997 foi nomeado Artista pela Paz, tendo o director da UNESCO descrito Malangatana como "muito mais do que um artista, alguém que demonstra que existe uma linguagem universal, a linguagem da Arte, que permite comunicar uma mensagem de Paz".
Malangatana, um dos moçambicanos mais famosos, nasceu a 6 de Junho de 1936, em Matalana, numa povoação do distrito de Marracuense, a 40 quilómetros de Maputo.
Estudou na escola da missão suíça de Matalana e na missão católica de Ntsindya. Frequentou o Núcleo de Arte e a escola industrial em Maputo, tendo sido bolseiro da Gulbenkian ainda antes da independência de Moçambique.
As suas obras encontram-se espalhadas pelos quatro cantos do Mundo como África, Europa, Estados Unidos, América Latina, Índia e Paquistão.
Começou a desenhar ainda em criança com carvão ou com outros materiais que tivesse à mão. Sentia-se preso na pintura até Augusto Cabral, seu patrão no clube onde era apanha bolas, o ter descoberto e apostado em si, dando-lhe material, desafiando-o a pintar o que lhe ia na alma.
Aproveitou o dinheiro da venda dos seus primeiros quadros, há 50 anos, para comprar uma casa em Portugal e trazer a família de Maputo. Mas a sua carreira não se ficou pela pintura, tendo também feito cerâmica, tapeçaria, gravura e escultura. Experimentava areia, conchas, pedras e raízes. Homem das artes, foi ainda poeta, actor, dançarino e músico.
Lutou na FRELIMO e foi preso pela PIDE, mas continuou sempre a pintar, com os seus desenhos a sair da cadeia escondidos em garrafas que a sua mulher transportava.
Recebeu o prémio Príncipe Claus e a medalha da Ordem do Infante D.Henrique.
"PERDA MUITO GRANDE PARA O MUNDO LUSÓFONO"
O arquitecto Pancho Guedes realça que o pintor era único, sublinhando que a sua morte é uma "terrível" perda.
Pancho Guedes mostrou-se ainda surpreso pela morte do pintor, afirmando que Malangatana "parecia uma pessoa saudável, que viajava com uma capacidade enorme".
A ligação entre ambos era grande. No início da sua carreira, Pancho Guedes disponibilizou um espaço para pintar na garagem e comprava dois quadros por mês a preços inflaccionados a Malagantana.
Também o candidato presidencial Manuel Alegre lamentou a morte de Malangatana, afirmando que desaparece "um bom amigo".
"Um bom amigo, um grande pintor que trouxe as cores de África até nós e que com a sua maneira de ser, a sua convivência contribuiu também para aproximar culturalmente Portugal e Moçambique, as nossas culturas", disse, em declarações à agência Lusa.
Manuel Alegre lembrou ainda os "vários encontros" que o juntaram ao artista.
"Tivemos vários encontros, várias convivências. Uma das últimas vezes que o encontrei foi em Vila Verde de Ficalho, no Alentejo, onde ele gostava de ir. Era um homem que gostava de estar com os amigos, de conviver, mas acima de tudo era um grande pintor", afirmou, acrescentando que "é um amigo que deixa saudades".
Elísio Summavielle, secretário de Estado da Cultura, afirma que a morte de Malangatana é "uma perda muito grande para o mundo lusófono".
Para o secretário de Estado, o pintor moçambicano era não só "uma figura universal na área das artes, com uma obra muito vasta", mas também um "grande homem e um resistente anti-colonial".
Summavielle salientou ainda o reconhecimento mundial pela UNESCO, quando Malangatana foi considerado Artista pela Paz.
O Ministério da Cultura também já expressou o seu pesar. A ministra recorda Malangatana como um dos pintores lusófonos mais conhecidos em todo o mundo.
"A pintura de Malangatana, inequívoca herdeira e transmissora de um legado africano, manifesta um arrojo de formas de grande intensidade visual e pictórica, onde a vida sublinha a integração do ser humano na natureza", destaca o Ministério em comunicado.
Na nota, o Ministério lembra ainda o poeta e o cidadão filantropo que esteve envolvido na criação do Museu Nacional de Arte, no Centro de Estudos Culturais e num centro de formação para a juventude.
Actualmente está patente uma exposição de desenhos e esculturas de Malangatana na Casa da Cerca, em Almada.
Na exposição da colecção de obras africanas do arquitecto Pancho Guedes, no Mercado Santa Clara, em Lisboa, também estão patentes algumas pinturas do começo da carreira do pintor.
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