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Correio da Manhã

Cultura
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Múmia única por estudar

Repousa num túmulo em Santarém aquela que é apontada como a única múmia artificial portuguesa, mas cinco anos após o achado a falta de meios técnicos e financeiros continua a impedir o seu estudo e a validação de teorias.
28 de Abril de 2005 às 00:00
A múmia terá mais de 550 anos e os arqueólogos pensam que foi preparada no Norte de África
A múmia terá mais de 550 anos e os arqueólogos pensam que foi preparada no Norte de África FOTO: d.r.
O maior obstáculo dos investigadores tem sido a necessidade de remover, sem causar danos, a pedra superior do túmulo, situado na Igreja da Graça e pertencente à família do conde Pedro de Meneses.
O privilégio da descoberta do corpo mumificado, que data de há pelo menos 550 anos, coube ao arqueólogo António Matias em Fevereiro de 2000. “É um achado importante pela raridade. Em Portugal, que se conheça, nunca foram utilizados estes métodos”, explicou.
A possibilidade surgiu com a abertura de um orifício de 40 por 15 centímetros durante uma intervenção de restauro do IPPAR. O arqueólogo, a trabalhar para a autarquia de Santarém, usou uma lanterna pendurada num pau para iluminar o interior do túmulo e um espelho para o observar. “Vi um corpo mumificado e bem conservado, com excepção da zona posterior da cabeça”, recorda.
A descoberta foi fotografada com uma máquina descartável e o orifício encerrado. Quanto à mumificação artificial, António Matias explica que foi um método usado no Norte de África durante milhares de anos. Ora, D. Pedro de Meneses era capitão-general do exército português em Ceuta, onde morreu, tal como a sua terceira mulher, D. Beatriz Coutinho.
A mumificação terá sido a solução para conservar o falecido durante a trasladação para Portugal. O arqueólogo acredita que se trata de D. Beatriz Coutinho, dadas as características ósseas e as referências em textos de 1725, data da abertura do túmulo pela primeira vez.
O estudo do achado seria útil a inúmeros investigadores. Segundo a antropóloga Eugénia Cunha, da Universidade de Coimbra, trata-se de “um caso raro” porque a maioria das mumificações em Portugal ocorreram graças a condições especiais de humidade e temperatura. Outro corpo que poderá ter sido alvo de mumificação artificial foi encontrado em Lisboa, na Igreja do Sacramento.
HISTORIAL DE DESCOBERTAS
Duas equipas de arqueólogos estão neste momento a trabalhar em Santarém. A cidade e o concelho têm um longo historial de descobertas arqueológicas e, no último ano, as pesquisas trouxeram à luz importantes achados.
O caso mais recente é o de uma lixeira medieval, encontrada no largo Cândido dos Reis, de onde os arqueólogos da Câmara Municipal têm retirado cerâmica e outros artigos que permitirão conhecer a vida em Santarém entre os anos de 1600 e 1640.
Antes, na mesma zona, já tinham sido descobertas duas relevantes necrópoles, uma de origem católica e outra de origem islâmica. Esta última conta 240 sepulturas e é uma das maiores descobertas na Península Ibérica.
ACHADO RARO
LOCALIZAÇÃO
O túmulo da família de D. Pedro de Meneses pode ser visitado, mas é impossível ver o seu interior. Está na Igreja da Graça, no Largo Pedro Álvares Cabral, no centro histórico.
CRÂNIOS
No interior do túmulo foi observado um corpo principal ladeado por diversas ossadas de outros indivíduos e seis crânios dispostos em semi-círculo na zona da cabeceira.
DETALHES
O corpo mumificado preservou a maior parte dos tecidos moles, ligamentos e tendões. Foram observados vestígios de roupa e tecido que terá pertencido à cobertura do corpo.
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