Escritora tinha 88 anos.
A escritora norte-americana Toni Morrison, Nobel da Literatura, uma das vozes das letras afro-americanas, morreu na segunda-feira, aos 88 anos, em Nova Iorque, revelou esta terça-feira a editora Alfred A. Knopf.
Nascida em 1931 em Lorain, Ohio, Toni Morrison formou-se em Língua Inglesa e lecionou em várias universidades, tendo trabalhado também como editora na Random House, num papel que lhe permitiu divulgar outros nomes da literatura afro-americana.
Estreou-se como autora pouco antes dos 40 anos, em 1970, com o romance "The Bluest Eye". Em entrevista ao jornal The New York Times, em 1979, Toni Morrison recordou que se sentia sozinha com os dois filhos, em Nova Iorque, quando começou a escrever.
"Escrever era uma coisa que eu fazia à noite, depois de as crianças irem dormir", disse.
Depois de "The Bluest Eye", baseado numa história de infância, de uma criança negra que desejava ter olhos azuis e que foi violada pelo pai, seguiram-se "Sula" (1973), "Song of Solomon" (1977), "Tar Baby" (1981) e "Beloved" (1987), todos eles dando voz a personagens negras e convocando questões relacionadas com racismo, segregação e minorias.
Em 1993, foi a primeira escritora negra a ganhar o Prémio Nobel da Literatura.
A Academia Sueca sublinhou a presença da tradição afro-americana na obra da autora, por influência dos livros que lia e das histórias que o pai lhe contava, e da transposição desse património cultural para romances sobre redenção e integridade.
A atribuição do Nobel aconteceu-lhe já depois de ter sido amplamente premiada nos Estados Unidos, nomeadamente com o Pulitzer, em 1988, com "Beloved".
Em 2012 foi condecorada com a medalha da Liberdade pelo então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.
Autora ainda de ensaios, livros para crianças e teatro, Toni Morrison publicou o último romance, "Deus Ajude a Criança", em 2014.
Dois anos depois, em 2016, escreveu um ensaio amplamente citado a propósito de Donald Trump, dizendo que eleição dele para a presidência dos Estados Unidos representa aquilo que os brancos estão dispostos a fazer para manterem um estatuto.
De Toni Morrison estão publicados vários títulos em Portugal, entre os quais "Beloved", "Deus ajude a criança" e "A Dádiva".
"Beloved", que aborda a escravatura e a violência que prevaleceu para lá da sua abolição, foi a primeia obra de Toni Morrison editada em Portugal, traduzida por Evelyn Kay Massaro, com o título "Amada". Foi em 1989, numa edição da Difusão Cultural, e manteve-se durante anos como único título disponível da autora, nas livrarias portuguesas, mesmo depois da atribuição do Nobel da Literatura.
Surgiram depois, na Editorial Presença, "A Dádiva", traduzido por Fernanda Pinto Rodrigues, "A Nossa Casa É Onde Está o Coração", e "Deus Ajude a Criança", ambos com tradução de Manuela Madureira.
O primeiro, uma história de escravatura e de ódio racial, tem por cenário os primeiros anos da independência dos Estados Unidos, no final do século XVII, enquanto "A Nossa Casa É Onde Está o Coração" se passa nos anos de 1950/1960, numa América que permanece dividida pela segregação. "Deus Ajude a Criança" fala do modo como a infância e a cor da pele determinam o percurso de uma vida.
A Dom Quixote publicou "Love" (2009), história de uma obsessão, e de novo "Beloved" (2011), que também surgiu na Presença no ano passado, traduzidos por Maria João Freire de Andrade.
Em 2014, a Colibri publicou "Magia Negra: a obra de Toni Morrison", de João de Mancelos, dedicado à autora. Foi o primeiro ensaio a sair do meio académico, onde a obra de Toni Morrison já foi objeto de diferentes abordagens, de acordo com a lista disponível no catálogo da Biblioteca Nacional de Portugal.
"Beloved" foi adaptado ao cinema pelo realizador Jonathan Demme, em 1998. O filme não chegou às salas portuguesas de cinema, mas foi editado em vídeo com o título "Amada".
O documentarista norte-americano Timothy Greenfield-Sanders, autor da série "American Masters", dirigiu este ano o documentário "Toni Morrison: The Pieces I Am", dedicado à escritora.
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