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Correio da Manhã

Cultura
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NO JARDIM DO TEMPO

De O Jardim das Paixões Extintas podia dizer-se, a título informativo, que é o livro póstumo de Álvaro Guerra mas porque há títulos maiores que os reservados à informação, diga-se antes que, este, é um livro intemporal, livre das amarras dos dias datados e, assim, se ganha a posteridade. A imortalidade também.
10 de Julho de 2002 às 22:27
O tempo com o seu ritmo de vários tempos é, ele próprio, “O Jardim das Paixões Extintas”, romance a duas e mais vozes que parte de um filho em busca do passado do pai que descobre nas cartas da amante que...

“O Jardim das Paixões Extintas“ é, mais um tempo que um lugar, roteiro e timoneiro nesta viagem ao passado. Do mais próximo ao mais distante. E há-de valer ao viajante mais do que procura. E no pai a descobrir há-de encontrar o desconcerto de se descobrir a si próprio e aos que lhe sendo próximos sempre tratou com a distância que pomos nas pessoas e nas coisas que não queremos nossas. Porque dá trabalho a manutenção dos afectos e ele é um homem com pressa, sem rumo, mas com pressa, por isso, presa fácil da tentação do abismo... “Não fora o que nos separava e talvez nunca acordássemos na mesma cama”.

DE JARDIM EM JARDIM

“Fiz rapidamente as minhas contas. Em Novembro de 1975, quando a nossa revolução acabou, Rafael de Matos tinha 63 anos feitos. Era cedo para a reforma, sobretudo para um comunista calejado, vindo de tanta história, de tanto cárcere. Ano e meio de legalidade, desde Abril de 74, metido nos meandros das lutas pelo poder, toupeira subitamente exposta à luz do dia, convencera-se que o futuro radioso chegaria amanhã, no sentido literal do termo. Mas diante dele esperava-o, apenas, um quarto de século de memória. Muito pouco para tal militância”, recorda-se.

Na solidão de “O Jardim das Paixões Extintas”, uma geração que fez todas as guerras é perseguida por uma que não tem porque as fazer, leia-se, um filho persegue um pai de quem não conhece quase nada, descobrindo de si mesmo quase tudo...

“Ao contrário de meu pai estou, no entanto, em constante reconciliação, no meu longo e lento passear por este jardim das paixões extintas, por via da paisagem, do verde minho ao azul ericeira, reverenciando o país petisco, o país pomada, saboreando com lentidão alentejana umas migas tostadas com carinho, na boca humedecida pelo tinto da bairrada. A minha solidão vai, portanto, bem acompanhada”.

São muitas as personagens a habitar este espaço, este jardim, que é, ao mesmo tempo, um buraco negro no tempo que passou e não passou ou passou mal ou soube a pouco, uma solidão e uma saudade do feito e do por fazer...

“A Vida como projecto só me fascinou até ao sublimar do imprevisível. Não se julgue que desprezo o futuro, sentimento impossível (até por não ser verdadeiramente um sentimento) e porque ao futuro entregarei sempre o melhor do meu passado. E do meu presente. Grande parte do livro ilustra esta ilusão”, Álvaro Guerra por Álvaro Guerra.
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