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Correio da Manhã

Cultura
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NUNCA ME SENTI TÃO FELIZ

Depois uma incursão pelos meandros da representação, Tim Booth, o ex-líder dos James, está de regresso com um álbum a solo, ‘Bone’. Ao CM, o músico recordou o passado e revelou a satisfação de ser novamente um homem ‘livre’.
4 de Julho de 2004 às 00:00
Correio da Manhã – Entre o final dos James e a edição de ‘Bone’, tem andado a fazer várias coisas relacionadas com a representação. Era um desejo antigo que se tornou realidade graças ao interregno na música?
Tim Booth – Sempre foi uma coisa que quis fazer, mas nunca tive tempo com os James. A representação é uma paixão, quer seja no teatro, cinema ou TV. Há muitos anos, ainda antes da formação dos James, fazia teatro. Só que a música acabou por vencer e tornar-se na minha actividade principal. Quando andava em digressão com os James, tive vários convites para representar, inclusivamente numa peça na Broadway, em Nova Iorque, mas não aceitei por não estar preparado. Além disso, entre gravações e digressões também não restava muito tempo para isso. Actualmente estou a escrever um argumento para TV e já escrevi outro para cinema. Cheguei a ter produtor para esse filme, que se chamaria ‘The Mind Fuck’ se alguma vez tivesse visto a luz do dia.
– O que aconteceu?
– Determinadas circunstâncias limitaram a concretização do projecto. Mas ainda não perdi totalmente a esperança.
– E no meio de tantos projectos, porquê voltar a gravar um álbum?
– Também fui escrevendo algumas canções nestes dois últimos anos. Mas foi um trabalho de composição muito diferente dos James. Não tinha obrigação de escrever música e, portanto, só o fazia quando me apetecia, em casa. Escrevi-as por puro prazer e, talvez por isso, a ideia de fazer um disco voltou a ser interessante. Mas durante muito tempo não pensei sequer em editar estas canções e também cheguei a pensar em dá-las a outros cantores. Talvez por isso estas sejam as canções mais fortes que alguma vez escrevi. Há nelas a força da espontaneidade e da verdade.
– Uma nova forma de estar na música, portanto...
– A música recuperou o sabor de novidade dos primeiros tempos. Gravei o disco com pessoas de outras áreas que estão agora a descobrir o mundo da música. Toda a gente que trabalhou comigo é desconhecida, o que prova que os melhores talentos escapam à indústria. Ouvi o Lee Baker [guitarra] pela primeira vez num bar em Brighton, Lisa era apenas a namorada de um amigo até ao dia em que a ouvi cantar e tocar piano numa festa de aniversário, David Naylor [bateria] fazia Stand up Comedy em Londres e era meu colega nas aulas de teatro. Mas eles tocam com uma paixão e um entusiasmo que me contagia e renova constantemente.
– Essa liberdade criativa foi o elemento que ditou as diferenças sónicas e atmosféricas entre ‘Bone’ e os trabalhos com os James...
– Sim. Este é um álbum mais descomprometido, mais solto. Mas a diferença essencial está no groove. O ritmo é mais marcante em ‘Bone’ do que em qualquer álbum dos James.
– O que sente quando recorda os James?
– Às vezes, penso que podíamos ter ido mais longe, se o tivéssemos desejado. Ou melhor, se nos tivéssemos adaptado ao sistema. Por exemplo, nunca gostámos de fazer promoção e isso é essencial. De resto, as coisas entre nós já não estavam a funcionar. Mas esses remorsos duram só cinco minutos [risos]. Nunca me senti tão feliz como agora.
– A hipótese de voltarem a reunir--se está posta de parte?
– Penso que sim. Eles também nunca mais fizeram nada juntos. Estávamos todos cansados dos James e só mesmo o Jimmy [baixista] tinha vontade de continuar.
– A água sempre foi um elemento recorrente nas canções e vídeos dos James. E agora volta a estar presente em ‘Down to the Sea’. Há alguma atracção pelo meio aquático?
– Sempre vivi ao pé do mar. O mar é onde me encontro, é o silêncio absoluto que me regenera e dá forças para voltar a terra firme. Aliás, pratico mergulho, sem garrafa de oxigénio, há vários anos. Sempre tive a mania de pregar partidas aos meus amigos que se assustam com o tempo que consigo estar debaixo de àgua. ‘Down to the Sea’ é a história de um amor entre dois seres subaquáticos. A ideia de fazer este vídeo estava na minha cabeça há mais de dez anos mas, infelizmente, nunca tinha tido oportunidade.
PERFIL
Desde que os James anunciaram o final das suas actividades musicais, em 2001, Tim Booth decidiu concretizar alguns dos seus sonhos e dedicou-se à escrita do argumento de uma peça de teatro e à representação. Curiosamente, é nestas andanças que acaba por conhecer os seus actuais companheiros de estrada, aqueles que, no fundo, vieram renovar a sua paixão pela música. Assim, o regresso ‘oficial’ às canções aconteceu este ano com a edição do álbum a solo ‘Bone’, cujo single ‘Down to The Sea’ é já um dos maiores êxitos de rádio da temporada. Para trás, no entanto, ficou uma brilhante carreira de quase duas décadas à frente daquela que foi uma das instituições da música britânica dos anos 80 e 90. Praticantes de uma atraente fusão de pop e folk, que conheceu nos álbuns ‘Laid’ (produzido por brian Eno) e ‘One Man Clapping’ os seus melhores momentos, os James separaram-se em 2001, deixando ‘órfãos’ milhares de fãs em todo o Mundo.
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