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Correio da Manhã

Cultura

Mudar foi uma opção assumida

João Afonso regressa aos discos com ‘Outra Vida’, um título que é uma “alusão a uma mudança, a uma sonoridade diferente”, que inclui ‘Bombons de Todos os Dias’, inédito do seu tio, José Afonso.
20 de Março de 2006 às 00:00
Mudar foi uma opção assumida
Mudar foi uma opção assumida FOTO: d.r.
Correio da manhã – O título ‘Outra Vida’ sugere uma mudança. Era uma necessidade?
João Afonso – É... é um pouco assim. Tinha de dar título ao disco, pensei primeiro em ‘Acridoce’, mas ‘Outra Vida’ é, de facto, uma alusão a uma mudança, a uma sonoridade diferente, mas a própria canção é também uma alusão ecológica a uma vida em maior harmonia com a natureza.
– Porquê outra sonoridade?
– Foi uma opção assumida de mudar. Tem a ver também com o facto de ter tido um produtor diferente [João Lucas], que fez um trabalho notável. Desta vez utilizei instrumentos que nunca usei, o piano, o acordeão, a bateria, as próprias guitarras eléctricas, o contrabaixo e o clarinete. É um trabalho que, sem deixar de ser intimista, vai mais à frente. E devo-o muito aos músicos com que trabalhei, que foram bestiais.
– Sempre cultivou muito a relação com Espanha e os seus músicos e neste disco conta com a participação de Luis Pastor. Porquê?
– Há um lado prático, porque tenho trabalhado muito em Espanha e criei relações profissionais e de amizade. E o Luis Pastor é uma delas. Admiro-o e aprendi muito com ele, que também tem um grande apego à música portuguesa. Depois, porque a letra é dele, uma das pessoas com quem tenho partilhado uma série de coisas, tal como o Uxía, o Pedro Guerra, o Ismael Serrano...
– Há ainda uma canção com poema de Mia Couto criado de propósito para o disco...
– Já no álbum ‘Zanzibar’ [2002] tinha feito uma canção a partir do livro do Mia Couto. Admiro muito a poética da sua prosa e também as crónicas e vamos trocando ‘mails’, até para saber notícias da minha terra. Da última vez que ele esteve cá surgiu a ideia de fazer uma coisa a meias e já temos seis músicas com letras que ele vai mandando e o ‘Eco’ é uma dessas. Ele enviou o poema e eu musiquei-o.
– E depois há ainda um inédito do seu tio [José Afonso]. Onde o descobriu?
– ‘Bombons de Todos os Dias’ surgiu-me pouco depois da morte do meu tio, quando me encontrei na Galiza com Benedito Garcia, amigo da família, que chegou a acompanhá-lo. Ele deu-me uma cassete com temas conhecidos cantados em casa dele. Ouvem-se os barulhos todos: a cozinha, as pessoas e o meu tio a começar a cantar esta canção. Nota-se que está a desenvolver a música. Depois, quando ouvimos a canção (eu e o João Lucas) optámos por respeitar a forma como ele cantou. Respeitar o intimismo e, sobretudo, perceber a música, porque é tão bonita quanto difícil. Foi a que mais me custou.
– E há mais inéditos dele?
– Conheço alguns. Quando era vivo estava a trabalhar em canções para gravar com Júlio Pereira e José Mário Branco num projecto que depois ficou parado.
– E na dita cassete ‘galega’?
– Tem mais duas canções, mas acho que optámos pela mais bonita. Mas as outras também o são...
PERFIL
João Afonso nasce em Moçambique em 1965 e chega a Portugal com 13 anos. Participa no projecto ‘Maio Maduro Maio’, com José Mário Branco e Amélia Muge (’94). No ano seguinte, abandona o curso de Agronomia Tropical para se dedicar à música, tendo colaborado em vários projectos, nomeadamente nos discos ‘Janelas Verdes’ e ‘Acústico’, de Júlio Pereira, e ‘Lua Extravagante’, do grupo homónimo. O primeiro disco a solo, ‘Missangas’, chega em ‘97 e mostra um cantautor de eleição. Seguiram-se ‘Barco Voador’ (’99), e ‘Zanzibar’ (’02). Pelo meio tem-se destacado pelas participações com músicos de Espanha e defesa de causas ecológicas.
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