O telefone toca. Do outro lado da linha o costume: as empresas de sempre a tentarem impingir-nos mais um fabuloso produto, uma irresistível promoção, um tentador inquérito. Mas e se nos oferecerem a solução para os nossos mais tormentosos problemas?
Foi assim com Luís Tinoco. Atendeu o telefone e, do outro lado, a morte – há tanto ansiada depois de um já de si mortífero desgosto amoroso – chamava. Ou melhor, chamava uma empresa de suicídios e um agente empenhado em propor a solução para a angústia de Luís. Mesmo que, para isso, tivesse de saltar de tentativa em tentativa (falhadas) para pôr termo à vida de tão bom cliente.
A ideia de tamanha loucura é do jovem realizador Artur Serra Araújo e é o ponto de partida de ‘Suicídio Encomendado’. O filme tem honras de abertura da Semana dos Realizadores do Festival de Cinema do Fantástico do Porto, Fantasporto. Na sexta-feira, dia 23, a história de Tinoco conta-se na estreia no grande ecrã de João Fino (Tinoco) que, a par do realizador Artur Serra Araújo, ensaia os primeiros passos na longa-metragem depois de uma breve parceria numa anterior curta do cineasta. “Concorremos ao apoio do ICAM (Instituto de Cinema, Audiovisual e Multimedia), ficámos perto mas não conseguimos. Foi uma aventura entrar neste filme sem apoios mas puxámos pela imaginação e fizemos das dificuldades desafios”, lembrou ao CM Artur Serra Araújo.
Depois de três meses a rodar no Porto e em Trás-os-Montes em 2005, o resultado é um divertido “road movie” ao estilo de comédia negra de um jovem “que já queria morrer depois de um desgosto de amor”, antecipou o cineasta de 29 anos.
APELO AO SUCÍDIO É PROMOÇÃO
Até à estreia, Lisboa e Porto têm sido inundados de panfletos e mupis originais – outros dirão de mau gosto – que apelam ao suicídio e apresentam uma (fictícia) empresa especialista em mortes por encomenda. Uma das frases inscritas – “Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”– faz também parte do filme. “Não é uma brincadeira. É uma divertida campanha de promoção para chamar a atenção para esta comédia negra que envolve uma empresa especializada em suicídios”, explica Francisco Bravo Ferreira, da FBF, produtora do filme que ainda vai dar (mais) que falar...
Uma leitura mais atenta dos panfletos desvenda outro apelo: “Traga um amigo e beneficie de um desconto de 50%. Garantia de Morte Certa”. Certa é a vertente humorística do filme. E o tema que a ninguém deixa indiferente.
Aos 29 anos, o cineasta portuense Artur Serra Araújo conta já com alguns prémios na curta mas bem sucedida carreira. Formado em Som e Imagem pela Escola das Artes da Universidade Católica, já fez duas curtas-metragens – ‘Uma Comédia Infeliz’ (2004) e ‘Frio’ (2005) – que conquistaram, entre outros, prémios nos festivais de Sergipe (Brasil), Espinho e Porto. ‘Suicídio Encomendado’, escrito e realizado por Artur, é a sua primeira longa-metragem.
27.ª EDIÇÃO TRAZ AO RIVOLI TRÊS GERAÇÕES DE PÚBLICO
Uma manchete do Correio da Manhã, nos longínquos anos 80, despertou a Comunicação Social para uma ‘certa’ mostra de cinema fantástico que, na altura, dava os primeiros passos. Amanhã, 27 anos depois do Fantasporto Festival Internacional de Cinema Fantástico ter começado a ser um verdadeiro festival – agora menos terrorífico do que outrora –, o Fantas volta a juntar no(s) mesmo(s) palco(s) cineastas consagrados com estreantes.
Rossana Arquette, conhecida pelas suas interpretações em ‘Crash’ e ‘Doce Vingança’, vai ser uma das convidadas especialíssimas da 27.ª edição do evento, onde vai ser homenageada. Pelo menos assim garante Mário Dorminsky, director do festival que amanhã começa. O eterno ‘Elliott’ do ‘ET – O Extraterrestre’, Henry Thomas, que entrou mais recentemente em ‘Gangs de Nova Iorque’, também é presença garantida.
Já não tão certa é a deslocação ao Porto de Sean Young, a protagonista feminina de ‘Blade Runner’. O convite a Thomas e Young prende-se com a homenagem aos 25 anos de vida dos citados filmes.
Durante 16 dias, o Teatro Rivoli, que vai ser o palco principal do evento – este ano mais concentrado naquele espaço e, assim, menos disperso pela cidade –, esquece a polémica em que tem estado envolto nos últimos meses e prepara-se para receber “um público que já vai na terceira geração”, conforme realça Dorminsky.
As três vertentes principais do festival mantêm-se. A competição em torno do cinema fantástico, a Semana dos Realizadores (que acolhe diferentes géneros cinematográficos) e o Orient Express, dedicado ao cinema oriental.
A produção portuguesa não é esquecida, estando representada em todas as suas facetas, incluindo a de documentário, com a projecção de ‘Olhar o cinema português’, de Manuel Mozos. Pelo meio, ainda há tempo para uma retrospectiva das cinematografias russa – que já há muitas edições não aparecia no Fantas – e grega e para uma homenagem a Marin Karmitz, produtor e realizador francês.
No festival que tem a responsabilidade de passar filmes premiados em Cannes e Berlim, as honras de abertura e de encerramento cabem (a 4 de Março) a ‘O Labirinto de Fauno,’ do mexicano Guilherme del Toro, e ‘The Fountain’, de Darren Aronofksy, respectivamente.
DOCUMENTÁRIO
‘Olhar o Cinema Português’, do realizador Manuel Mozos, pretende percorrer a Sétima Arte portuguesa de Manoel de Oliveira a João César Monteiro, de Tino Navarro a Joaquim Leitão.
CONCERTOS
O Fantasporto vai encerrar a 3 de Março com concertos das bandas Peaches, Buraka Som Sistema e Blind Zero no tradicional Baile dos Vampiros, em local ainda a definir.
RUSSO E GREGO
A cinematografia russa, que há muito não aparecia no festival, e a grega, pouco conhecida, vão ser dois dos destaques do Fantasporto através de uma retrospectiva.
EQUIPA FANTAS
A organização do Fantas, constituída por oito pessoas, durante um ano frequentou festivais de cinema no estrangeiro e seleccionou um leque de filmes para a competição.
TENDA EXTERIOR
A Movietown (Cidade do Cinema) é, segundo a organização, a grande novidade deste ano. Consiste numa tenda no exterior do Rivoli onde vão decorrer conferências e workshops.
CONVIDADOS
A presença de figuras internacionais no Fantasporto ligadas à 7.ª Arte representou para a organização um investimento de mais de cinquenta por cento sobre o custo global do evento.
"O FANTAS NASCEU E VAI MORRER NO RIVOLI"
Mário Dorminsky, pai do fantas, acumula a organização do festival com o pelouro da Cultura da Câmara de Gaia. Recusa a ideia de o festival sair do Rivoli em 2008.
Correio da Manhã – Vinte e sete anos depois da 1.ª edição qual é o objectivo do Fantas?
Mário Dorminsky – Continua a ser descobrir os grandes nomes do cinema e mostrá-los ao País.
– O que destaca no programa deste ano?
– A tenda no exterior do Rivoli – a Movietown – e a presença de convidados internacionais ainda no activo, ligados ao cinema.
– Qual é agora a secção mais forte do festival?
– A Semana dos Realizadores. Aliás, desde que foi implementada o nosso público duplicou.
– O Rivoli continua a ser o palco ideal para o festival?
– O Fantas nasceu e vai morrer no Rivoli. É o seu palco natural. Sendo a sala de visitas da cidade e a única preparada para o receber não faz sentido que seja noutro lado.
– Nem a privatização da gestão do teatro poderá pôr em causa que ali se realize em 2008?
– Espero que a Câmara e a empresa que fique responsável pela gestão possam negociar para que seja possível a continuação, porque, enquanto evento, o Fantas é importante para a imagem da cidade. Acredito que a autarquia vá utilizar 16 dos 60 dias a que terá direito ao Teatro para acolher o festival.
– O seu nome estará sempre ligado ao cinema. Lembra-se do primeiro filme que viu?
– Foi o ‘Príncipe e o Pobre’, que vi com os meus pais no Teatro Sá da Bandeira, com quatro anos.
– E qual é o filme da sua vida?
– Tenho dois: o ‘Blade Runner’, do Ridley Scott, que na minha opinião é um dos clássicos do cinema fantástico, e ‘O Mundo a Seus Pés’ do Orson Wells.
– Houve algum momento em que foi claro para si que a sua profissão tinha de passar pela cultura?
– Não foi logo claro, porque na minha adolescência a cultura era entendida como a única alternativa para os tempos de lazer.
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