Nem sempre uma boa história é notícia

Foi o primeiro jornalista português a entrar em Timor depois da invasão indonésia. Saiu de lá com o primeiro livro. Os sucessores pediram-lhe ficção e ele deu-lhes policiais. O terceiro chega dia 13 ao Corte Inglés.
09.07.05
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Nem sempre uma boa história é notícia
Rui Araújo Foto José Barradas
Correio da Manhã – O primeiro livro está tão longe do policial como perto do caso de polícia... Recorde o ‘Regresso a Timor’.
Rui Araújo – Em 1982, foram necessários seis meses de atribuladas negociações com Jacarta para poder entrar em Timor. A última presença de um repórter português no território, Adelino Gomes, datava de 1975. E eram raros os jornalistas estrangeiros independentes autorizados a cobrir ‘in loco’ a ocupação. No seguimento da ‘Grande Reportagem’ emitida pela RTP (que me valeu nove longos anos de lista negra indonésia) decidi escrever um livro: ‘Regresso a Timor’.
– E foi um acto de denúncia ou de catarse?
– O drama daquele povo que Portugal atraiçoara e o Mundo teimava em continuar a ignorar em nome de estratégias duvidosas marcou-me imenso. As notas de reportagem e a minha memória atordoada permitiram-me tentar ir mais longe, sem limitações de tempo e de imagem. Tentei provar, por outro lado, que ‘viajar’ não significa necessariamente ‘ver’ e muito menos ‘escutar’. ‘Regresso a Timor’ é o livro apaixonado de um tipo de 30 anos confrontado com a coragem e o fanatismo. E, acessoriamente, com o perigo com o qual mantém uma relação de indiferença…
– O terceiro policial, ’A Amante Fatal’, nasceu como, porquê?
– Nasceu depois de dois romances policiais e de um livro de ‘non-fiction’, ‘Corruption Notebooks’ (de que sou co-autor enquanto membro do Consórcio Internacional dos Jornalistas de Investigação), publicado o ano passado nos EUA. Depois de ‘À Queima-Roupa’ e de ‘Lisbon Killer’ decidi continuar a contar mais histórias de polícias e de homicidas. Parafraseando o escritor Dashiell Hammett, era um jornalista de investigação, portanto, escrevi sobre investigação. Os três ‘thrillers’ relatam casos reais que ocorreram em Portugal nos últimos anos.
– Como jornalista privilegia a investigação e como escritor o policial... Porque nem sempre uma boa história é uma boa notícia, é isso?
– E nem sempre uma boa história é notícia. A corrupção (documentada) em Portugal (’Corruption Notebooks’) interessou os americanos, mas foi deliberadamente ignorada cá. E as negociatas no ‘off shore’ da Madeira que investiguei recentemente para o programa ‘60 Minutes’ da CBS News também não foram notícia em Portugal. Não me surpreende. É o país. E é ainda a imprensa (e os jornalistas mal formados e irresponsáveis) que temos. É muito mais importante divagar sobre o último escândalo sexual ou relatar as tricas do nosso ‘jet set’ pacóvio. É tempo de os jornalistas portugueses recusarem a mediocridade e começarem a promover uma cultura ddestae cidadania.
– Entretanto, sonha com “uma volta ao mundo de veleiro”. Seguida de ‘diário de bordo’ ou ‘crónica de viagem’?
– O mar é o derradeiro espaço de liberdade. É o único lugar onde confundimos espaço e tempo, como escreveu Deniau. Contamos as distâncias em dias. E o mar é também o único lugar onde não é preciso derrotar ninguém. Nem provar nada a ninguém. Enquanto não dou a volta ao mundo sonhada pelos três cabos míticos vou escrevendo histórias de marinheiros...
PERFIL
Rui Araújo, 51 anos, natural de Lisboa, tem no Porto a cidade de eleição, pelas pessoas, pelos lugares... Jornalista ‘freelancer’, estreou-se na Radio France Internacionale e, em 30 anos, fez tudo o que podia ter feito. Resultado: nove prémios no currículo. De Timor trouxe o primeiro livro com as histórias que nunca foram notícia. O prazer de escrever policiais, esse, está para durar. Outros prazeres passam pelos livros de Hemingway e Manuel Alegre, as canções de Brel e, mais que tudo, o mar.

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