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Correio da Manhã

Cultura
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"Sei que fiz muita coisa bem feita"

Paulo de Carvalho celebra 55 anos de carreira com o disco ‘duetos’ que junta várias gerações de músicos.
Miguel Azevedo 24 de Maio de 2017 às 19:45
Paulo de Carvalho e Marcelo Rebelo de Sousa
Marcelo Rebelo de Sousa recebeu Paulo de Carvalho e o filho, também músico, Agir
Paulo de Carvalho e Marcelo Rebelo de Sousa
Marcelo Rebelo de Sousa recebeu Paulo de Carvalho e o filho, também músico, Agir
Paulo de Carvalho e Marcelo Rebelo de Sousa
Marcelo Rebelo de Sousa recebeu Paulo de Carvalho e o filho, também músico, Agir
Neste novo disco junta muitos músicos da nova geração como Diogo Piçarra, Áurea, Raquel Tavares, Agir ou Miguel Araújo. Sente o dever de dar a mão a esta malta nova?
Nunca pensei muito nisso porque tem sido uma coisa natural ao longo dos anos fazer música com pessoas diferentes, sejam mais novas ou mais velhas. Mas sim, acho que é quase obrigatório os mais velhos darem a mão aos mais novos. Faz todo o sentido deixarmos pequenas sementes para crescer. Estes disco tem três gerações: a minha, uma mais intermédia e uma mais nova. E isso também vai fazer, forçosamente, com que eu chegue a um público mais novo. Mas o que espero mesmo, até pela dívida que tenho com o público, é que este disco possa contentar toda a gente.

E aprende-se muito com esta malta nova ou quem já tem 55 anos disto já tem a escola toda?
Não, aprende-se. Eu até podia dizer que, quanto mais não seja, se aprende o que não se deve fazer [risos], mas a verdade é que se aprende bastante.

Assim como?
Vou dar o exemplo do produtor deste disco, que é o Agir e que, por acaso, é meu filho. Se eu não tivesse feito este disco com ele teria sido muito mais difícil. Este álbum é o caminho da minha vida, mas também tem muitas cantigas que fazem parte da vida de muita gente.

Ainda se consegue redescobrir quando canta estas canções já com tantos anos?
Há sempre pormenores e coisas novas que se vão descobrindo. Aliás, eu acho uma chatice cantarem- -se as canções sempre da mesma forma durante anos seguidos. Há coisas que descobrimos até para nós e que o público muitas vezes nem dá por isso.

O Paulo tem mais de 300 canções registadas. Orgulha-se de todas elas, ou há algumas canções que preferia não ter feito?
Não, todas tiveram o seu tempo, umas foram de facto melhores do que outras, algumas ficaram pelo caminho e depois há as que gostamos mais, que forçosamente não correspondem à preferência do público. Eu tenho uma dívida enorme para com a maioria das pessoas. Se quisesse quebrar com essa dívida deixava de cantar ‘Os Meninos do Huambo’, ‘Flor Sem Tempo’ ou o ‘E Depois do Adeus’. E isso eu nunca vou conseguir fazer.

Mas todos os cantores têm aquela canção quase ‘maldita’ que lhes fica colada de tal forma que eles vão ter que a cantar para o resto da vida, mesmo que já não a suportem!
Há uma boa solução para isso, que é cantá-la de forma diferente sem a transformar muito. Claro que às vezes pensamos: ‘Que raio só nos conhecem por isto!’, mas eu não tenho o direito de não cantar as canções que o público quer ouvir. As pessoas têm sido muito generosas comigo até em épocas menos boas.

Uma das canções mais emblemáticas do Paulo é o ‘Gostava de Vos ver Aqui’ que fala muito desta relação do artista com o palco. Ao final de 55 anos, o palco ainda tem mistérios para si?
O palco tem sempre mistérios porque cada espetáculo é uma coisa nova. Nós nunca sabemos o que é que para ali se vai passar. Às vezes nem tem muito a ver com o que fazemos, mas com a reação do público. Eu tenho que ser merecedor do melhor do público e, para isso, também tenho que lhes dar o melhor. Desculpem a possível falta de modéstia, mas eu tenho um nível de exigência ao nível da atuação nos meus concertos. Os meus espetáculos podem ser brilhantes, muito bons ou bons, mas não admito que sejam maus.

Mas sente-se o quê em palco ao fim de tanto tempo? Receio ou respeito?
Respeito sim, sempre. Quanto menos receio vou sentindo, mais respeito sinto. Hoje já não sinto nervosismo e isso tem a ver com a certeza do que fiz e do que faço.

Mas costuma dizer que chegou a ter muito medo do palco!
Ui, então não tive. Eu chegava a bater com os joelhos um no outro. O Festival de 1974 foi um deles. E depois tinha esta coisa de ficar com a boca seca.

E em que altura é que passou esse nervosismo?
Não sei. Passou com os anos, passou com o tempo, mas não consigo precisar quando é que saltei o muro de um lado para o outro.

Quando olha para estes 55 anos, sente que já lá vai este tempo todo, ou este número parece-lhe mentira?
Epá! 55 anos é, de facto, muito tempo, mas para mim o importante é que a paixão e o entusiasmo são os mesmos. Eu tenho a sorte de ter uma profissão que amo, algo que não se passa com muita gente, que não tem essa sorte. E eu não posso deitar isto fora.

Ou seja, a música, para si quase que não é trabalho!
Não, não. Isto é trabalho. Aliás, isto dá muito trabalho. As pessoas só nos veem em palco mas não sabem o que é preciso fazer para chegar lá. Mas eu não saio daqui. Só quando não conseguir mais.

Que ideia é que acha que as pessoas hoje fazem de si?
Não sei. Às vezes até há pessoas na rua que me perguntam se eu ainda canto. Acho que isso acontece porque não tenho uma vida muito intensa. Mas com este disco nós estamos a tentar reaparecer com força.

Isso quer dizer que é preciso estar sempre a recomeçar?
É bom ter esse espírito [risos], porque isso faz com que tenhamos mais atenção ao que fazemos e vivamos apaixonados pelo que fazemos.

E o passar do tempo e a idade vão permitindo fazer isso?
Epá! Há sítios do meu corpo que não me doíam há uns anos [risos], mas depois há coisas difíceis de explicar como há uns dias, no aniversário de um amigo meu, em que tive a noite toda a tocar bateria.

O que acha que vai deixar?
Não sei, eu não estou muito preocupado com o que é que vai ficar de mim, mas eu não sou um falso modesto e sei que fiz bem muita coisa.

Mas tem a noção de obra feita?
Sim e sei que tive muita sorte em poder cantar.

TRABALHAR EM FAMÍLIA

Este disco conta com os seus filhos Agir (além de produtor do álbum canta ainda o tema ‘O Meu Mundo Inteiro’) e Mafalda Sacchetti (que interpreta a canção ‘Um Beijo à Lua’). Como é que é trabalhar com eles?
É normal. O Agir, enquanto produtor do disco, fez-me uma proposta, discutimos um pouco, falámos sobre o que era preciso fazer e avançámos, como dois profissionais. E com a minha filha Mafalda foi a mesma coisa. Eles são músicos e são pessoas desta profissão. É verdade que muita da sua instrução musical e profissional foi a ver o que eu fazia, mas eu nunca lhes disse para fazer assim ou assado. Nunca foi meu feitio indicar caminhos a ninguém. Se por acaso os indico é através da minha forma de estar.

Alguma vez pensou se esta coisa da música foi uma coisa hereditária para eles?
Nunca pensei nisso [risos], mas acredito que existam sempre por lá uns pinguinhos de nós. O que acho é que tenho tido uma grande influência neles, da mesma forma como estou a ter agora com as irmãs mais novas, com 9 e 14 anos.

E como é que acha que exerce essa influência?
Acho que essa influência acontece através daquilo que elas me vêm fazer e da música que lhe dou a ouvir.

E que relação é que as suas filhas mais novas têm com as músicas do pai?
Epá! Têm melhor relação com as músicas do irmão Agir. Conhecem umas cantigas do pai mas se eu puder cantar com o irmão, elas preferem [risos]

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