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Correio da Manhã

Cultura
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“Nunca fui nem sou de me queixar”

José-Augusto França, historiador e crítico de arte, literatura e cinema, além de romancista, tem um novo livro de ficção desde ontem nas livrarias, ‘João Sem Terra’, história de exílio com acção na cidade dos seus encantos: Paris.

5 de Dezembro de 2008 às 00:30
“Os escritores são egoístas e competitivos”, diz o historiador
“Os escritores são egoístas e competitivos”, diz o historiador FOTO: Tiago Sousa Dias

"Sou um parisiense intermitente. Vivo seis meses cá e outros tantos lá, na casa de família da minha mulher, a uns 300 quilómetros de Paris. É uma quinta, perdida numa aldeia, um encanto, onde descanso, escrevendo", conta.

A descoberta da Cidade Luz, ao contrário da sua personagem, não resultou de exílio forçado mas de acto voluntário de estudante empenhado.

"Não sei o que é o exílio. Nunca fui nem sou de me queixar. Parti para Paris para estudar História de Arte, uma especificidade que cá não existia até eu a criar", afirma.

Antes, porém, passou por África. Em Angola havia negócios de família a exigir a sua atenção: "Por morte do meu pai, fui administrar de cafezais mas não era para mim. Nem a brutalidade colonial nem o cargo de administrativo. Só da terra e do povo trouxe saudade."

Dessa experiência resultou o seu livro de estreia, ‘Natureza Morta’, de 1949. "Era um romance anticolonialista, como não podia dizer-se na altura, que acabou por ter quatro edições, a última das quais de há dois anos", recorda.

Em 1959, estava na Sorbonne a fazer o doutoramento em História de Arte e a tese ‘Lisboa Pombalina’ fixa-lhe o nome.

"A Arte é a minha grande vocação, sobretudo a pintura, sendo pintores muitos dos meus amigos. Os escritores são egoístas e competitivos", diz.

Na viragem do século, escreve ‘Memórias para o Ano 2000’, a autobiografia possível e decide passar de vez de historiador a contador de histórias. "As ficções são memórias transformadas", avisa.

PESSOAL

PARIS

"A mais bela cidade do Mundo. Conheço muitas, mas nesta gosto de tudo e tanto que até a minha mulher é francesa."

LISBOA

"Cidade onde não passo sem o Jardim da Estrela, agora destituído do café das minhas tertúlias... Temos de o reabrir!"

ÁFRICA

"Uma saudade imensa de um quotidiano feito de dias comuns, nada extraordinários."

VILAR FORMOSO

"Fui preso na fronteira, no regresso de Paris, onde tinha assinado uma petição contra o assassinato do escultor Dias Coelho... Eu queria era salvar o passaporte!"

 

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