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Correio da Manhã

Cultura
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NASCEU UMA TRADIÇÃO?!

Parece começar a ser tradição. Tal como o ano passado, o pai de todos os festivais rock em Portugal arrancou ontem molhado, após uma manhã e início de tarde sob o signo da chuva. Intermitente mas incómoda, sobretudo para quem já se encontrava acampado, a chuva serviu para acentar o pó mas revelou-se um problema também para aqueles que aqui rumaram atraídos não só pela música.
12 de Julho de 2002 às 23:51
Na verdade, ontem pela tarde, e numa altura em que as camionetas despejavam dezenas e dezenas de jovens de mochilas às costas, na localidade os comerciantes faziam contas à vida, esperançados ainda nas benesses de S. Pedro, que deixava vislumbrar uns tímidos raios de sol.

Para Joaquim Manuel, que aqui abancou há dias para vender “tudo o que for para a boca”, o festival pode ser uma tábua de salvação. Os preços são “à medida das necessidades” disse, frisando que não é por “não terem uns cêntimos (os peregrinos) que vamos deixar de vender. Para o ano trago chapéus de chuva”, atirou bem disposto.

Com o frenesim da chegada e consequente procura de um lugar para acampar - as preferências vão para as margens do rio Coura -, o arranque formal das festividades passou, para uma imensa maioria para plano secundário. Díficil mesmo era conseguir um lugar seco. Nada que perturbasse porém o desejo de ficar. “O meu lugar do ano passado já está ocupado”, lançou um jovem algo desgastado com a realidade.

Apesar do clima adverso, há também quem pense que a água caída dos céus pode ser benéfica para o seu negócio. Referimo-nos ao casal sul-americano, que apressadamente retirava da Ford Transit mais uma molhada de camisolas. Sem querer revelar a identidade, o patriarca da família lá foi brincando com a situação, esperançado em que “quando tiverem frio ou quando estiverem todos molhados” se possam voltar mais assiduamente para a sua banca.

Já habituados a estas andanças, muitos dos moradores aproveitaram a tarde de ontem para visitar o recinto. Na altura em que ainda não se controlavam as entradas, e os Lamb prosseguiam o seu ensaio de som, era vê-los com as crianças pelas mãos olhando de soslaio para o desfile de excentricidades que ocasiões desta natureza sempre suscitam.

PRATA DA CASA

Pontapé de saída no calendário festivaleiro rock nacional, Vilar de Mouros 2002 contou com uma banda local, os Withsx, para fazer as honras da casa. Foi a eles que coube dar início ao desfile no palco secundário, uma espécie de montra onde tinham também presença marcada uma série de novos valores da música portuguesa, casos dos Loto, Stoways, Mesa e 3angle. Porém, face à hora e às circunstâncias - mais importante era “abancar e comer qualquer cena” -, o cortejo funcionou como banda sonora de boas vindas a Vilar de Mouros. É que as emoções maiores estavam reservadas para a noite, no distante palco principal onde se esperava o desfile dos grupos Mind Da Gap, Lamb, Cake e, a fechar, Manu Chao. Sons quentes em perspectiva e como que em jeito de desafio às aversas condições meteorológicas.

Preparada para a grande invasão - a organização aponta para cerca de 25 mil pessoas -, Vilar de Mouros confirma a cada ano a sua singularidade. É que ao contrário de outras manifestações similares autenticamente “plantadas”, Vilar de Mouros é, simultaneamente, palco e protagonista da grande festa, bastando sair do recinto para se poder circular pela vila como que transformada nestes três dias numa zona franca de “loucura controlada”. Senão como entender aqueles jovens que, mesmo nas barbas de um GNR inundavam o ar de aromas... marroquinos. Mas é, sobretudo, a comunhão entre as gentes locais e os forasteiros que faz de Vilar de Mouros um festival único. Tudo num cenário paradisíaco cujo maior problema continuam a ser as melgas. Pormenores comichosos...

Na sua sétima edição, Vilar de Mouros prepara-se também para prestar homenagem ao principal mentor do festival, António Barge, falecido há escassos meses. O singelo tributo está marcado para amanhã, com a realização de uma missa na capela situada no interior do recinto, que desde 1999 leva o seu nome.
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