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Correio da Manhã

Cultura
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O artista é um deus de poderes limitados

É um verdadeiro testamento literário, o texto ‘Os Gigantes da Montanha’, em que Luigi Pirandello estava a trabalhar quando morreu, em 1936, e que está em cena no Teatro do Bairro Alto/Cornucópia desde 13 de Novembro.
27 de Novembro de 2008 às 17:27
Luís Miguel Cintra é o mágico Cotrone, alter-ego de Pirandello
Luís Miguel Cintra é o mágico Cotrone, alter-ego de Pirandello FOTO: Paulo Cintra

O protagonista da peça, o mágico Cotrone (Luís Miguel Cintra), é uma espécie de alter-ego do autor, um artista capaz de criar os mais complexos e perfeitos universos – desde que haja imaginação e capacidade para sonhar. Mas a sua condição de semideus tem limites: fora de sua casa (teatro?), ele perde os poderes e as suas artes mágicas deixam de surtir efeito. Entre a alegria da criação e a consciência da sua real impotência, vive o artista Cotrone – como vivia Pirandello e a classe artística em geral.

 

O espectáculo estará em cena no Teatro do Bairro Alto até 21 de Dezembro e assina a encenação uma criadora reincidente na Cornucópia: a francesa Christine Laurent – que dirigiu, na companhia, espectáculos como ‘Diálogos em Roma’, ‘Barba Azul’ ou ‘O Lírio’. A sua marca é, de resto, bastante notória no espectáculo: tem preferência pela criação de espaços abertos (o cenário de Cristina Reis estende-se até aos limites da possibilidade do espaço e os actores percorrem-no em toda a extensão); e pelos tons escuros (a luz, assinada por Daniel Worm D’Assunção, é, no global, bastante sombria e as mais das vezes aponta directamente para os locais onde a acção decorre). A encenadora acentuou também o carácter caricatural das personagens pirandellianas: a velha; a bailarina; o bufão; etc.

 

Finalmente, a criadora decidiu assumir que o texto ficou incompleto aquando da morte do autor, e o espectáculo termina não com um tom de conclusão, mas em suspenso – como se alguém deixasse o palco a meio de uma frase.

 

No global, o espectáculo resulta poético, melancólico, enigmático quanto baste – bem ao jeito de Pirandello – e a sua mais-valia reside na interpretação de um elenco maior do que é habitual na Cornucópia. Destaque para as prestações de Luís Miguel Cintra (que está perfeitamente à vontade na pele do artista entre o encantado e o desiludido), Rita Loureiro (uma actriz que não consegue deixar de confundir a vida e o palco), ou Márcia Breia, que é uma portentosa actriz de comédia e que compõe uma velha de antologia.

 

Ver de terça a sábado às 21h30, e aos domingos às 16h00.

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